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Café Suspenso, a Generosidade que Esquecemos

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Café Suspenso, a Generosidade que Esquecemos

por Marcos Defreitas

Acordei pensando em uma ideia que parece simples, mas que diz muito sobre o mundo em que vivemos. Talvez porque, nos dias de hoje, a gente pense cada vez menos no outro e cada vez mais em si mesmo.
O café suspenso é uma tradição de solidariedade que nasceu em Nápoles, na Itália, ligada principalmente à classe operária e aos trabalhadores que frequentavam as cafeterias da cidade. Surgiu como uma forma simples de compartilhar a própria sorte com quem enfrentava dificuldades. Com raízes no século XIX, essa prática ganhou força ao longo do tempo e se tornou ainda mais simbólica nos anos difíceis da Segunda Guerra Mundial, quando a escassez e o sofrimento aproximaram desconhecidos em torno de pequenos gestos de humanidade.
A ideia era simples. Quem estava vivendo um bom momento pagava dois cafés, mas bebia apenas um. O outro ficava reservado para alguém que chegasse à cafeteria sem dinheiro para comprar o seu.
Bastava perguntar se havia um café suspenso. Se a resposta fosse positiva, a pessoa recebia um café quente, sem precisar explicar sua situação, sem constrangimento e sem perder a dignidade. O gesto não era visto como caridade, mas como uma forma de compartilhar a própria sorte.
O mais bonito é que quem deixava o café nunca sabia quem iria recebê-lo. E quem recebia jamais conhecia quem havia praticado aquele ato de generosidade. Existia apenas confiança entre pessoas que talvez nunca se encontrassem.
Fico pensando em como esse tipo de atitude parece distante da nossa realidade. Vivemos em uma época de tanta pressa, tanta disputa e tanta necessidade de reconhecimento, que até as boas ações muitas vezes precisam ser mostradas. Parece que esquecemos o valor do anonimato e da bondade sem recompensa.
Resiliência também nasce assim. Na capacidade de continuar acreditando nas pessoas e de escolher fazer o bem mesmo quando ninguém está olhando.
Talvez o mundo não precise apenas de mais riqueza ou poder. Talvez precise de mais pessoas dispostas a deixar um café suspenso na vida de alguém.

Marcos Defreitas é jornalista e colaborador do Portal

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