
A eternidade no futebol não é uma questão de matemática, mas de liturgia. Quando os deuses do esporte se reúnem para decidir quem se sentará no topo do Olimpo, eles não abrem planilhas, eles consultam o peso das Copas do Mundo e o ouro reluzente do prêmio de Melhor do Mundo da FIFA. E é nesse tribunal invisível que a história de Neymar se torna uma tragédia definitiva em tom de verde e amarelo.
Ele cruzou os gramados do planeta em Copas do Mundo antes de ver seu papel ruir de forma melancólica. Em Mundiais, o camisa 10 balançou as redes em 9 oportunidades, mas nenhuma imagem resume melhor o seu destino do que o seu último ato na maior competição da Terra. Após gols antológicos no passado, o ápice de sua despedida em Copas acabou se desenhando na marca da cal. Um gol de pênalti, cobrado com a frieza cirúrgica de sempre nos acréscimos, garantiu o seu octagésimo gol na história com a camisa da Seleção. Porém, o destino já estava traçado pelas mãos de Erling Haaland e da seleção da Noruega. O apito final da partida sacramentou uma desclassificação dolorosa nas oitavas de final da Copa do Mundo, fazendo o Brasil cair novamente diante de um time que nunca vencemos na história, deixando o craque em lágrimas no centro do gramado após os dois gols fatais do artilheiro norueguês superarem o esforço brasileiro.
Paralelamente, o troféu de melhor jogador do planeta passou por suas mãos como fumaça. Neymar bateu na trave, acumulou pódios, mas nunca foi coroado o Melhor do Mundo. Os números, porém, continuaram a subir em ritmo em jogos oficiais, amistosos caça níqueis e eliminatórias, transformando o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira agora com 80 gols. Um recorde monumental isolado, mas que ganha um gosto agridoce quando desfragmentamos as suas vítimas.
Na América do Sul, onde garantiu a sobrevivência e a soberania do Brasil nas eliminatórias, Neymar construiu 28 gols de seu recorde total. Ele transformou o Peru em seu quintal particular com 6 gols sofridos e castigou a Bolívia com 5. Uruguai, Argentina, Equador e Colômbia sentiram o peso de seu futebol em 3 oportunidades cada. A lista do continente fecha com 2 gols marcados contra o Paraguai, 2 contra o Chile e 1 contra a Venezuela.
Além disso, o craque também balançou as redes em 10 oportunidades contra seleções das Américas Central e do Norte, tendo os Estados Unidos como principal vítima com 3 gols, seguidos por México e Honduras com 2 gols cada, além de Costa Rica, Panamá e El Salvador com 1 gol cada.
Se as Américas foram o palco de sua rotina de gols, o verdadeiro teste histórico sempre esteve na Europa, onde a Amarelinha somou seus maiores traumas recentes. Contra os europeus, foram poucos gols em mais de vinte anos vestindo a camisa principal. A Croácia lidera como a maior vítima europeia de sua história, sofrendo 4 gols. Depois, aparecem a Escócia com 2 tentos e a Áustria com 2. O abismo crítico se revela quando olhamos para os gigantes que definem eras, pois o saldo de Neymar é de apenas 1 gol contra a Alemanha, 1 contra a Espanha, 1 contra a Itália, 1 contra a França e 1 contra Portugal. A conta soma de maneira modesta, registrando a Noruega agora em sua lista de gols com a penalidade máxima convertida ontem, além de 1 gol contra a Turquia, 1 contra a Rússia, 1 contra a Sérvia e 1 contra a República Tcheca.
A facilidade maior e o volume estatístico mais denso se deslocaram para os cantos menos tradicionais do mapa da bola. Na Ásia, onde ele colecionou sorrisos e exibições de gala, foram 17 gols no total, com o Japão se tornando a sua grande vítima preferencial na carreira, sendo castigado com impressionantes 9 gols, acompanhado pela Coreia do Sul com 4 gols, além de 3 gols diante da China e 1 contra o Iraque. Por fim, o mapa global de sua artilharia se encerra com 7 gols no continente africano, sendo 3 contra a África do Sul, 2 contra Camarões e 2 diante da Tunísia e de Gana.
Neymar preferiu o espetáculo da era pop e midiática, onde o engajamento e a fúria parecem blindar os atletas da falta de estofo coletivo. Logo após o novo colapso na Copa, o atacante voltou a alimentar o caos de sua própria biografia da forma que mais conhece, criando briga novamente dentro das quatro linhas. Foram discussões acaloradas com adversários, provocações desnecessárias e empurrões que culminaram em um clima hostil em campo antes mesmo do apito final, uma cena repetida que só reforçou o divórcio definitivo entre o ídolo e a maturidade esportiva. Para a posteridade, o registro final de sua trajetória em Copas do Mundo não será o choro da derrota, mas sim a estampa de sua arrogância ao confrontar e peitar diretamente o goleiro nórdico Ørjan Nyland, um bate boca reativo na frustração da queda.
Ele acumulou os 90 gols, ultrapassou reis, mas a crônica de sua carreira na Seleção Brasileira guardará para sempre a imagem de um gênio incompleto. Um homem que teve futebol e talento para subjugar Berlim, Madri, Roma ou Paris, mas que preferiu entrar para a eternidade sendo, essencialmente, o terror de Lima, de Tóquio e o protagonista de confusões nos gramados do mundo.
Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa do Mundo














