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Cláudio Osti

Socorro!!! Perdi meu celular. Minha vida estava no aparelho

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Socorro!!! Perdi meu celular. Minha vida estava no aparelhoPor Marcos Defreitas

​O Homo sapiens do século XXI guarda toda a sua existência, fotos, senhas e a própria identidade, em um retângulo de vidro de quinze centímetros. No momento em que esse retângulo muda de dono sem aviso prévio, a civilização rui com um silencioso sinal de ocupado na caixa craniana.
​Foi exatamente isso que aconteceu com Roberto, sujeito prevenido que viajou a trabalho para a vibrante Curitiba. Em um segundo de distração na calçada da Praça Osório, um esbarrão sutil libertou seu bolso. O celular foi embora e o ladrão sumiu na multidão.
​Decidido a reagir, Roberto pediu um telefone emprestado a um passante. O bom samaritano entregou o aparelho com o teclado aberto, e o espetáculo começou. Roberto encarou a tela e os números brilhavam como hieróglifos. A mente em pânico tentou acessar a memória. Para ligar para a esposa, só discava apertando na foto dela. O contato da mãe era um ícone de coração e o do trabalho, apenas um atalho. Ele percebeu que não sabia o número de absolutamente ninguém. Tinha decorado o registro geral aos doze anos, mas o telefone da esposa era um mistério impenetrável. Roberto estava neurologicamente ilhado no centro curitibano. Seu cérebro não era mais um órgão independente, mas uma extensão que precisava do chip.
​A ironia da nossa era é fascinante pois terceirizamos a memória para a nuvem e, quando a tempestade vem, ficamos sem sinal e sem cérebro. O medo fecha as portas da razão, resultando em amnésia involuntária.
​Para não passar pelo mesmo papelão do Roberto, a responsabilidade exige redescobrir a importância vital de memorizar os números dos nossos familiares. Guardar esses dígitos na mente é um ato de autopreservação. Afinal, a nossa dependência digital transformou o cérebro em uma simples tela espelhada. A tecnologia deve ser uma ferramenta de apoio, não a guardiã única da nossa voz. Se a sua capacidade de pedir socorro depende de uma bateria de lítio, você está a apenas um esbarrão de virar um fantasma na própria vida.

Marcos Defreitas é jornalista e colaborador do Portal

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