Lula se reúne com lider da Assembleia de Deus

 

da Folha de São Paulo

Uma foto de Manoel Ferreira, bispo primaz de uma das mais poderosas ramificações da Assembleia de Deus, o Ministério Madureira, entre Lula e outro petista agitou os bastidores evangélicos. Seria sinal de uma igreja de peso disposta a fazer as pazes com o ex-presidente da República?

A imagem —com Manoel, Lula e André Ceciliano (PT), presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro— foi compartilhada na quarta (16) por Anthony Garotinho, ex-governador do Rio e primeiro presidenciável evangélico competitivo que o país teve, em 2002. Naquele pleito, quem venceu foi o PT, e com apoio de nomes evangélicos que hoje se dizem alérgicos ao partido, como o pastor Silas Malafaia e o bispo Edir Macedo.

Folha teve acesso a outro retrato: além de Manoel, Lula e Ceciliano, lá estão a deputada Benedita da Silva, única petista da bancada evangélica, e a presidente da legenda, deputada Gleisi Hoffmann. O grupo está sentado em volta de uma mesa, todos de braços dados e erguidos. Só o bispo não usa máscara, medida de proteção na pandemia da Covid-19.

O almoço ocorreu duas semanas atrás, na véspera do feriado de Corpus Christi, no sítio de Ceciliano, em Mendes (RJ). Lula se hospedou ali durante seu tour pelo Rio.

O convite partiu do presidente da Assembleia do Rio, que é padrinho político do vereador Júnior Martins, do PT de Japeri (RJ). Júnior é evangelista e trabalhou por 15 anos com Manoel, tendo sido seu assessor na Câmara dos Deputados. Foi ele quem levou o bispo à mesa. “André é meu padrinho. O bispo é meu paizão”.

O vereador diz que o ex-presidente manifestou o desejo de ter um vice evangélico na chapa para 2022. Ainda segundo Júnior, o bispo de 89 anos respondeu que estava “em idade avançada” e que essa seria uma missão que caberia ao filho Samuel Ferreira, que o substituiu na dianteira da Assembleia de Deus Madureira.

Acontece que a mesma Madureira sobe, literalmente, na garupa de Jair Bolsonaro. Atual presidente da bancada evangélica, o deputado Cezinha de Madureira (PSD-SP) foi o passageiro carona do presidente na motociata bolsonarista de sábado (12) em São Paulo, batizada Acelera para Cristo.

A hierarquia do Ministério Madureira é rígida nesse sentido, e Cezinha, que carrega o nome da igreja em sua alcunha política, não dá nenhum passo político sem orientação da cúpula pastoral. Hoje quem comanda de fato este ramo da Assembleia de Deus é o bispo Samuel.

Em anos passados, a romaria de políticos até Samuel incluiu João Doria (PSDB-SP), Michel Temer (MDB-SP), Aécio Neves (PSDB-MG) e o antigo aliado Eduardo Cunha (MDB-RJ).

PT tenta reconstruir pontes com um segmento que lhe tinha simpatia, mas que em 2018 mostrou uma coesão em torno de Bolsonaro que Lula nunca conseguiu.

Estima-se que sete em cada dez eleitores evangélicos tenham votado no atual presidente, patamar que superou a melhor performance do petista neste eleitorado. Em 2006, nas projeções para o segundo turno contra o tucano Geraldo Alckmin, seis em cada dez fiéis apertaram o 13.

Naquela campanha, o candidato à reeleição declarou em evento da igreja de Manoel: “Somos todos crentes e somos todos brasileiros”. O bispo retribuiu dizendo que “o poder deve estar na mão daquele a quem realmente Deus e o povo outorgaram”.

Os pastores das maiores igrejas evangélicas do Brasil mostraram unidade inédita na eleição que consagrou Bolsonaro. O petista jamais teve respaldo de todos, mas com Manoel, que presidiu a bancada evangélica durante o governo lulista, tinha boa relação.

A fotografia de Manoel e Lula ativou o desconfiômetro, entre pares evangélicos, de que a Assembleia de Deus Madureira poderia estar preparando terreno para uma reaproximação com o PT, sobretudo após o favoritismo detectado por pesquisa Datafolha de seu provável candidato à Presidência.

Até mesmo com eleitores evangélicos, a princípio mais refratários a ele por conta da ascensão das pautas identitárias, Lula empatou com Bolsonaro nas intenções de voto.

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