Mais um estupro, e aí vamos nos calar?

Coluna Pequena Londres – Walace SO

Buenas povo da Pequena Londres, dia 27/01 publiquei aqui um artigo sobre o caso de estupro na Espanha, envolvendo o jogador Daniel Alves. No sábado 28/01 numa calourada na UFPI a tragédia de todos os dias virou manchete no Brasil. E uma jovem estudante foi morta com sinais de violência sexual. No artigo coloquei o seguinte “não importa saber se o envolvido é famoso ou não, é relevante observar que o fato é recorrente, e esse tipo de violência não pode ser aceita”. E infelizmente não foi profecia do oráculo, mas uma constatação de que banalizamos a violência sexual, vivemos a cultura do estupro.
Apesar do acusado ter se entregado alegando que foi sexo consensual, o caso está muito estranho. Em suas palavras o encontro foi consensual, ele passou a madrugada com a vítima, e só percebeu de manhã que ela estava desacordada levando-a ao hospital. Então, quer dizer que se faz sexo consensual com uma pessoa e não fala mais nada? Reina o silêncio absoluto e pronto? No mínimo estranho.
Ainda mais quando lemos a decisão da juíza que consta o estado da vítima. A magistrada descreveu que a vítima “apresentava lesões no rosto, nos olhos e sangue nas partes íntimas”. Então foi sexo consensual e violento? Não li os autos para saber se ele afirmou esses detalhes. Se não afirmou, será contraditório como no caso do Daniel Alves, que já tem dele três versões. Assim, foi decretada a prisão preventiva, quando o suspeito fica detido por tempo indeterminado.
Ambos são estudantes, portanto anônimos para a sociedade, será que o caso terá a repercussão do ocorrido em Barcelona? A resposta a essa questão revelará muito da sociedade que somos e que queremos. De qualquer forma é violência sexual seguida de morte de uma mulher, um feminicídio. E crimes contra a mulher tem aumentado assustadoramente ano após ano. Devemos começar a agir com urgência como sociedade, pois não temos protocolos reais nos casos de violência sexual no Brasil. Lembrando que a vítima é sempre constrangida quando faz a denúncia e se transforma em dado de estatística.
Que não é um dado confiável, pois os dados oficiais são somente aqueles que são registrados e nada além disso. A vida humana a muito tempo é somente um mero número de relatórios e perdeu a sua relevância. Ainda mais num país de cultura machista, fundamentalista, falso moralista e hipócrita como o nosso. Na realidade a justiça não chega a periferia, ele só pertence aos bairros de alto poder aquisitivo ou para famílias que tenham ligações com o poder.
Também gostaria de questionar como uma “calourada”, que deve ter sido divulgada, principalmente nas redes sociais, aconteceu sem a instituição saber? Afinal, a festa rolou lá, e tudo aconteceu numa sala de aula vazia. Eu entendo que as universidades não tinham verba para quase nada nesse final de gestão, e muitos dos serviços terceirizados estão retornando nesse exercício. Porém, a responsabilidade existe, e a investigação tem que ser transparente e as responsabilidades devidamente cobradas.
A verdade é que a violência entra em nossas casas, pelas telas de tevês (quando as usamos), pelas redes sociais, nos filmes e nos noticiários. Ela já não nos toca, se tornou uma triste rotina, é “o elefante na sala”. Enfim, vivemos uma completa apatia social e ficamos anestesiados como “zumbis coletivos” ligados em rede. E o estupro, que é uma das piores violências, e que ocorre desde que o mundo é mundo, passou a ser crime a poucos séculos.
Observo que cultura e direito mudam com o período histórico e local. Só após os movimentos sociais, dos direitos humanos e feminismo no século XX é que foi sendo tipificado, para mostrar tão crueldade que ele é, contudo, o que mais me preocupa, é até quando seremos coniventes, aceitando esse tipo de violência sem nos indignarmos?
Bora refletir.

Walace SO – Walace Soares de Oliveira, cientista social pela UEL/PR, mestre em educação pela UEL/PR e doutor em ciência da informação pela USP/SP.

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