
Por Rogério Fischer
Minha memória futebolística começa, de verdade, em 1978, com a Copa do Mundo na Argentina, o que significa dizer que, embora palmeirense, sou um dos que acompanharam toda a carreira de Sócrates, a partir do momento em que, naquele ano, ele desembarcou em São Paulo para defender o Corinthians.
Com 12 anos, eu me inteirava sobre futebol nos programas esportivos da TV, nas narrações dos jogos do Palmeiras no rádio e na leitura diária do Estadão.
Foi, portanto, com inenarrável deleite que li, neste julho recém-terminado, as 250 páginas de “Sócrates”. A obra do jornalista Tom Cardoso conta a trajetória do Doutor, apresentado como o jogador mais original do futebol brasileiro, por conta do porte físico diferenciado, da militância política em prol da democracia e pela sua jogada característica: o passe de calcanhar.
A biografia traz minúcias inéditas e deliciosas, como as do leilão promovido por um lobista italiano para vender Sócrates para a Itália, onde já se encontravam Zico, Falcão e Cerezo.
Para negociar com Sócrates e o Corinthians, o lobista reuniu diretores da Fiorentina e do Napoli no mesmo dia e no mesmo local – sem que uns soubessem da presença dos outros.
Quando souberam que Sócrates nem iria ouvi-los, por já ter aceitado a proposta da Fiorentina, os caras do Napoli mandaram o lobista italiano à merda e, numas de não voltarem com as mãos abanando, passaram, antes, por Buenos Aires. Duas semanas depois, desembarcaram em Napoli com Diego Armando Maradona.

A obra de Tom Cardoso não deixa dúvidas: Sócrates sempre fumou e bebeu muito, desde os tempos de Botafogo e da faculdade de medicina de Ribeirão Preto. A exceção se deu nos três meses anteriores à Copa da Espanha. Em um acordo com o técnico Telê Santana, jogou-se nas mãos do preparador Gilberto Tim e, com isso, passou a conseguir dar piques de trinta metros e suportar 90 minutos de jogo – pela primeira e única vez na carreira.
Daí conclui-se que os propalados deuses do futebol são, mesmo, implacáveis, ao terem negado, em 1982, a coroar com a glória alguém que se esforçou tanto em desperdiçar seu próprio talento.
No livro, Tom Cardoso relata algo que provavelmente tenha escapado aos não-corintianos: Sócrates demorou para conquistar a torcida, que se incomodava com seu jeitão em campo, de pouco suor e tímidas comemorações de gols.
Ocorre que Sócrates sempre foi fã de Ademir da Guia, de quem – concluo eu – certamente herdou a cadência, a precisão e a elegância. E, ao cabo, a liderança, sem que fosse necessário ralar os joelhos ou trepar nos alambrados.
Ademir jogou até 1977. Sócrates chegou em 1978. Sócrates passou a ser, no Corinthians, o que o Divino havia sido no Palmeiras. Um sucedeu ao outro. Foi, tecnicamente, uma clara passagem de bastão.
A Fiel não poderia, de fato, ter gostado de Sócrates no início, porque ele personificava tudo o que ela, a torcida, houvera testemunhado do lado verde da força. A classe, a cadência e a precisão haviam, simplesmente, trocado de lugar, o que deixou palmeirenses abobalhados e corintianos a ranger dentes – mesmo que não soubessem porquê.
“Ele representou o vértice da serenidade e competência. O futebol nos ofereceu em sua trajetória um grande bailarino, a colocação impecável, a fronte eternamente erguida, a calma irritante, o passe perfeito, a simplicidade dos gestos, e o raciocínio implacável ficaram definitivamente em nossa memória.”
O parágrafo acima poderia ser de alguém descrevendo Sócrates. Mas não é. É Sócrates, em declaração para um livro sobre Ademir, definindo Ademir da Guia, a quem admirava profundamente, a ponto de incluí-lo em seus devaneios.
Na página 229 de “Sócrates”, o corintiano Tom Cardoso descreve a passagem do Doutor pela UTI do hospital Albert Einstein. “Em coma induzido, respirando por aparelhos, fortemente medicado para manter a pressão arterial estável, passou a sonhar em voz alta, num misto de delírio e consciência”, afirma a obra. “Um sonho era recorrente: uma partida entre o Corinthians da Democracia Corintiana e o Palmeiras dos anos 1960 e 1970, comandado por Ademir da Guia e Dudu”, prossegue o autor. “Nesse momento os gritos na UTI cessavam. Sócrates sorria e mexia os braços – era ao mesmo tempo o regente e o locutor do jogo imaginário.”
Leiam “Sócrates”.
Vale muito a pena.














