O silêncio não inocenta

O silêncio é um ato respeitoso em momentos de luto. Em um período onde o Brasil escala diariamente os tristes recordes de mortes por Covid-19, o silêncio respeitoso se faz mais do que necessário às famílias das milhares de vítimas desta tragédia.

No entanto, em algumas situações o silêncio pode ser desrespeitoso e mesmo afrontoso.

Como exemplo, citamos o caso do Sindicato dos Profissionais de Escolas Particulares de Londrina e Norte do Paraná, o SINPRO, que representa milhares de professores e funcionários (aproximadamente 5 mil, segundo o sindicato) de escolas particulares da região. O SINPRO está dando um admirável exemplo de silêncio desrespeitoso pelo menos desde o início do mês, quando começou a se discutir o retorno às aulas presenciais. Já a partir do dia 11/03, centenas de estabelecimentos de ensino voltaram às atividades presenciais no sistema híbrido (um grupo de alunos em casa, outro grupo na escola), no pior momento da pandemia, expondo ao risco diário de contaminação os professores, funcionários, crianças, adolescentes e suas famílias. Enquanto pais tiveram a opção de enviar ou não seus filhos à escola, os professores e funcionários não tiveram o mesmo privilégio: apenas foram dispensados aqueles que fazem parte do grupo de risco (*); já os que vivem com pessoas do grupo de risco foram solenemente ignorados.

Todo este movimento foi acompanhado pelo SINPRO através de um ruidoso silêncio: nenhum posicionamento público em seu site ou redes sociais, e se o filiado tenta entrar em contato através de seus canais de atendimento é encaminhado para uma futura ligação da diretoria responsável que prestará esclarecimentos – o que nunca acontece.

Assim, este silencioso sindicato se parece cada vez mais com seu correlato patronal: o SINEPE. Para alguns, pode parecer uma aberração a existência de um sindicato que defende os interesses dos patrões (afinal, eles já não são ótimos nisso?). Eu discordo. Penso que todas as categorias profissionais têm o direito à associação, mesmo que em um “antissindicato”. Contudo, já não concordo quando o próprio sindicato age também como um “antissindicato”.

Em seu site, o SINEPE já deixa bem claro aquilo que busca: está “buscando o MELHOR [destaque deles] para as escolas e alunos”. Compreensivelmente, não inclui ao lado da instituição e de seu público os trabalhadores que a fazem funcionar; esta é a função do SINPRO. No entanto, nosso sindicato – repetimos – mantém-se em atitude de desrespeitoso silêncio.

Mantém-se em silêncio quanto ao absurdo retorno inapelável de profissionais à escola, no pior momento da pandemia. Mantém-se em silêncio quanto ao desastre pedagógico que as aulas híbridas representam, onde o ambiente de aprendizagem é severamente prejudicado pelas falhas técnicas, pelo descompasso entre os grupos presenciais e online, pela tensão e medidas restritivas do ambiente presencial, pelo período de adaptação que temos que passar.

Vale reforçar: os professores e professoras amam a sala de aula, é o seu habitat natural, e estamos sofrendo como ninguém quando nossas salas de aula invadiram nossas casas e dispositivos particulares. No entanto, trabalhamos duro para adaptar nossas vidas em um ensino remoto, que se não é nada parecido com as aulas presenciais, ao menos não apresenta as dificuldades do ensino híbrido. Tudo o que queremos é retornar à sala de aula o quanto antes, mas uma sala de aula com todos os alunos fisicamente presentes, em segurança e em um ambiente de aprendizagem saudável.

Certamente, o retorno ou não às aulas presenciais é um debate legítimo e necessário, mas também profundamente marcado pelas experiências pessoais de cada responsável e pela situação de cada instituição. No entanto, cada uma dessas partes se faz representar de maneira digna, e o sentimento entre a categoria dos professores e funcionários é que esta representação não está acontecendo.

Se o SINPRO já se resignou ao papel de “antissindicato”, ainda é cedo pra dizer. Ao menos, enquanto a divulgação dos trâmites para a oposição à taxa de reversão salarial for mais ruidosa do que os posicionamentos em prol da categoria, aí sim está no caminho certo.

(*) Em tempo, os últimos rumores (ainda não confirmados) indicam que nem a vida do grupo de risco está tão segura assim. Há comentários sobre uma conversa entre SINEPE e SINPRO para combinar que mesmo com o atestado o funcionário deverá voltar se a escola providenciar o “ambiente adequado”. Torçamos para que não se confirmem…

Professor anônimo de Londrina

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