Por Marcos Cesar Gouvea
Nas vésperas de eleições fundamentais para a Democracia ocidental, no Brasil, Israel, Estados Unidos e Espanha, está claro que a intolerância religiosa virou um vetor importante nos rumos das votações. Líderes religiosos se tornaram uma espécie de intermediários entre Deus e seus fiéis, uma anátema para os valores da Reforma Protestante, conduzindo seus rebanhos para o voto na opção extremista inspirada em Donald Trump, enganosamente apontado como “ungido por Deus”. A opção domingo no Brasil será entre aqueles que celebram a vida e aqueles que malignamente ameaçam com a tortura e morte. Votar no fascismo prenderá o eleitor a um projeto obscurantista por muitos anos.
Na última década igrejas protestantes históricas, como a Presbiteriana do Brasil e Batista, seguiram os passos das igrejas pentecostais na mundana arena política. Além da influência política nas guerras culturais, as igrejas vão atrás de benefícios pecuniários e manutenção de privilégios e isenções fiscais para pastores e igrejas. Até mesmo pastores históricos consagrados passaram a orientar votos para o campo bolsonarista, normalizando a ultradireita como preferência eleitoral desde 2018.
Em dezembro de 2022, em Londrina, um pastor referência entre os evangélicos, chegou a orientar fiéis a ir para a frente de quartéis no movimento que pedia um golpe de Estado no país. Tais práticas prejudicam a Democracia, pois não respeitam a autonomia pessoal e a capacidade crítica dos indivíduos que formam seus rebanhos, minando valores reformados.
No seu livro Evangélicos e Democracia Brasileira, o sociólogo anglicano Paul Freston (1) destaca a necessidade de ética e preservação das instituições democráticas na relação entre a fé cristã e o pluralismo. Freston alerta que transformar a religião em um instrumento partidário direto “é uma forma de idolatria, pois confunde o absoluto, Deus e a fé, com o relativo, partidos, candidatos e disputas humanas”.
Paul Freston defende que a democracia e a proteção das minorias são benéficas tanto para a sociedade quanto para a própria igreja. “Os cristãos devem zelar pelas regras democráticas e jamais apoiar posturas que ameacem as liberdades civis ou o Estado de Direito.”
A Reforma Protestante no século XVI e suas consequências teve papel fundamental no advento da democracia ocidental, primeiramente nos países do norte da Europa, desdobrando-se nas colônias como na chegada dos puritanos ingleses na América do Norte. O Mayflower foi o primeiro navio de peregrinos puritanos ingleses que aportou no que hoje são os Estados Unidos. Entre 102 homens a bordo, 41 firmaram um documento de autogoverno da América do Norte, em 11 de novembro de 1620, que ficou conhecido como o pacto do Mayflower. O principal objetivo foi criar um corpo político civil para estabelecer leis justas e iguais para o bem geral da nova colônia. É visto como um marco embrionário da democracia e do princípio de consentimento mútuo dos governados.
Apesar de reformadores como Martinho Lutero, na Alemanha, e João Calvino, na Suíça, não terem sido democratas no sentido moderno, as transformações teológicas, sociais e institucionais implantadas por eles corroeram o absolutismo e prepararam o caminho para as liberdades civis.
A doutrina que acabou com intermediários entre o indivíduo e Deus igualou todos os fiéis, plantando a semente da igualdade política. Essa relação pessoal e transcendental do indivíduo com o Divino e sua palavra levou à alfabetização e educação. O objetivo era que todo indivíduo, na Europa e colônias, pudesse ler a Bíblia na sua própria língua, com a tradução das Escrituras e a fundação de escolas públicas.
Com a alfabetização em massa, a população passou a ter capacidade crítica. Além de ler, podia debater, analisar e contestar não somente dogmas religiosos. Para além da teologia, o indivíduo passou a eventualmente analisar, refletir e questionar decretos políticos. De tal modo que uma esfera pública informada se firmou como pré-requisito essencial para qualquer democracia.
À medida que eram organizadas e especialmente no Calvinismo, as igrejas se transformaram em exemplos de Democracia. Tinham (e têm) um sistema de governo pautado em conselhos de membros eleitos, os presbíteros. Esse modelo de autogoverno e a ideia de que o poder emana de um pacto comunitário está na base da democracia moderna.
Apesar da doutrina de respeito às autoridades, protestantes perseguidos, como os huguenotes na França e os puritanos na Inglaterra, desenvolveram teologias de resistência: se um governante agisse contra as leis de Deus ou o bem-estar da população, tornava-se um tirano e o povo tinha o dever de resistir. Tal justificativa teológica foi a base ideológica das revoluções Puritana e Gloriosa na Inglaterra, a própria Revolução Americana em 1776, consagrando a ideia de que a postura dos governantes é limitada pela Constituição.
A Reforma Protestante fragmentou-se em diferentes denominações, fenômeno que acontece até hoje. A necessidade de convivência entre diferentes grupos morais e teológicos culminou com a origem de conceitos de tolerância religiosa e a separação entre Igreja e Estado, fundamentais para as liberdades individuais nas democracias modernas.
Na última década, porém, esses valores passaram a ser minados no Ocidente, com o uso desonesto das redes sociais e atuação maliciosa das chamadas megaempresas BigTech. Na prática, as primeiras votações viciadas pelo engano via algoritmos e sua manipulação foram o plebiscito do Brexit, no Reino Unido, e a primeira eleição de Trump nos Estados Unidos, ambas em 2016.
De acordo com o livro de Paul Freston, os evangélicos não formam um bloco político homogêneo. Nesse campo, segundo ele, há pluralidade de visões e posicionamentos que abarcam diferentes espectros. A proposta de Freston aponta diretrizes para a coexistência da fé cristã com a diversidade de opiniões na sociedade “sem abrir mão de valores fundamentais ou cair na polarização destrutiva”.
Finalmente, o sociólogo anglicano argumenta que “a figura de Jesus serve de exemplo de recato e moderação no trato com o poder, com o Estado, com a popularidade e com as injustiças, distanciando-se de disputas de força ou mesquinharias ideológicas”.
Na última década os valores cristãos no Ocidente têm sido negligenciados e instrumentalizados por forças extremistas, cujas práticas não espelham os ensinamentos de Cristo. Embora se declarem adeptos do Evangelho, líderes conservadores extremistas disseminam ódio e intolerância no seu dia a dia. São partidários da violência, praticam a impiedade, o desamor, a injustiça, cultuam a guerra e sào desprovidos de empatia e respeito pelas pessoas. Não escondem seus desejos de vingança e perseguem os estrangeiros. Que entre os eleitores predomine a mensagem de Provérbios 1:7 e 9:10: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”.
(1) Paul Freston é inglês naturalizado brasileiro, Trabalhou com a Aliança Bíblica Universitária (ABU) e atualmente é professor de religião e política na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá. Sua principal área de pesquisa é a interação entre política e religião na América Latina, particularmente, no Brasil. É cristão evangélico e membro da comunidade Koinonia em Campinas (SP).
*Marcos Gouvea é jornalista e articulista convidado deste Portal
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