Bolsonaro x Moro: Relação custo/benefício

Por Leonardo Henrique dos Santos

O presidente Bolsonaro arriscou um lance ousado no tabuleiro político. Para escapar ao risco do iminente xeque-mate, que seria a abertura de um processo de impeachment com base nas denúncias do ex-ministro Sergio Moro, ofereceu sua rainha ao adversário: deixou de lado uma das principais bandeiras que empunhou para chegar à presidência, que foi o rompimento com as práticas da “velha política”; e, sem demonstrar qualquer constrangimento, foi se aliar aos expoentes da tal velha política que tanto dizia combater – a bandidagem que comanda o grupo chamado Centrão.

Bolsonaro decidiu entregar aos bandidos, no mais claro exemplo do velho “toma lá, dá cá”, cargos em estatais como o Banco do Nordeste, a Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

O caso do cargo no Banco do Nordeste, oferecido ao PL, é, para usar expressão da moda, emblemático: o partido é comandado por ninguém menos que o notório escroque Valdemar Costa Neto, vulgo “Boy”. Seu prontuário inclui uma condenação a sete anos e 10 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro ainda no escândalo do mensalão. É tão habilidoso que, mesmo quando estava atrás das grades (saiu beneficiado pelo indulto concedido por Michel Temer), continuou, como continua até hoje, comandando o partido sem ocupar nele qualquer cargo.

É possível que Bolsonaro tenha avaliado friamente a relação custo/benefício dessa virada de postura aparentemente insana e suicida: ele certamente sabe que, como revelam todas as pesquisas mais recentes, já perdeu a totalidade daquela parcela de eleitores que votaram nele tapando o nariz, apenas porque seu nome era a única alternativa para impedir a volta do PT ao poder; também sabe que, do eleitorado que realmente acredita nele, mas sem fanatismo, irá perder uma boa parte, que não aceitará essa explícita adesão dele à velha política do “toma lá, dá cá”. Sobram a outra parte desse grupo e também os bolsonaristas fanáticos, extremistas da direita que, tal como os adeptos da seita lulopetista, seguem fiéis ao seu ídolo não importa o que ele faça de errado.

É um custo eleitoral traumático, mas com um benefício expressivo, principalmente a curto prazo, que no momento é o que importa: o Centrão soma 221 dos 513 deputados federais. E apenas 171, que representam um terço da Câmara, bastam para impedir a abertura de um processo de impeachment ou mesmo um pedido de investigação criminal contra o presidente da República. Bem avaliada, uma troca vantajosa – perde boa parcela do eleitorado mas reduz a praticamente zero o risco de ter que enfrentar um processo de impeachment. E no momento, para ele isso é o que importa.

Leonardo Henrique dos Santos é jornalista, ex-Folha de Londrina

2 thoughts on “Bolsonaro x Moro: Relação custo/benefício

  • 27/04/2020, 12:24 em 12:24
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    Na relação custo x benefício, o episódio de MMA entre Moro e Bolsonaro só está trazendo prejuízo ao país. Principalmente neste momento em que todos deveriam voltar seus esforços contra a pandemia que assola o país. Das duas personagens, difícil dizer qual é a pior. Se Moro esbraveja que Bolsonaro queria ter acesso a informações da PF e isto é crime, ele próprio já usou da mesma prática que agora denuncia. Como Ministro da Justiça, quase um ano atrás, Moro mostrou que tinha acesso a dados sigilosos de investigação da PF, o que também é ilegal. Quem não se lembra dos telefonemas de Moro a autoridades dizendo que elas tinham sido hackeadas e prometendo descartar o material ilegal para não devassar a intimidade das pessoas. Qualquer imbecil sabe que a destruição de provas só pode ser determinada pelo poder judiciário e Moro não mais fazia parte do poder judiciário. E como ele sabia o conteúdo das mensagens hackeadas? Para o bem do Brasil, Moro e Bolsonaro deveriam se afundar na lama em que criaram, bem abraçadinhos.

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  • 27/04/2020, 12:32 em 12:32
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    Bolsonaro não só se aliou a velha politíca: abriu as pernas para o grupo mais empepinado que o PT na lava jato. Bem feito para o povão. Tem gente perdendo emprego e culpando a esquerda. Quando acordar dessa utopia de direita vai ser tarde.

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