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Orides Fontela e a poesia como forma de conhecimento

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Orides Fontela e a poesia como forma de conhecimento
Imagem concebida por Luiz Bragança de Pina, criada com auxílio de inteligência artificial, a partir de fotografias de Fritz Nagib

 

Por Luiz Bragança de Pina

A escolha de Orides Fontela (1940-1998) como autora homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre 22 e 26 de julho de 2026, certamente levará muitos leitores a descobrir uma obra que, embora reconhecida há décadas pela crítica literária, permaneceu relativamente distante do público. A homenagem vem acompanhada do relançamento de seus livros, da publicação de uma nova biografia e da renovação do interesse pela poeta que ocupa um lugar singular na literatura brasileira.

Talvez a notícia mais relevante não seja a homenagem, mas uma questão:

Qual o significado de se dedicar a vida à poesia?

A trajetória de Orides Fontela exemplifica essa vivência. Ela construiu uma poesia marcada pela concisão e pelo rigor. Ao mesmo tempo, viveu longe do prestígio social, conquistou prêmios importantes e, nem por isso, se tornou popular; obteve reconhecimento intelectual e enfrentou dificuldades materiais. E, apesar de ser considerada uma pessoa problemática, foi admirada por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Marilena Chauí e Antonio Candido (“Era uma mulher má, de difícil convivência.”).

A literatura brasileira conheceu muitos poetas talentosos, mas poucos fizeram da poesia não apenas uma atividade, mas uma forma de existência. Nascida no interior paulista e formada em Filosofia pela USP, Orides preferiu escrever poemas: em vez da argumentação sistemática, a palavra concentrada; em vez da explicação, a imagem; em vez do discurso abundante, o rigor da síntese.

A presença da filosofia em sua obra merece, contudo, uma distinção. Segundo o poeta, tradutor e ensaísta Wladimir Saldanha, a dimensão filosófica da obra de Orides Fontela, manifesta-se de forma mais evidente nos primeiros livros, Transposição e Alba, em diálogo com os pré-socráticos. Depois, criou-se a expectativa de que ela permanecesse nessa linha de leitura, presente em parte da recepção crítica e também em leituras como as de Marilena Chauí. No entanto, Orides tornou-se mais livre, o que acabou produzindo um deslocamento na recepção de sua obra.

A filosofia está presente em seus livros, mas parece dissolvida na criação poética. Questões ligadas ao ser, ao tempo, à morte, ao silêncio, ao mistério e a transcendência aparecem como experiências incorporadas à linguagem e não como temas abstratos.

Aliás, gosto de dizer, após ler sua obra e sua vida: ser poeta foi sua filosofia.

Por isso, seus poemas frequentemente parecem caminhar em direção a uma fronteira: a palavra e o silêncio. A sua concisão reflete disciplina, não pobreza expressiva. Há uma recusa do excesso, a tentativa de aproximar a linguagem da medula. Em sua obra, cada palavra é necessária, impossível de ser retirada. “A poesia de Orides Fontela se destaca pela concisão expressiva, e o tema é quase sempre metafísico. Há uma definição do poeta e crítico, Ricardo Domeneck, que usa uma imagem para dizer que os poemas são como cubos de luz. Você recebe uma concentração expressiva, imagética e também sonora. Acredito que essa seja a maior distinção, pois as imagens são muito fortes e originais. Orides é uma poetisa fantástica”, destacou o professor, poeta, ensaísta e contista, João Filho.

Essa busca também aparece em sua relação com a natureza: pássaros, flores e rios atravessam seus poemas, não como paisagem decorativa, mas como presença. São elementos concretos a nos conduzir a perguntas maiores. O mundo natural não funciona como cenário; funciona como via de acesso ao real. Eis a quarta parte de Bodas de Caná, incluída no livro Orides Fontela – Poesia Completa, organizado por Luis Dolhnikoff e lançado pela Hedra em 2015:

Para os anjos a

água. Para nós

o vinho encarnado

sempre.”

Algo semelhante ocorre com a questão do sagrado.

A obra de Orides resiste às classificações fáceis. Não parece caber integralmente na categoria da poesia religiosa, nem na da poesia filosófica ou da poesia metafísica. Talvez porque se mova justamente na região onde essas fronteiras se tornam menos importantes.

No poema Teologia, por exemplo, integrado ao livro citado, ela escreve:

Não sou um deus, Graças a todos

os deuses!

Sou carne viva e

sal. Posso morrer.”

Há, nesses versos, em vez da fuga para a abstração, a afirmação da condição humana concreta: carne, sal, mortalidade. A transcendência não elimina o real, mas passa por ele.

Talvez seja essa fidelidade ao real uma aproximação entre vida e obra. Orides não filosofa por meio de discursos, mas pensa com seu legado de vida: a poesia.

Os relatos sobre Orides destacam sua personalidade reservada, sua existência austera e sua pouca disposição para os eventos sociais, inclusive os que cercam a vida literária. Em seu caso, a impressão de coerência entre vida e obra é difícil de ignorar. O mesmo rigor presente nos poemas parece ter orientado sua maneira de estar no mundo. Isso fica evidente em Gustavo de Castro, ao narrar diversos momentos de uma vida dedicada à poesia e marcada pela ruína, no livro O Enigma Orides (Editora Hedra, 2015).

Existe uma espécie de fidelidade nessa trajetória: fidelidade à poesia, ao pensamento e à busca de uma linguagem capaz de expressar algo proveniente do absoluto. “Entre as forças selvagens estava a poesia e, com a poesia, Orides era sem reservas”, escreveu Castro no livro acima citado, capítulo 6, intitulado “Do ser em mim: segredo e contingência”.

Num mundo cercado por estímulos, opiniões instantâneas e excesso de informação, onde a velocidade se tornou um valor em si mesma, Orides parece apontar para outra direção. Em vez de oferecer respostas prontas, ela recoloca em cena experiências cada vez mais raras: atenção, silêncio, contemplação e interioridade.

Por isso, a homenagem da Flip pode ser vista de forma ampliada, não apenas como celebração de uma poeta considerada importante pela literatura brasileira. Mais ainda: trata-se de uma possibilidade humana aberta, embora cada vez menos frequente, a de dedicar uma vida à busca do cerne das coisas, sem separar pensamento, linguagem e existência.

A obra poética de Orides Fontela é para ser lida e relida em sua integralidade; trata-se de uma poesia muito concisa e densa, um verso livre curto, cortante e de cadeia semântica absurdamente cheia, com uma poesia transitando entre certezas e incógnitas, de indagação às vezes metafísica. De fato, é uma obra de alto nível. Nesse artesanato, embora profundo e perceptível na preocupação com a palavra (metáforas, efeitos sonoros etc.), a lírica flui com leveza, sem deixar traços de artificialidade ou superficialidade. Resiste a vários ciclos de leituras, pois é uma poesia que não se esgota, paradoxalmente, ao invés de afastar o leitor comum, tem sido bastante procurada, daí que sua obra anda quase sempre esgotada e inacessível para quem deseja apreciar, o que demanda uma necessidade de ser reeditada com urgência.”, observou o professor, poeta, tradutor e ensaísta Cláudio Sousa Pereira.

Há algo de paradoxal nessa homenagem da Flip. Gustavo de Castro relata, por ocasião do lançamento de Teia, em 1996, a baixíssima presença de pessoas ligadas ao meio literário. Trinta anos depois, a mesma autora ocupa o centro da principal festa literária do país. Em vez de ser apenas uma reparação tardia, talvez também seja um lembrete: algumas obras continuam trabalhando silenciosamente no tempo, mesmo quando parecem passar despercebidas.

Eis mais uma oportunidade de voltarmos a ler Orides Fontela para reencontrar a pergunta que parece atravessar toda a sua obra: como habitar o real com a atenção suficiente para reconhecer nele um espaço de pensamento poético?

Ela afirmou, numa entrevista citada por Castro: “(…) eu não tenho mais nada além da poesia.”

| Luiz Bragança de Pina é escritor, professor e mentor de roteiro cinematográfico e articulista.

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