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Cláudio Osti

A crise que abalou o STF tem dois personagens: Alexandre Moraes e André Mendonça

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A crise que abalou o STF tem dois personagens: Alexandre Moraes e André Mendonçado UOL

Mensagens de Vorcaro, questionamentos sobre a atuação da PF e acusações trocadas entre ministros aprofundaram o desgaste da corte.

A divulgação de mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro desencadeou nesta semana uma das crises mais graves da história recente do STF. O material aproximou o ex-dono do Banco Master do ministro Alexandre de Moraes, colocou sob suspeita procedimentos adotados pelo relator do caso, André Mendonça, e dividiu os integrantes da corte.

O confronto ganhou dimensão institucional quando Moraes pediu que Mendonça fosse investigado e protocolou a solicitação no inquérito das fake news, relatado por ele próprio. O presidente do STF, Edson Fachin, interveio nesta sexta-feira (4), retirou o pedido desse inquérito e cobrou explicações dos envolvidos.

Segunda-feira: mensagens chegam à PGR

A crise começou a ganhar força na segunda-feira (31), quando Mendonça enviou à Procuradoria-Geral da República um relatório da Polícia Federal com dados extraídos do celular de Vorcaro. O ministro pediu que a PGR se manifestasse sobre os elementos encontrados e sobre a possibilidade de abertura de uma investigação.

O relatório reúne 52 mensagens enviadas pelo banqueiro a um número identificado pela PF como pertencente a Moraes. Elas foram encaminhadas entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025, dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez.

Nas conversas, o então dono do Master relata informações sigilosas sobre investigações contra o banco e pede ajuda para conter ou retardar ações da Polícia Federal e do Ministério Público. Vorcaro também pergunta se seria possível recorrer ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Dois dias antes de ser preso, ele consultou Moraes sobre a possibilidade de deixar o país: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Horas antes da prisão, voltou a perguntar se o ministro havia conseguido alguma informação ou “bloquear” a operação.

Terça-feira: relatório expõe relação entre Moraes e Vorcaro

Na terça-feira (1º), Mendonça retirou o sigilo do relatório. O documento revelou que Vorcaro escrevia as mensagens no bloco de notas do celular, fazia capturas da tela e as enviava a Moraes como imagens de visualização única.

As respostas atribuídas ao ministro também eram enviadas nesse formato e não foram recuperadas pela PF. Por isso, o material mostra o que Vorcaro pediu, mas não permite saber, na maioria dos episódios, o que Moraes respondeu nem comprova que ele tenha atendido às solicitações.

O relatório também trouxe outros elementos sobre a proximidade entre os dois. Segundo a PF, Vorcaro e Moraes se encontraram diversas vezes. O banqueiro recebeu o ministro e seus convidados em um almoço numa propriedade de luxo em Campos do Jordão, em dezembro de 2023.

Dias depois, o Banco Master começou a negociar um contrato de R$ 131 milhões com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Metadados indicam que a versão final do documento foi editada num perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório afirma que ele foi consultado apenas para verificar possíveis impedimentos legais.

Mensagens também mostram a autorização de cartões de crédito do Master com limite de R$ 300 mil para dois filhos do casal. Não há no material divulgado comprovação de que os cartões tenham sido utilizados.

Moraes ainda usou ao menos uma vez uma aeronave de uma empresa da qual Vorcaro havia sido sócio. Uma segunda minuta de contrato previa o pagamento de R$ 50 milhões ao escritório de Viviane, dos quais R$ 40 milhões seriam quitados com cotas de um jatinho e de um helicóptero. O escritório afirma que essa proposta não foi aceita nem assinada.

PGR contesta atuação de Mendonça

No mesmo dia, Gonet pediu a anulação do relatório. Para o procurador-geral, Mendonça não poderia ter determinado diretamente à PF que aprofundasse a apuração sobre outro ministro sem autorização do plenário do STF ou iniciativa do Ministério Público.

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo também apontaram problemas no procedimento adotado por Mendonça, embora não haja consenso sobre a anulação do material. A maioria avaliou que os elementos relacionados a Moraes devem ser apurados.

Gonet também aparece nas mensagens de Vorcaro. O banqueiro cita o procurador-geral ao pedir ajuda para conter medidas contra o Master. O filho de Gonet também é mencionado no material. O procurador-geral ainda não explicou publicamente essas referências.

Quarta-feira: encontro de Mendonça com Vorcaro vem à tona

Na quarta-feira (2), foi revelado que o próprio Mendonça havia recebido Vorcaro para uma conversa em março de 2025. A aproximação teria sido articulada por um advogado e por um deputado federal.

Mendonça confirmou o encontro e afirmou que apenas ouviu o banqueiro sobre um processo envolvendo precatórios. Disse ainda que, posteriormente, votou contra o interesse de Vorcaro no julgamento.

A revelação ampliou a crise ao mostrar que o ex-banqueiro também buscava aproximação com Mendonça, hoje responsável pelas investigações do Master.

Quinta-feira: Moraes reage e acusa Mendonça

Na quinta-feira (3), Moraes pediu ao presidente do STF que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.

O ministro acusou o colega de direcionar investigações por razões pessoais e políticas contra ele e contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Também afirmou que Mendonça teria ameaçado afastar Andrei Rodrigues e Gonet.

O pedido foi protocolado no inquérito das fake news, aberto em 2019 e relatado pelo próprio Moraes. A iniciativa ocorreu dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo das mensagens de Vorcaro.

Sexta-feira: Fachin intervém

Nesta sexta-feira (4), Fachin retirou o pedido de Moraes do inquérito das fake news e o incorporou ao processo que já trata do relatório da PF.
O presidente do STF deu cinco dias úteis para a PGR se manifestar sobre a admissibilidade das acusações contra Mendonça. Depois disso, o ministro poderá apresentar sua defesa no mesmo prazo. Fachin também pediu informações a Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei Rodrigues.

Segundo Fachin, as medidas não antecipam uma decisão sobre quem tem razão. O objetivo é esclarecer tanto o conteúdo das mensagens relacionadas a Moraes quanto a legalidade dos procedimentos adotados por Mendonça.

O que está em jogo

A crise envolve duas discussões simultâneas. A primeira é se Moraes manteve uma relação incompatível com o cargo com o controlador de um banco investigado por fraude e se atuou para ajudá-lo. As mensagens divulgadas contêm indícios graves, mas ainda não há comprovação de que os pedidos de Vorcaro tenham sido atendidos.

A segunda é se Mendonça ultrapassou suas atribuições ao determinar que a PF aprofundasse a identificação e a investigação de outro ministro sem submeter previamente a questão ao plenário.

O caso dividiu o STF e reforçou a pressão pela criação de um código de conduta para os ministros. Fachin também defendeu o encerramento do inquérito das fake news. Agora, a corte terá de decidir como investigar os próprios integrantes sem permitir que acusações pessoais substituam os procedimentos institucionais.

 

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