Por Marcos Cesar Gouvea
Passada a eleição, inúmeros eleitores e influenciadores do campo bolsonarista apontam a virada de Lula da Silva como suspeita. Disseminando teorias de conspiração, colocam em dúvida a lisura do sistema eleitoral brasileiro e a apuração do segundo turno. Alegam subliminar ou diretamente que os números potenciais de eleitores de direita que saíram do primeiro turno não poderiam ter migrado para Lula na disputa decisiva.
A explicação na verdade é simples: grande número de eleitores de direita, moderados, rejeitaram a ultradireita representada por Flavio Bolsonaro, votando pragmaticamente preocupados com os riscos para a normalidade democrática no país.
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O erro dos partidários do bolsonarismo foi achar que os eleitores que se abstiveram no primeiro turno e aqueles que votaram nos candidatos conservadores votariam automaticamente em Flávio Bolsonaro. Não foi o que aconteceu.
A maioria desses votos migrou para a candidatura de um Lula que desde seu primeiro mandato, iniciado em 2003, sempre teve uma postura moderada. Naquele ano, por exemplo, nomeou o conservador Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central, onde ficou até 2011. Os ministérios de Lula nos seus três mandatos não espelhavam o extremismo, mas a moderação.
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Apesar de rotulado “de esquerda” Lula da Silva foi um social-democrata na sua carreira política. Já a dinastia Bolsonaro surgiu como opção clara de poder exatamente se comportando como extremistas na ultradireita. Os arroubos verbais de Jair Bolsonaro e seus filhos não mediam palavras na apologia da ditadura e no desprezo pela Democracia.
Nesta eleição os índices de rejeição a Flavio Bolsonaro atingiam patamares iguais e eventualmente ligeiramente maiores à rejeição a Lula. O presidente carregava ainda o desgaste do poder e foi acusado de corrupção, chegando a cumprir pena antes de ser inocentado.
No início da campanha de segundo turno, o levantamento do PoderData indicou uma ligeira retração na rejeição ao candidato do bolsonarismo. Flávio teve recuo de 3 pontos percentuais no índice daqueles que não votariam nele “de jeito nenhum”, passando para 43%, enquanto Lula tinha 46%.
Nas pesquisas registradas na reta final da campanha para o primeiro turno do pleito presidencial, as taxas de rejeição indicavam um cenário de forte polarização e equilíbrio entre os dois principais postulantes. No período entre turnos os dois apareciam empatados tecnicamente na rejeição.
Antes do primeiro turno os dois candidatos se revezaram numericamente com altos índices de rejeição. Em levantamento da AtlasIntel, Flávio Bolsonaro atingiu o patamar de 52,9% de rejeição e Lula da Silva 49,4%, números que parecem premonitórios.
O fato é que na véspera da eleição decisiva os institutos de pesquisas não conseguiram detectar as tendências de voto. Se na semana da eleição a evolução do crescimento de Lula era consistente, as últimas pesquisas da Quaest e Datafolha no sábado, dia 24, colocavam Flávio com 51% da intenção de voto e Lula com 49%. Empate técnico na margem de erro.
É razoável supor que nas últimas horas antes da eleição do dia 25 os eleitores de direita, conservadores e liberais decidiram em massa votar no “menos pior”, Lula da Silva, sacramentando sua vitória.
Cientistas políticos e analistas eleitorais apontam para “uma combinação de pragmatismo, dinâmica de rejeição e cálculo institucional”. As razões desse movimento do eleitorado de centro-direita e direita foram movidas pelo antibolsonarismo nas urnas. Foram votos desprovidos de identificação ideológica com a candidatura, mas com o objetivo de barrar o mal maior.
O maior contingente dos votos em disputa no segundo turno era de direita liberal e moderada. Para analistas, espelhou a rejeição ao estilo de governo e ao histórico de declarações do bolsonarismo, escolhendo o mal menor e a contenção de Lula.
Na reta final da campanha, lideranças novas e antigas de liberais republicanos, inclusive diplomatas, juristas e republicanos, foram às redes sociais para rejeitar e recomendar o voto na manutenção da normalidade democrática e pela preservação institucional em detrimento da ideologia.
Mesmo empresários e executivos liberais fizeram, ao final, a opção pela previsibilidade, rejeitando a volatilidade de uma liderança mercurial e imprevisível, com tendências a riscos e incertezas. A opção pragmática acabou se definindo para a notória capacidade de negociação e pragmatismo econômico de Lula
A estratégia da candidatura de Lula contou com o apoio de líderes históricos de centro-direita e direita, alguns já parte do governo. Outros serviram nos dois governos de outro social democrata, Fernando Henrique Cardoso. Esses fiadores do voto em Lula ajudaram a consolidar o voto do eleitor conservador na reeleição do presidente.
Marcos Gouvea é jornalista e articulista convidado deste Portal.
*Os artigos assinados não necessariamente representam a opinião do Portal.






1 comentário
Os artigos do Sr. Marcos Gouvêa sugerem a existência de moderação no lulopetismo, defendendo que Lula da Silva é genuinamente um democrata que, por conseguinte, age com espírito republicano em relação aos seus adversários. É evidente que o articulista possui o pleno direito de manifestar profunda admiração pelo presidente, elevando-o ao panteão dos grandes líderes mundiais. É compreensível, outrossim, que tal deslumbramento encontre eco em metade da população brasileira. Particularmente, causa-me espécie o apuro retórico e os sinônimos empregados para idealizar a figura de Lula, seja por mero afeto, seja por convicções ideológicas obsoletas. De todo modo, sob a vigência do regime democrático, cumpre celebrar a salutar liberdade de expressão que permite a livre manifestação do pensamento.