Por Marcos Cesar Gouvea
A escritora norte-americana Anne Applebaum aborda, com rara felicidade, o processo de corrosão da ordem política ocidental liberal do pós-guerra em seu livro “O Crepúsculo da Democracia”, publicado em 2020. Ela mostra como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política, fenômenos que estamos vendo de forma mais aguda aqui e agora no Brasil, a praticamente duas semanas do segundo turno da eleição presidencial.
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Milagrosamente Lula da Silva chega competitivo no pleito. Só sua reeleição pode minimizar os estragos causados por uma negligente maioria do eleitorado, que deu controle absoluto do Legislativo, notadamente no Senado, à ultradireitista coligação bolsonarista, colocando o país na antessala da ditadura. Os Bolsonaros já demonstraram à exaustão que preferem a ditadura e desprezam a Democracia.
Anne Applebaum mostra como o autoritarismo moderno nasce. Não das quarteladas como no século passado, mas da sedução de intelectuais, elites políticas e cidadãos comuns que ativamente decidem minar a democracia liberal por dentro.
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Nesse processo a atração autocrática é impulsionada não por crises econômicas, mas por fatores psicológicos e culturais segundo a autora. A princípio os golpes suaves “necessitam de uma elite de escritores, jornalistas e influenciadores para criar narrativas, teorias da conspiração e justificar a destruição das instituições democráticas”. Nesse momento é essa a situação brasileira.
Se tiver juízo, o eleitor brasileiro vai refletir muito sobre sua responsabilidade e consequências no seu voto no dia 25. O erro mais grave do eleitorado é votar sem muita reflexão, decidindo mais na emoção. Vota sem pensar na estratégia – visando o funcionamento da Democracia e as funções interdependentes dos poderes constituídos – , e leva em conta muito mais opções táticas como sua aversão a pontos morais e culturais, incluindo nesse contexto a ideologia de gênero, aborto, ações afirmativas, discriminação racial, currículos educacionais, embates religiosos e outros debates que movimentam grupos morais diversos. Em vez da busca de consensos, própria de toda a sociedade gregária, descambam para o ódio irracional. Como na guerra, investir na tática e esquecer a estratégia na política é um caminho perigoso para erros irreversíveis.
No Brasil a maioria absoluta no Senado eleita domingo pode moldar, numa eventual ditadura ultradireitista, a composição da Corte Suprema, acabando com o sistema de freios e contrapesos na ordem democrática e na interdependência dos poderes da República.
É o que estamos vendo hoje na ditatorial, desastrosa e insana presidência de Trump nos Estados Unidos. O eleitor norte-americano pode corrigir isso nas eleições de meio de mandato no dia 3 de novembro, elegendo maiorias democratas na Câmara e Senado, oxigenando o sistema democrático.
Na prática o governo Trump é uma ditadura, ignorando o Congresso e a Corte Suprema em decisões fora da lei e desastrosas. A atual guerra contra o Irã, que jogou o mundo numa crise econômica, é um exemplo. A guerra tarifária contra “todo mundo” é outro exemplo. Entre as várias medidas do trumpismo intervindo na eleição brasileira está justamente a imposição de tarifaços ao país.
No Brasil não temos eleições de meio de mandato e isso impede uma correção de rumos no Congresso para conter uma maioria extremista. Dificilmente grande parte do eleitorado brasileiro fez reflexões adequadas sobre a prudência de eleger os novos senadores. Foram eleitos para mandatos de 8 anos. A Casa alterna a quantidade de vagas disputadas a cada quatro anos. Foram renovados neste ano dois terços, 66,6%, 54 cadeiras do Senado. No longínquo 2030 a Casa renovará um terço, 33,3% ou 27 cadeiras, do Senado. Outra eleição para dois terços, só em 2034.
Voltando ao livro de Anne Applebaum, aprendemos que a sedução extremista em detrimento da Democracia, acontece pela simplicidade: “Diante da complexidade, do barulho e da cacofonia do mundo globalizado e hiperconectado, muitas pessoas desenvolvem uma predisposição ao autoritarismo. Elas passam a desejar soluções simples, ordem e homogeneidade cultural”.
De acordo com “O Crepúsculo da Democracia”, os movimentos populistas de direita manipulam o desespero cultural “ao vender a promessa de retorno a um passado glorioso, bucólico e idealizado como no discurso do Brexit no Reino Unido ou no Trumpismo nos EUA, que na verdade nunca existiu daquela forma”.
Applebaum alerta para o papel das redes sociais na deterioração da Democracia. “As tecnologias de comunicação modernas fragmentaram o debate público. Em vez de unir, os algoritmos criam bolhas que radicalizam os usuários a partir do medo e da raiva, substituindo fatos comprovados por ‘mentiras de médio porte’ projetadas para minar a confiança nas próprias instituições do Estado.”
Marcos Gouvea é jornalista e articulista convidado deste Portal
*Artigos de opinião não necessariamente representam a opinião do Portal














