Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

Um prédio, a memória e o descaso

1 comentário
Um prédio, a memória e o descaso
A atriz Fernanda Montenegro, em apresentação no Ouro Verde

 

Por Luiz Bragança de Pina

Lembro-me de quando morei em Londrina, onde fui empresário, e frequentava o Cine Teatro Ouro Verde para assistir a filmes e ouvir apresentações sinfônicas. Em duas ocasiões, estive ali com minha esposa. Um dos filmes ainda permanece na memória: Lone Star (A Estrela Solitária), de John Sayles, motivo pelo qual surgiu meu interesse em estudar suas obras.

Naquele tempo, eu também frequentava os sebos da cidade. Meu irmão, Bira, participava assiduamente do cineclube ligado, creio, à Associação Médica de Londrina e colecionava clássicos do cinema ainda em VHS. Havia algo naquele tempo envolvendo o prazer de andar pela cidade e apreciar sua cultura. O cinema não era apenas consumo audiovisual. Existia ali uma formação silenciosa, percebida anos depois, quando me tornei professor e mentor de roteiro cinematográfico.

Semanas atrás, o Ouro Verde voltou às páginas dos jornais e gerou debates sobre seu futuro. Mas o espaço nunca foi apenas um prédio. Reduzir a discussão ao estado da arquitetura talvez revele apenas a superfície do problema.

Além de sua estrutura erguida com terra, tijolos e concreto, o Ouro Verde guarda experiências coletivas de épocas diferentes e detém parte da memória emocional de Londrina. Gerações compartilharam ali silêncio, imagens, música, expectativa, espanto e descobertas. No edifício, vagam as almas de diferentes lugares.  

O encanto das antigas salas de cinema não residia apenas na projeção do filme. Havia também as conversas, os encontros, as paqueras e a fuga do cotidiano. Nos anos 1950, os cinemas ocuparam um lugar central na vida social e cultural brasileira.

O Ouro Verde nasceu nesse contexto, projetado por Vilanova Artigas e inaugurado em 1952, 18 anos depois da fundação oficial da cidade. O espaço surgiu numa Londrina no auge do ciclo do café, donde herdou o próprio nome, para transformar um prédio em templo da memória de uma cidade marcada pela urbanização acelerada e pela tentativa de construir para si uma imagem de modernidade cultural.

A celeuma em torno do Ouro Verde nos ensina algo além da preocupação patrimonial e expõe uma situação mais profunda: o modo como as cidades se relacionam com a cultura, a memória e também a convivência.

Uma cidade pode elevar sua capacidade econômica e, ao mesmo tempo, empobrecer simbolicamente. Vale a pena ganhar altos e modernos edifícios, acelerar o consumo e ainda assim perder parte de sua identidade humana?

Quando os detentores do poder pensam em demasia no progresso, no cimento e no concreto da expansão física da cidade, sem o correspondente estofo cultural, a decadência forma-se lentamente, quase imperceptível. Assim, certos hábitos desaparecem e alguns espaços deixam de ocupar um lugar central na vida cotidiana: o que antes parecia indispensável passa a ser substituído.

Durante muito tempo, espaços culturais ajudaram a organizar experiências individuais e coletivas, não apenas como entretenimento, mas também como lugares de formação humana. Um teatro, um cinema ou um cineclube criavam encontros mediados por imagens, sons e narrativas, e havia um sentido silencioso de educação.

Lembro-me da influência do crítico Walter Silveira e do Clube de Cinema da Bahia, fundado em 1950, na formação do saudoso diretor Glauber Rocha. Não era apenas o filme em si; era o ambiente de debate, descoberta e circulação de ideias.

Hoje, grande parte da experiência coletiva da cultura foi soterrada pelo descaso com a memória. A modernidade do consumo também altera a forma como as pessoas se relacionam com a cidade. O espaço urbano passa a funcionar mais como circulação e não mais de encontro. Ainda assim, persiste a busca por alguém capaz de retomar uma experiência cultural concreta, física e de comunhão entre as pessoas.

O Ouro Verde, possivelmente aí, adquire um significado maior, não apenas como patrimônio histórico, mas como lembrança de uma experiência urbana de congregação entre público e artistas, hoje, rara. Assim, o abandono começa antes da deterioração física e se inicia quando a população deixa de sentir determinados espaços pertencentes à própria vida. Quando a cultura permanece valorizada no discurso, hábito comum entre os homens públicos, perde-se sua manifestação no cotidiano.

Isso também toca a educação. Certos espaços ajudam a formar a percepção humana sem depender da estrutura formal da sala de aula. Formam sensibilidade, memória e repertório. Gerações atravessam esses lugares e carregam consigo marcas silenciosas de uma cidade integrada à vida dos seus cidadãos, onde cada um olha para si mesmo e, assim, formam hábitos aproximados e respeitosos no conjunto social.

Talvez por isso esses processos sejam tão significativos, e há um risco silencioso para a cidade: continuar crescendo fisicamente, com seus edifícios modernos na ilusão de alcançar o céu, enquanto começa, aos poucos, a destruir parte daquilo que sustenta sua própria memória simbólica.

| Luiz Bragança de Pina é escritor, mentor, professor de roteiro cinematográfico e articulista.

Compartilhe:

Veja também

1 comentário

  • Markao Careca não conseguirá ler e compreender, pois o nexialista que se jacta de ser observador sem causa e cuida da cultura, não sabe ler e entender.

Deixe o seu comentário