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Editor:
Cláudio Osti

Neymar e a Tragédia dos Gols do Gênio Incompleto

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Neymar e a Tragédia dos Gols do Gênio IncompletoPor Marcos Defreitas

​A eternidade no futebol não é uma questão de matemática, mas de liturgia. Quando os deuses do esporte se reúnem para decidir quem se sentará no topo do Olimpo, eles não abrem planilhas, eles consultam o peso das Copas do Mundo e o ouro reluzente do prêmio de Melhor do Mundo da FIFA. E é nesse tribunal invisível que a história de Neymar se torna uma tragédia definitiva em tom de verde e amarelo.
​Ele cruzou os gramados do planeta em Copas do Mundo antes de ver seu papel ruir de forma melancólica. Em Mundiais, o camisa 10 balançou as redes em 9 oportunidades, mas nenhuma imagem resume melhor o seu destino do que o seu último ato na maior competição da Terra. Após gols antológicos no passado, o ápice de sua despedida em Copas acabou se desenhando na marca da cal. Um gol de pênalti, cobrado com a frieza cirúrgica de sempre nos acréscimos, garantiu o seu octagésimo gol na história com a camisa da Seleção. Porém, o destino já estava traçado pelas mãos de Erling Haaland e da seleção da Noruega. O apito final da partida sacramentou uma desclassificação dolorosa nas oitavas de final da Copa do Mundo, fazendo o Brasil cair novamente diante de um time que nunca vencemos na história, deixando o craque em lágrimas no centro do gramado após os dois gols fatais do artilheiro norueguês superarem o esforço brasileiro.
​Paralelamente, o troféu de melhor jogador do planeta passou por suas mãos como fumaça. Neymar bateu na trave, acumulou pódios, mas nunca foi coroado o Melhor do Mundo. Os números, porém, continuaram a subir em ritmo em jogos oficiais, amistosos caça níqueis e eliminatórias, transformando o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira agora com 80 gols. Um recorde monumental isolado, mas que ganha um gosto agridoce quando desfragmentamos as suas vítimas.
​Na América do Sul, onde garantiu a sobrevivência e a soberania do Brasil nas eliminatórias, Neymar construiu 28 gols de seu recorde total. Ele transformou o Peru em seu quintal particular com 6 gols sofridos e castigou a Bolívia com 5. Uruguai, Argentina, Equador e Colômbia sentiram o peso de seu futebol em 3 oportunidades cada. A lista do continente fecha com 2 gols marcados contra o Paraguai, 2 contra o Chile e 1 contra a Venezuela.
​Além disso, o craque também balançou as redes em 10 oportunidades contra seleções das Américas Central e do Norte, tendo os Estados Unidos como principal vítima com 3 gols, seguidos por México e Honduras com 2 gols cada, além de Costa Rica, Panamá e El Salvador com 1 gol cada.
​Se as Américas foram o palco de sua rotina de gols, o verdadeiro teste histórico sempre esteve na Europa, onde a Amarelinha somou seus maiores traumas recentes. Contra os europeus, foram poucos gols em mais de vinte anos vestindo a camisa principal. A Croácia lidera como a maior vítima europeia de sua história, sofrendo 4 gols. Depois, aparecem a Escócia com 2 tentos e a Áustria com 2. O abismo crítico se revela quando olhamos para os gigantes que definem eras, pois o saldo de Neymar é de apenas 1 gol contra a Alemanha, 1 contra a Espanha, 1 contra a Itália, 1 contra a França e 1 contra Portugal. A conta soma de maneira modesta, registrando a Noruega agora em sua lista de gols com a penalidade máxima convertida ontem, além de 1 gol contra a Turquia, 1 contra a Rússia, 1 contra a Sérvia e 1 contra a República Tcheca.
​A facilidade maior e o volume estatístico mais denso se deslocaram para os cantos menos tradicionais do mapa da bola. Na Ásia, onde ele colecionou sorrisos e exibições de gala, foram 17 gols no total, com o Japão se tornando a sua grande vítima preferencial na carreira, sendo castigado com impressionantes 9 gols, acompanhado pela Coreia do Sul com 4 gols, além de 3 gols diante da China e 1 contra o Iraque. Por fim, o mapa global de sua artilharia se encerra com 7 gols no continente africano, sendo 3 contra a África do Sul, 2 contra Camarões e 2 diante da Tunísia e de Gana.
​Neymar preferiu o espetáculo da era pop e midiática, onde o engajamento e a fúria parecem blindar os atletas da falta de estofo coletivo. Logo após o novo colapso na Copa, o atacante voltou a alimentar o caos de sua própria biografia da forma que mais conhece, criando briga novamente dentro das quatro linhas. Foram discussões acaloradas com adversários, provocações desnecessárias e empurrões que culminaram em um clima hostil em campo antes mesmo do apito final, uma cena repetida que só reforçou o divórcio definitivo entre o ídolo e a maturidade esportiva. Para a posteridade, o registro final de sua trajetória em Copas do Mundo não será o choro da derrota, mas sim a estampa de sua arrogância ao confrontar e peitar diretamente o goleiro nórdico Ørjan Nyland, um bate boca reativo na frustração da queda.
​Ele acumulou os 90 gols, ultrapassou reis, mas a crônica de sua carreira na Seleção Brasileira guardará para sempre a imagem de um gênio incompleto. Um homem que teve futebol e talento para subjugar Berlim, Madri, Roma ou Paris, mas que preferiu entrar para a eternidade sendo, essencialmente, o terror de Lima, de Tóquio e o protagonista de confusões nos gramados do mundo.

Marcos Defreitas é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado pelo Portal para a Copa do Mundo

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