Câmara aprova processo de impeachment de Trump, que será julgado pelo Senado dos EUA

do El País

Trump em comício em Michigan.
Trump em comício em Michigan.LEAH MILLIS (REUTERS)

“Resolução 755 para o impeachment de Donald John Trump, presidente dos Estados Unidos, por crimes e ofensas graves”. Um cabeçalho de 18 palavras convocou os 431 membros da Câmara dos Deputados a votar se julgariam o líder do país mais poderoso do mundo por pressionar o Governo de Kiev a iniciar investigações que o favoreciam para a reeleição em 2020. Por volta das três da tarde (cinco horas da tarde, horário de Brasília), o debate parlamentar havia se tornado um acidente de trem entre republicanos e democratas sobre a culpa ou inocência de Trump.

“Hoje estamos aqui para defender a democracia do povo”, disse a presidente da Câmara, a veterana democrata Nancy Pelosi, ao abrir o debate. Pelosi, terceira autoridade da nação e líder dos democratas em Washington, apareceu de vestido escuro e falou em um tom calmo e sério, tentando transmitir uma ideia de solenidade institucional que contraria as críticas de Trump e dos republicanos, que acusam a oposição de agir de maneira partidária. Pelosi citou a Constituição e os pais fundadores e descreveu o presidente como “uma ameaça contínua à segurança nacional”. Enquanto isso, Donald Trump escreveu em sua conta do Twitter, em letras maiúsculas e vários pontos de exclamação: “Que mentiras hediondas da esquerda radical! (…) Este é um ataque à América e ao Partido Republicano!”

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Foi um dia de frases grandiloquentes e frases rudes, de manifestações nas ruas e nas redes sociais. Os parlamentares recordaram seus antepassados e o presidente pediu aos cidadãos que rezassem. A política norte-americana estava a ponto de escrever um capítulo importante da sua história. E, apesar disso, a estranha sensação de calma que domina o processo desde que começou seguiu, a despeito das pataquadas habituais do mandatário. E isso se deve não só a que a absolvição de Trump no Senado é dada como certa, mas também a que sua presidência instalou uma tormenta perene na Casa Branca.

Somente um líder tão incomum quanto Trump pode fazer um impeachment parecer outro dia no escritório. Antes mesmo de tomar posse, o escândalo da conspiração russa estourou e começou-se a falar em iniciar um processo de demissão, algo muito incomum na história dos Estados Unidos. A investigação independente não encontrou evidências de seu conluio com o Kremlin, mas revelou suas tentativas de torpedear as investigações, lançando as bases para acusá-lo de obstrução. Ele também é suspeito de um crime de financiamento ilegal de campanhas para pagamentos a uma mulher para silenciar suas supostas relações sexuais algumas semanas antes das eleições de 2016 e está em destaque por aceitar dinheiro de governos estrangeiros por meio de seu império hoteleiro.

Todos esses conflitos abalaram três anos de administração que, por si só, quebraram todos os protocolos imagináveis e transformaram os ataques e insultos do presidente na tônica usual.

A crise ucraniana rapidamente entrou em combustão. Um informante anônimo, empregado no Governo dos EUA, denunciou no verão que Trump estava pressionando o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, inclusive bloqueando a ajuda militar comprometida, para fazê-lo anunciar duas investigações que o beneficiariam eleitoralmente nas eleições presidenciais de 2020. Especificamente, Trump exigiu inquérito sobre Joe Biden, um candidato democrata, e seu filho, Hunter, que foi pago por uma empresa de gás naquele país quando seu pai era vice-presidente. Ele também pediu que se investigasse uma teoria desacreditada de que havia uma campanha de interferência lançada da Ucrânia nas eleições presidenciais dos EUA em 2016 para favorecer os democratas. Trump agora é acusado de abuso de poder por essas manobras e de obstrução ao Congresso por boicotar esse processo, negando a entrega de documentos ou declaração de membros da Administração.

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