
Inspirado na coleção “Guardador de Palavras da Gabi”, projeto desenvolvido na Escola Municipal Lúcia Moro, em Cianorte, transformou memórias, desenhos e descobertas da infância em um livro construído ao longo de três anos, com apoio à inclusão de estudantes autistas e valorização da escuta sensível dentro da escola.
O “Guardador de Palavras do Segundo Ano D” nasceu primeiro como encontro. Depois virou memória. E, somente anos mais tarde, transformou-se em livro. A trajetória do projeto começou em 2023, dentro da Escola Municipal Lúcia Moro, em Cianorte, quando estudantes do Segundo Ano D conheceram a coleção “Guardador de Palavras da Gabi”, criada pela jornalista e escritora Aida Franco de Lima. Inspiradas pelas frases, desenhos, diálogos e pequenos registros cotidianos da infância de Gabi — filha da autora, hoje com 20 anos — as crianças passaram a produzir seus próprios textos, histórias e ilustrações. Uma experiência de alfabetização afetiva conduzida pelo professor Bruno José Martins da Silva.
Naquele período, a escola preparava sua Mostra Literária e o professor decidiu aproximar os estudantes de uma autora da própria cidade, mostrando que a literatura também pode nascer das conversas simples, dos cadernos escolares e das frases espontâneas da infância. Aos poucos, os alunos começaram a registrar sonhos, lembranças, brincadeiras, comidas preferidas, personagens e cenas do cotidiano familiar. Cada criança passou a construir o próprio “Guardador”, como quem junta conchas depois de atravessar o mar da infância, transformando páginas em abrigo de memórias e pertencimento.
A proposta também contou com o apoio da professora Renata Andreia Nery Panucci, profissional do PAEE — Atendimento Educacional Especializado — que auxiliou especialmente estudantes autistas e crianças com diferentes formas de comunicação e aprendizagem. Com sua atuação, todas as manifestações foram acolhidas: além da escrita tradicional, os alunos puderam se expressar por meio de desenhos, fotografias e construções visuais, respeitando ritmos, sensibilidades e formas singulares de existir. Em vez de enquadrar vozes, o projeto abriu janelas para que cada criança florescesse do seu próprio jeito.
O que parecia inicialmente uma atividade pedagógica escolar ganhou um significado ainda maior durante a Mostra Cultural realizada pela escola. Ao conhecer de perto os cadernos, desenhos, textos e memórias produzidos pelas crianças do Segundo Ano D, Aida Franco de Lima ficou encantada com o material construído coletivamente pelos estudantes, professoras e famílias. Naquele encontro, diante das crianças e da comunidade escolar, fez uma promessa: transformar toda aquela produção artesanal em um livro impresso com as cores mágicas da infância eternizadas em páginas. E, claro, com os nomes de todos os pequenos autores e autoras semeados na capa da própria história.
A caminhada até a publicação, no entanto, exigiu persistência. O projeto chegou a ser aprovado em um edital anterior, posteriormente anulado. Ainda assim, Aida Franco de Lima manteve viva a promessa feita às crianças em 2023: transformar aquelas palavras em livro. A proposta acabou sendo contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc, em 2025, e neste mês saiu da gráfica com 200 páginas coloridas, ISBN, registro editorial e tiragem de 100 exemplares destinados aos pequenos autores, bibliotecas e espaços de leitura.
Na última sexta-feira, dia 29, ocorreu a entrega oficial da obra, seguida por uma roda de conversa com estudantes, professores e convidados. O momento foi vivido como quem abre um baú de memórias recém-descobertas. De olhos fechados, as crianças os abriram e se depararam com o tão esperado Guardador de Palavras do Segundo Ano D, pela primeira vez. Depois vieram os autógrafos, os abraços, as lágrimas silenciosas, os risos apressados e a curiosidade brilhando nos olhos. Cada exemplar parecia carregar não apenas páginas coloridas, mas pedaços inteiros da infância de seus autores. Todos levaram para casa um “Guardador” — inclusive colegas que, na época da criação, já não estavam mais na mesma sala de aula.
Mais do que uma publicação, o “Guardador de Palavras do Segundo Ano D” tornou-se um retrato coletivo da infância. Entre desenhos, letras recém-descobertas e frases espontâneas, as crianças compreenderam que suas palavras possuem valor, memória e permanência. O livro nasceu dentro da escola, mas carrega algo muito maior: a certeza de que ouvir crianças também é uma forma de cuidar do futuro. Um trabalho que só foi possível porque, além dos participantes diretos, a direção da escola abraçou a ideia como quem protege uma pequena semente, permitindo que ela crescesse até florescer em muitas outras histórias.
DEPOIMENTOS
“Talvez o mais bonito tenha sido ver as crianças descobrindo que suas memórias também mereciam morar em um livro. Aos poucos, elas perceberam que uma frase dita no recreio, um desenho feito às pressas ou uma lembrança contada com brilho nos olhos também possuem valor. Foi como assistir pequenos autores abrindo janelas para o próprio universo, entendendo que a infância não desaparece quando alguém decide guardá-la em palavras.”
— Bruno José Martins da Silva, professor regente do Segundo Ano D
“Quando entrei na Mostra Cultural e encontrei aqueles cadernos cheios de desenhos, frases espontâneas e pensamentos tão delicados, senti como se estivesse diante de um jardim cultivado coletivamente pela escola. Havia ali algo raro: a infância acontecendo sem filtros. Naquele instante, prometi às crianças e às famílias que aquelas páginas artesanais ganhariam o mundo em forma de livro impresso, com registro, ISBN, código de barras e as cores mágicas que só a infância consegue inventar.”
— Aida Franco de Lima, escritora e idealizadora da coleção Guardador de Palavras da Gabi
“Cada criança encontra um caminho próprio para existir no mundo. Algumas escrevem, outras desenham, outras escolhem falar pelas cores, pelos silêncios ou pelos pequenos detalhes que decidem guardar. Nosso trabalho foi acolher cada uma dessas linguagens com delicadeza, especialmente dos estudantes autistas, para que todos se sentissem parte da mesma travessia. No fim, o livro também se transformou em abrigo: um lugar onde cada criança pôde florescer do seu jeito.”
— Renata Andreia Nery Panucci, professora do Atendimento Educacional Especializado (PAEE)














