
por Almir Escatambulo
Hoje, sem ter muito o que fazer, ouvi o último disco do Cazuza: Burguesia. Algumas músicas me chamaram a atenção: a própria música que dá título ao disco, perto do fogo (feito em parceria com Rita Lee), outra música interessante chamada preconceito.
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E que bofetada nas certezas esse disco é, meus amigos. Ouvir Burguesia hoje, com a distância higiênica do tempo, não é apenas um exercício de nostalgia; é um exame de próstata na alma nacional. Ali, na beira do abismo, com o corpo esfarrapado mas o cinismo intacto, o poeta agonizante resolveu rasgar o véu da nossa hipocrisia de estimação.
O disco tem defeitos? Claro que tem. É um álbum duplo, caótico, irregular, gravado por um homem que já não tinha tempo para lapidar arestas. Às vezes, a produção cansa, as faixas se arrastam e há um excesso de desesperança que beira o niilismo puro. Mas esses defeitos não são falhas técnicas; são as rugas de um retrato real. Cazuza não estava preocupado com a perfeição estética da MPB; ele estava com pressa de cuspir a verdade antes que o oxigênio terminasse.
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Em “Burguesia”, ele destila o veneno contra a classe que o pariu e que, no fundo, dita as regras do jogo até hoje. A elite que “fala de amor e de ecologia”, mas que não suporta o cheiro do povo. É uma música visceral, crua. Logo depois, em “Perto do Fogo”, com a santa transgressão de Rita Lee, ele nos lembra de que estamos todos brincando com fósforos em um quarto cheio de pólvora, rindo do perigo enquanto consumimos nossa própria decadência. E o que dizer de “Preconceito”? Uma faixa que expõe a ferida aberta do julgamento alheio, a incapacidade crônica do brasileiro de aceitar a diferença sem tentar domesticá-la ou destruí-la.
Como isso nos influencia hoje? Olhem ao redor. A nossa atualidade parece um videoclipe estendido e piorado de Burguesia. Continuamos os mesmos hipócritas hiperconectados, encenando virtudes nas redes sociais enquanto alimentamos os mesmos preconceitos de sempre na mesa do jantar. Cazuza nos influenciou ao nos dar o espelho. A questão é que nós ainda temos medo do que vemos nele.
Burguesia é o testamento de um homem que se recusou a morrer em silêncio. Um disco imperfeito, barulhento e dolorosamente necessário, que nos lembra que a pior doença do Brasil não é o vírus, não é a economia; é a nossa insistência em sermos medíocres com pose de fidalgo.
*Almir Escatambulo é cientista social e colaborador do Portal
*Os artigos assinados não necessariamente fletem a opinião deste portal














