
Olho para o copo vazio sobre a mesa de madeira e, por um instante, o reflexo no vidro me devolve um rosto que mal reconheço. Houve um tempo, que hoje me parece guardado em um álbum de fotografias amareladas, em que a noite era um reino e eu, o seu mais convicto cidadão. Acreditava, com a pureza feroz dos vinte anos, que viver intensamente era uma forma de liberdade.
Fui menino criado ouvindo os profetas de uma geração. Raul Seixas me dizia para fazer o que eu quisesse, pois tudo seria da lei. Cazuza cantava a vida que se vive num segundo, e Renato Russo, com aquela voz que parecia um abraço e um aviso, me fazia crer que éramos tão jovens. Eu achava que o mundo se curvava diante do talento. Pensava comigo: “Não importa o que eu faça na madrugada, desde que no dia seguinte eu seja o melhor no meu ofício”. Era uma ilusão bonita, confesso. A ilusão de que a genialidade absolve a autodestruição.
Mas o tempo, esse cronista implacável de todos nós, não aceita desaforo. A vida é um cobrador silencioso que bate à porta quando menos se espera. O corpo, que antes aguentava o tranco dos excessos, passa a reclamar em dores miúdas e manhãs cinzentas. Aos poucos, a gente descobre que os deuses da nossa juventude morreram cedo porque a engrenagem é cruel, e nós não somos feitos de ferro.
O pior não é a ressaca física. É a outra, aquela que se instala na alma. Junto com o líquido que descia ardendo pela garganta, escorreram também os olhos cheios de esperança das mulheres que amei. Foram-se os abraços que eu não soube segurar. Desfez-se, como fumaça de cigarro na ventania, a confiança de chefes que antes me admiravam e o olhar de cansaço dos familiares que cansaram de esperar pela minha mudança.
No fim de todas as madrugadas, quando a música de bar silencia e as luzes se apagam, o que resta na mesa não é a liberdade. É uma cadeira vazia do outro lado. O alcoolismo, descobri tarde demais, é um mestre que ensina a subtrair. Ele nos tira o trabalho, o amor, o respeito e nos deixa uma conta pesada, paga na moeda mais dolorosa do mundo: a solidão.
Hoje, aceito o que sou. Um homem que recolhe os cacos do que sobrou, sabendo que algumas perdas não têm conserto, mas que, ainda assim, precisa aprender a caminhar no silêncio do dia que amanhece.
*Almir Escatambulo é Cientista Social e colaborador do Portal













