Por Almir Escatambulo
O paranaense, essa criatura misteriosa que confunde frio subtropical com civilidade europeia, finalmente realizou seu sonho de consumo edipiano: elegeu o paladino da moralidade de província. Sergio Moro sentou-se na cadeira que já foi de José Richa, Hosken de Novaes e até do ¨homem dos cavalos¨ Álvaro Dias. É o triunfo definitivo do messianismo de PowerPoint.
Ratinho Junior, convenhamos, era o feijão com arroz do fisiologismo caboclo. Um populismo de terno bem cortado, asfalto nas estradas do agronegócio e a velha máxima de “não balançar o barco”. O fascismo ali era apenas estético, uma coreografia para a classe média que se acha elite porque passa as férias em Balneário Camboriú. Moro é outra ópera. Com Moro, a República de Curitiba oficializa o seu Reich de araque.
O que será o governo Moro? Um pesadelo burocrático-policialesco. O homem não tem ideias; tem ressentimentos. Sua visão de economia foi moldada por resumos do The Economist que ele provavelmente leu no banheiro de Washington. O governo será uma inquisição permanente. Espere-se a judicialização absoluta do cotidiano, a polícia militar tratada como força de ocupação ideológica e uma obsessão doentia em punir o desvio. Não há projeto de estado; há um projeto de purificação de uma subcultura que confunde o Código Penal com a Bíblia. É o fascismo da toga, mais perigoso que o do quartel porque se disfarça de “due process of law” ou, como dizem por ai, devido processo legal — o qual, aliás, ele nunca respeitou.
E o que faz a esquerda — ou o cadáver insepulto que atende por esse nome nas barrancas do Rio Paraná?
A esquerda paranaense passa os dias chorando no Twitter e se reunindo em DCEs vazios para discutir “recortes de gênero no cooperativismo de ovelhas”. Uma nulidade. Estão mortos e esqueceram de deitar. Querem combater Moro chamando-o de “marreco” e postando memes. Patético. Moro joga o jogo do espetáculo autoritário; o ridículo não o afeta, alimenta-o.
Se a esquerda quiser sobreviver ao inverno que se avizinha no Sul, precisa de um choque de realidade que o leitor de Marx da UEL, UEM ou da UFPR rejeitaria como “heresia burguesa”.
Primeiro, parem de falar para si mesmos. O operariado paranaense hoje dirige Uber ou colhe soja; ele quer ordem e quer dinheiro no bolso. Moro vai prometer ordem através do terrorismo burocrático. A oposição precisa desmascarar a ineficiência econômica desse moralismo de fachada. O lavajatismo destruiu a engenharia nacional; o morismo no governo vai paralisar a máquina pública paranaense por puro medo de assinar qualquer papel. É aí, na incompetência gerencial do “concurseiro”, que se bate.
Segundo, parem de purismo ideológico e façam alianças até com o diabo, ou com o que restou das velhas oligarquias tradicionais que Moro atropelou para chegar ao poder. Política é a arte do possível, como diria Bismarck, não um seminário de pós-graduação em sociologia. Se não aprenderem a falar a língua do povo, a língua da realidade concreta se não escutarem o que pensa o seu Antônio da Vila Nova, continuarão a ser uma minoria barulhenta assistindo, de camarote e em Curitiba, à marcha dos camisas-verdes da República de Curitiba.
Moro é o vazio absoluto travestido de autoridade. Para derrotar o vazio, é preciso substância, não histeria. Mas duvido que a esquerda tenha tempo suficientes para entender isso antes que a primeira viatura estacione na porta deles.
*Almir Escatambulo é cientista social e colaborador do Portal
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