Márcio Stamm, o jovem que salvou a biblioteca do sábio

por José Antonio Pedriali

Morreu hoje, aos 55 anos, o empresário Márcio Stamm. Recuperado da covid em janeiro, precisou ser hospitalizado há poucos dias por infecção bacteriana nos rins.

Filho do finado deputado federal Mário Stamm, Márcio foi chefe de gabinete do prefeito Alexandre Kireeff e disputou a última eleição para a prefeitura de Londrina pelo Podemos.

Uma passagem de sua vida impõe ser lembrada: sua atuação para salvar a biblioteca do advogado e professor – brilhante nas duas áreas – José Hosken de Novaes, que, entre outras atividades políticas, foi prefeito de Londrina, vice-governador e governador do Paraná. Leitor compulsivo em vários idiomas e dotado de memória prodigiosa, Hosken montou uma das bibliotecas mais volumosas e diversificadas do Paraná. Quando seu escritório estava instalado numa casa da Rua Pernambuco, no centro de Londrina, na década de 1970, parte dele foi levado durante um temporal pela erosão do terreno vizinho, onde um prédio era construído.  Adolescente, amigo e vizinho de Hosken, Stamm liderou o resgate dos livros, episódio que contou a este jornalista para o livro “Hosken de Novaes, o homem que não se corrompeu”, com previsão de ser lançado este ano. A entrevista foi feita no Restaurante Rodeio, que a pandemia da covid fechou após mais de meio século de existência.

A biblioteca é salva do desastre

As fortes chuvas de um final de tarde provocaram o deslizamento do solo, fragilizado pela construção de um prédio no terreno vizinho, e esse deslizamento fez desabar a varanda, a sala de espera e parte do escritório, salvando-se a edícula nos fundos, que hospedava eventualmente um ou outro funcionário, e o maior tesouro de Hosken de Novaes: sua biblioteca.

O acidente aconteceu na década de 1980, quando seu escritório localizava-se na Rua Pernambuco, quase esquina com a Piauí – onde era construído o Edifício Terra de Imigrantes, causador do desastre. Hosken residia no edifício Maria Joana, a poucos passos de seu escritório.

Os livros foram resgatados por uma força-tarefa comandada pelo jovem Márcio Stamm e transportados em dois caminhões para um depósito provisório. A construtora reparou o prejuízo causado a Hosken construindo novo escritório para ele, um sobrado de dois andares na Rua Purus, Vila Nova. Hosken se mudaria com a esposa e filha adotiva para uma casa vizinha.

O escritório incorporava a biblioteca, que foi crescendo, crescendo até exigir oito cômodos, Estima-se que seu acervo de livros jurídicos, de história e literatura brasileira tenha ultrapassado vinte mil volumes. Ele se locomovia nesse labirinto com precisão cirúrgica, para espanto de seus interlocutores, escalando as escadas corrediças que permitiam o acesso aos escaninhos superiores das prateleiras para acessar os livros que serviam de referência ao tema abordado na conversa.

Os livros de história eram seus preferidos. Ele explicaria essa predileção ao receber, em junho de 1982, o título de membro honorário da Academia Brasileira de História: ”Para mim, não há nada mais belo que a História, e nada ensina mais ao homem do que a História. Na História se encontra estímulo para a luta, se encontra coragem para o sofrimento e paciência para os revezes. Como político sou leitor de História. Na História encontro conforto sempre. Quando estou abatido, vejo que gente muito maior do que eu sofreu mais; quando eu alcanço uma glória, vejo que gente em condições muito mais difíceis atingiu glórias muito maiores. A História me coloca sempre dentro da realidade, do meu tempo, das minhas limitações e possibilidades. E a história me leva sempre a amar, a servir ao povo porque vejo que, apesar das injustiças reinantes no mundo, a História acaba fazendo justiça e consagrando aquelas figuras que, de fato, marcaram sua presença e fizeram história.”

“Seu escritório é limpo, mas antigo: as mesas, as estantes, as máquinas mostram que ele não se deixa levar pela moda. Seu paletó cinza está colocado no encosto da poltrona”, descreveu o repórter Marcelo Oikawa na edição de 9 de março de 1975 do jornal “Panorama”. “Senta-se numa mesa de trabalho – lotada de livros e papéis -, olha reto através das lentes grossas”.

O escritório era para os clientes, a biblioteca para os amigos e parceiros de gosto pela literatura. Era na biblioteca que se confinava horas e horas para estudar os argumentos das causas que defendia. Varava madrugadas, muitas vezes adormecendo com um livro nas mãos. “A vida é amarga atrás dos livros”, desabafou para Márcio Stamm.

Era na biblioteca que recepcionava amigos, notívagos como ele, às três, quatro da manhã, ostentando – para espanto de muitos – uma indumentária radicalmente diferente da tradicional, composta por terno e a gravata: meias, camisa aberta e cueca.

“Às vezes o doutor Hosken deixa-se envolver tanto pela leitura que parece esquecido da realidade”, afirmou em 1982, para “O Estado do Paraná”, seu colega de trabalho Massonilo Carlos da Silva. “Lembro-me de um fato pitoresco a respeito. Ele estava lendo e então tocou o telefone. Chamei-o para atender e distraidamente o fez. Só que continuou com sua leitura, com os olhos pregados no livro e os lábios entreabertos, balbuciando algumas palavras. Não aguentei e caí na gargalhada”.

O acervo tinha livros raros, como as obras completas de Paulo de Lacerda, jurista e humanista, do qual Hosken se considerava discípulo. Um de seus ensinamentos era: “O Caminho Humano deve ser percorrido em profunda Paz de Espírito e (…) Sabedoria, expressando a grandeza silenciosa de teu Coração”.  Destacava-se uma edição de 1968 de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, com ilustrações de Aldemir Martins; 150 títulos de Ruy Barbosa; o “Código Philippino do Reino de Portugal”, de 1869, e o decano de todos – ”Dicionário da Língua Portugueza”, de 1813, de Antônio de Moraes Silva. Os livros mais queridos por Hosken ficavam próximos à sua mesa de trabalho, sobre a qual ostentava a lembrança de sua formatura em Direito: uma moldura com as fotos dos colegas de turma. “Para mim, os dois maiores livros do mundo são ‘Os Lusíadas’ e ‘Dom Quixote de La Mancha’”, confessaria ao discursar, em 15 de outubro de 1982, no encerramento da sessão solene de abertura da IX Exposição Filatélica Luso-Brasileira, realizada em Curitiba.

O acervo, que incluía obras em alemão, inglês, francês, espanhol e latim, teve início quando era estudante universitário e foi abastecido, nos primórdios de Londrina, carente de livrarias, com aquisições no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, feitas pessoalmente ou pelo correio. Hosken era assinante das maiores editoras jurídicas do país, que enviavam os principais lançamentos da área. Quando Londrina passou a contar com livrarias de porte, e isso ocorreu a partir da década de 1950, ele as incluiu entre seus fornecedores.

Hosken era cioso de seus livros, principalmente os raros, mas, assim como fazia com o dinheiro, doava-os a quem reconhecesse seu valor. Foi o que fez com o coronel, filósofo e professor da Universidade Estadual de Londrina – e mineiro como ele – Antônio Celso Mendes, a quem presenteou com a primeira edição em espanhol de “Leviatã”, de Thomas Hobbes, lançado originalmente na Inglaterra em 1651 e considerado um clássico da literatura política. (Ambos se conheceram quando Hosken era prefeito e Mendes comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar de Londrina e se reencontrariam em Curitiba duas décadas depois: o coronel na chefia da Casa Militar, ele no comando do Palácio Iguaçu.)

A quantidade e qualidade do seu acervo atraíam estudantes e pesquisadores, que solicitavam informações e empréstimos de livros. Ele os atendia, anotando a data do empréstimo e o nome do beneficiado – e cobrava a devolução quando o período se esgotara. A folha de rosto dos livros era carimbada com seu nome e registrava a data de aquisição do exemplar.

A antessala da biblioteca expunha fotos icônicas de Londrina. Quando as substituiu pela foto de Francisco Sciarra, que visitava Hosken todos os domingos e falecera havia pouco tempo, o jovem Stamm perguntou-lhe o motivo da mudança. “Envelhecer é muito triste”, explicou Hosken, “e o mais triste é a perda dos amigos e a solidão que vem desta perda”. O engenheiro Mário Stamm, pai de Márcio, viria a ocupar a galeria da nostalgia.

A biblioteca de Hosken foi vendida após sua morte ao Sebo Capricho, com matriz em Londrina, que tentou negociá-la integralmente com universidades. “Além de raras, as coleções estão completas”, informou Marcelo Basques, proprietário do sebo, à “Folha de Londrina” . ”Nesse acervo temos obras que eu, com a experiência de dez anos no ramo, somente ouvi falar e nunca tinha visto um exemplar. Livros que você somente encontra um ou dois no Brasil, referências até para autores jurídicos clássicos, que citam essas obras”.

O esforço do empresário foi infrutífero. Os livros foram comercializados no varejo em suas lojas.

José Antonio Pedriali é jornalista e escritor em Londrina

One thought on “Márcio Stamm, o jovem que salvou a biblioteca do sábio

  • 18/05/2021, 22:59 em 22:59
    Permalink

    PARABÉNS Pedriali, magnífico texto em homenagem ao amigo Márcio Stamm e ao saudoso Hosken de Novaes. Por várias vezes estive na antiga Construtora Stamm, que ficava na Rua Purus, ao lado da casa e biblioteca. Era início dos anos 90, éramos jovens, mas ainda recordo do carinho paternal entre os dois. Conheci o ” cofre de livros ” que armazenava muito conhecimento e conservei várias vezes com o Ex Governador. Homem simples e sábio que transferiu muitos dos seus ensinamentos ao irmãos Marcos, Mário e Marcio Stamm.

    Agradeço a Deus por ter convivido com ambos.

    Meus sentimentos a Simone, filhos, D. Aracy, Marcos e Mário Stamm.

    Resposta

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: