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Cláudio Osti

O Inventário de uma Pátria em Ruínas: O Segundo Turno no Livro dos Dias

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por Almir Escatambulo

Ontem, numa depressão noturna, eu ouvi os últimos discos da Legião Urbana: A Tempestade ou O Livro dos Dias e o disco póstumo Uma Outra Estação. Mais de trinta anos se passaram, e a sensação de assombro é a de que Renato Russo não estava apenas compondo; estava psicografando o inventário da nossa miséria moral contemporânea, desenhando o mapa do Brasil do pós-segundo turno que hoje nos engole.

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É de um masoquismo atroz perceber como aquelas faixas, gravadas sob o peso da finitude de um homem, servem perfeitamente de trilha sonora para a finitude de uma nação que desistiu de si mesma. O Brasil atual não é novo; é apenas o mofo antigo que aprendeu a usar redes sociais para espalhar sua barbárie habitual.

Comecei por “Natália”. Ali está o retrato escarrado dessa nossa elite ressentida e desse cidadão médio que se mexe por puro ódio e pânico moral. Quando Renato canta “Vai ver que o seu complexo de superioridade é fútil”, ele aponta o dedo na cara dessa polarização histérica que saiu das urnas. Uma metade do país que não consegue olhar para a outra sem um nojo soberbo, enquanto o vagão do trem descarrila. Ninguém quer construir nada; as pessoas só querem o direito de dizer “eu avisei” enquanto a casa cai.

Depois, veio “L’Avventura“. A melodia flutua, mas a letra nos joga no chão da nossa atual anestesia coletiva. “Não me diga o que sentir”, diz o verso. É a tradução exata dessa nossa cegueira algorítmica pós-eleitoral. Vivemos na era da pós-verdade gourmetizada, onde o fato morreu e o que sobrou foi o ressentimento. O vizinho não fala com o vizinho, famílias se destroçaram no almoço de domingo por causa de mitos e salvadores da pátria de quermesse, e todos nós, no fundo, estamos profundamente isolados, agarrados a telas frias fingindo que temos alguma certeza.

Aí o coração aperta com “Clarisse”. A barbárie mais pura, o suco da nossa falência social. A violência contra a mulher, o abuso, o desespero de uma juventude que nasce sem perspectiva em periferias esquecidas ou em condomínios fechados psicóticos. O Brasil atual é uma grande Clarisse trancada no quarto, lidando com os seus monstros particulares, enquanto o Estado finge demência e o debate público prefere discutir pautas morais abstratas em vez da carne sangrando no chão da realidade.

Ao passar para Uma Outra Estação, esbarro em “As Flores do Mal”. Que título mais profético para o nosso ecossistema político. O segundo turno acabou, as promessas de salvação foram distribuídas como panfletos baratos que logo viram lixo na calçada, e o que nos resta? “Dezesseis idades e nenhum dinheiro”. É a juventude atual, entregue à uberização do trabalho, ao subemprego, caçando bicos num país que destruiu sua indústria, sua ciência e sua educação. As flores do mal vicejam no adubo do nosso desespero econômico.

Por fim, a dolorosa e instrumental “Clarisse” repaginada ou o eco de “Dado Viciado” nos lembram de outra epidemia silenciosa: o vício. Não apenas o vício químico que destrói o centro das grandes metrópoles nas cracolândias desumanas, mas o vício na mentira, no tigrinho, o vício na espetacularização da violência o vício em odiar.

O que nos reserva o futuro atual, este que amanhece logo após a ressaca do segundo turno?

O futuro que nos espera não é uma ruptura apocalíptica cinematográfica; é algo muito pior: é a continuidade burocrática da nossa decadência. O segundo turno passa, as faixas presidenciais ou municipais mudam de ombro, mas a estrutura do atraso permanece intacta. Seremos um país tecnologicamente avançado e humanamente medieval. Um espelho partido onde cada pedaço reflete uma facção enfurecida. O futuro atual nos reserva a normalização do absurdo, onde a barbárie diária será consumida entre um meme e outro no feed de notícias, e nós continuaremos, como Renato Russo previu, fingindo que temos o controle de um barco que já naufragou há muito tempo.

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Almir Escatambulo e cientista social e colaborador do Portal

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