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Cláudio Osti

Pastores “normalizam” ultradireita, limitam autonomia dos fiéis e levam o país para a treva

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Por Marcos Cesar Gouvea

Nas vésperas de eleições fundamentais para a Democracia ocidental, no Brasil, Israel, Estados Unidos e Espanha, está claro que a intolerância religiosa virou um vetor importante nos rumos das votações. Líderes religiosos se tornaram uma espécie de intermediários entre Deus e seus fiéis, uma anátema para os valores da Reforma Protestante, conduzindo seus rebanhos para o voto na opção extremista inspirada em Donald Trump, enganosamente apontado como “ungido por Deus”. A opção domingo no Brasil será entre aqueles que celebram a vida e aqueles que malignamente ameaçam com a tortura e morte. Votar no fascismo prenderá o eleitor a um projeto obscurantista por muitos anos.

Na última década igrejas protestantes históricas, como a Presbiteriana do Brasil e Batista, seguiram os passos das igrejas pentecostais na mundana arena política. Além da influência política nas guerras culturais, as igrejas vão atrás de benefícios pecuniários e manutenção de privilégios e isenções fiscais para pastores e igrejas. Até mesmo pastores históricos consagrados passaram a orientar votos para o campo bolsonarista, normalizando a ultradireita como preferência eleitoral desde 2018.

Em dezembro de 2022, em Londrina, um pastor referência entre os evangélicos, chegou a orientar fiéis a ir para a frente de quartéis no movimento que pedia um golpe de Estado no país. Tais práticas prejudicam a Democracia, pois não respeitam a autonomia pessoal e a capacidade crítica dos indivíduos que formam seus rebanhos, minando valores reformados.

No seu livro Evangélicos e Democracia Brasileira, o sociólogo anglicano Paul Freston (1) destaca a necessidade de ética e preservação das instituições democráticas na relação entre a fé cristã e o pluralismo. Freston alerta que transformar a religião em um instrumento partidário direto “é uma forma de idolatria, pois confunde o absoluto, Deus e a fé, com o relativo, partidos, candidatos e disputas humanas”.

Paul Freston defende que a democracia e a proteção das minorias são benéficas tanto para a sociedade quanto para a própria igreja. “Os cristãos devem zelar pelas regras democráticas e jamais apoiar posturas que ameacem as liberdades civis ou o Estado de Direito.”

A Reforma Protestante no século XVI e suas consequências teve papel fundamental no advento da democracia ocidental, primeiramente nos países do norte da Europa, desdobrando-se nas colônias como na chegada dos puritanos ingleses na América do Norte. O Mayflower foi o primeiro navio de peregrinos puritanos ingleses que aportou no que hoje são os Estados Unidos. Entre 102 homens a bordo, 41 firmaram um documento de autogoverno da América do Norte, em 11 de novembro de 1620, que ficou conhecido como o pacto do Mayflower. O principal objetivo foi criar um corpo político civil para estabelecer leis justas e iguais para o bem geral da nova colônia. É visto como um marco embrionário da democracia e do princípio de consentimento mútuo dos governados.

Apesar de reformadores como Martinho Lutero, na Alemanha, e João Calvino, na Suíça, não terem sido democratas no sentido moderno, as transformações teológicas, sociais e institucionais implantadas por eles corroeram o absolutismo e prepararam o caminho para as liberdades civis.

A doutrina que acabou com intermediários entre o indivíduo e Deus igualou todos os fiéis, plantando a semente da igualdade política. Essa relação pessoal e transcendental do indivíduo com o Divino e sua palavra levou à alfabetização e educação. O objetivo era que todo indivíduo, na Europa e colônias, pudesse ler a Bíblia na sua própria língua, com a tradução das Escrituras e a fundação de escolas públicas.

Com a alfabetização em massa, a população passou a ter capacidade crítica. Além de ler, podia debater, analisar e contestar não somente dogmas religiosos. Para além da teologia, o indivíduo passou a eventualmente analisar, refletir e questionar decretos políticos. De tal modo que uma esfera pública informada se firmou como pré-requisito essencial para qualquer democracia.

À medida que eram organizadas e especialmente no Calvinismo, as igrejas se transformaram em exemplos de Democracia. Tinham (e têm) um sistema de governo pautado em conselhos de membros eleitos, os presbíteros. Esse modelo de autogoverno e a ideia de que o poder emana de um pacto comunitário está na base da democracia moderna.

Apesar da doutrina de respeito às autoridades, protestantes perseguidos, como os huguenotes na França e os puritanos na Inglaterra, desenvolveram teologias de resistência: se um governante agisse contra as leis de Deus ou o bem-estar da população, tornava-se um tirano e o povo tinha o dever de resistir. Tal justificativa teológica foi a base ideológica das revoluções Puritana e Gloriosa na Inglaterra, a própria Revolução Americana em 1776, consagrando a ideia de que a postura dos governantes é limitada pela Constituição.

A Reforma Protestante fragmentou-se em diferentes denominações, fenômeno que acontece até hoje. A necessidade de convivência entre diferentes grupos morais e teológicos culminou com a origem de conceitos de tolerância religiosa e a separação entre Igreja e Estado, fundamentais para as liberdades individuais nas democracias modernas.

Na última década, porém, esses valores passaram a ser minados no Ocidente, com o uso desonesto das redes sociais e atuação maliciosa das chamadas megaempresas BigTech. Na prática, as primeiras votações viciadas pelo engano via algoritmos e sua manipulação foram o plebiscito do Brexit, no Reino Unido, e a primeira eleição de Trump nos Estados Unidos, ambas em 2016.

De acordo com o livro de Paul Freston, os evangélicos não formam um bloco político homogêneo. Nesse campo, segundo ele, há pluralidade de visões e posicionamentos que abarcam diferentes espectros. A proposta de Freston aponta diretrizes para a coexistência da fé cristã com a diversidade de opiniões na sociedade “sem abrir mão de valores fundamentais ou cair na polarização destrutiva”.

Finalmente, o sociólogo anglicano argumenta que “a figura de Jesus serve de exemplo de recato e moderação no trato com o poder, com o Estado, com a popularidade e com as injustiças, distanciando-se de disputas de força ou mesquinharias ideológicas”.

Na última década os valores cristãos no Ocidente têm sido negligenciados e instrumentalizados por forças extremistas, cujas práticas não espelham os ensinamentos de Cristo. Embora se declarem adeptos do Evangelho, líderes conservadores extremistas disseminam ódio e intolerância no seu dia a dia. São partidários da violência, praticam a impiedade, o desamor, a injustiça, cultuam a guerra e sào desprovidos de empatia e respeito pelas pessoas. Não escondem seus desejos de vingança e perseguem os estrangeiros. Que entre os eleitores predomine a mensagem de Provérbios 1:7 e 9:10: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”.

(1) Paul Freston é inglês naturalizado brasileiro, Trabalhou com a Aliança Bíblica Universitária (ABU) e atualmente é professor de religião e política na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá. Sua principal área de pesquisa é a interação entre política e religião na América Latina, particularmente, no Brasil. É cristão evangélico e membro da comunidade Koinonia em Campinas (SP).

*Marcos Gouvea é jornalista e articulista convidado deste Portal

*Os artigos assinados não necessariamente refletem a opinião do Portal.

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4 comentários

  • Jordão Bruno

    O fascismo italiano, comandado por Benito Mussolini, recebeu reforço especial da igreja católica. Na realidade, o acordo entre fascismo e catolicismo só foi possível com importantes trocas de favores. No Brasil atual, o neofascismo bolsonarista está sendo vitaminado por apoios vindos de setores majoritários de igrejas evangélicas. Ainda não está bastante claro o “contrato social” entre as duas partes.

  • Há Lagoas

    Ah, claro! Porque se tem algo que a história do Ocidente nos ensina, é que a esquerda sempre foi a grande guardiã da ortodoxia bíblica, não é mesmo?
    É realmente fascinante ver como o conceito de “amor” foi transformado em uma arma tática de destruição em massa dos valores tradicionais. Afinal, nada grita mais “vamos salvar a civilização judaico-cristã” do que usar a compaixão como um disfarce perfeito para atacar… a própria compaixão. É um verdadeiro malabarismo retórico: você negligencia os valores, depois pega os mesmos valores emprestados, embrulha tudo num discurso de tolerância e, no final, quando alguém aponta a incoerência, você ativa o modo “vítima incompreendida” e sai andando. Uma estratégia brilhante, de fato. Quem diria que os ensinamentos de Cristo virariam o roteiro perfeito para o oportunismo político moderno?

  • Mateus 7:15″
    Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.”

    Mateus 24:11″
    E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.”

    ateus 23:27-28
    “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia. Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.”

    2 Coríntios 11:13-15″
    Porque tais falsos apóstolos são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras.”

    2 Pedro 2:1-3″
    E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição […]. E por avareza farão de vós negócio com palavras fingidas; sobre os quais já de largo tempo não será tardia a sentença, e a sua perdição não dormita.”

    Atos 20:29-30″
    Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; e que dentre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atrair os discípulos após si.”

    4 Timóteo 4:3-4″
    Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas.”

    Ezequiel 34:2-3″
    Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel […]. Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! Não devem os pastores apascentar as ovelhas? Comeis a gordura, e vos vestis da lã; matais o cevado; mas não apascentais as ovelhas.”

    Jeremias 23:16″
    Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que vos profetizam; fazem-vos tolos; falam da visão do seu próprio coração, não da boca do Senhor.”

    Mais esqueçam, os bosonaristas não seguem a bíblia, seguem o ¨micto¨ preso que é o suposto messias. O Anticristo na verdade né…

  • Único com coragem

    https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2630648

    Tem vereador que quer dar isenção do IPTU em Londrina para Loja Maçônica né Antonio Amaral.

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