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Cláudio Osti

“O amanhã de ontem, hoje mesmo”

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“O amanhã de ontem, hoje mesmo”
Foliões invadem piscinas do Museu do Amanhã

Por Christian Steagall-Condé

Se quaisquer brasileiros minimamente letrados nas vicissitudes da nação desejar compreender melhor o atual estado bisonho das coisas, bem tomografado, duma hecatombe jamais testemunhada em muitas camadas dentro de um regime republicano, convém nos debruçarmos no passado engatando o ponto morto por ora e olharmos atentos pelo retrovisor dos tempos.

Mais precisamente quando da instalação dos “tramways” no Brazil ainda com “z” (Londrina, pelo amor do bom Português, o Jardim Pisa é com “S”, por favor), especialmente lá em São Luis do Maranhão, esplêndida capital e então próspera metrópole equatorial a qual já rivalizava com quaisquer cidades norte-americanas no ano de 1860, onde então o Cônsul Acreditado dos U.S.A., ninguém menos que Mr. James Bond (que não se percam pelo nome do embaixador…) adquiriu a concessão municipal para a exploração privativa do transporte público na cidade, práxis que até então era tração animal e com as idas e vindas das tecnologias elétricas, o sobrenome do capitalista virou sinônimo de embarque coletivo o qual com o tempo e as noticias nos jornais, cunhou por via popular o nosso termo “Bonde” no Brasil inteiro, caso único no mundo onde este modal (agora chamados de BRTs) são mais conhecidos como Street-Cars, Tramways ou mesmo os charmosos Elétricos, em Português de Portugal.

A onda inevitável da modernidade se espalhou rápida pelo imenso e riquissimo país continental, onde 100 anos depois, na Garanhuns do ano de 1968 em Pernambuco, um visionário Coronel local, Major Souto Dourado, num vislumbre de ordem e progresso empreendeu o aproveitamento dos caríssimos trilhos do trem já existentes pela cidade numa longa linha urbana, incluindo duas unidades auto-motrizes as quais, no dia da inauguração, a escumalha abestada se apinhou aos cotovelos e empurrões se aboletando como insanos desesperados dentro dos “bonds” sem quaisquer decências, resultando numa super lotação absurda, terminando num record mundial de começo, meio e fim, produzindo um curto-circuito nos motores seguido dum flamejante e incontrolável incêndio, assim sepultando prá sempre a prometida modernidade, agora transformadas em cinzas e jamais reposta, atolando a cidade no seu eterno passado, sendo que o “bond” incendiado virou monumento de um momento vergonhoso numa pracinha secundária, a típica noção sem noção de prefeitos estúpidos resolvendo um problema patrimonial e histórico fingindo preocupações culturais.

Assim acontecido, ainda ontem pelas redes sociais vi estarrecido as nossas abissais e epidêmicas pobrezas existenciais encenadas pelos nossos desprezíveis “foliões”, a corja de desmiolados e poluidores industriais, devastando como gafanhotos por onde contaminam as ruas, simplesmente se banhando como se não houvesse amanhã no então limpido e cristalino espelho d´agua circundantes das extremidades térreas do espetacular Museu do Amanhã encravado suntuosamente em pleno coração do Píer Mauá em Rio de Janeiro.

O Museu do Amanhã é um grandioso e magnífico projeto do arquiteto valenciano Santiago Calatrava, afinal, estava um calor tropical, não é mesmo e assim, a escumalha se refestelou feliz transformando uma joia suprema num escabroso mictório e latrina a céu aberto, justo num projeto ecológico que é sustentado bombeando águas marinhas filtradas da Baía de Guanabara logo ali defronte para a refrigeração do espaço cultural, sendo então purificada para o enchimento dos tanques externos com dupla e inteligente função, técnica e estética.

Testemunhar aquela imagem grotesca de uma alegria demencial, com quase 1.000 bisonhos sorridentes se amontoando como um enxame de insetos, me associou numa descoberta cultural que elaborei, curioso que fiquei em pesquisar as origens do tal “Fenômeno Zumbi”.

Aquela tipificada coreografia de Humanos em frangalhos, corpos estropiados, num caminhar de todo precário e difícil, arrastando suas pernas num esforço incomum, braços levantados na altura dos ombros e murmurando “cérebros, cérebros”, de acordo com a estética icônica criada pelo diretor de cinema B norte-americano que inaugurou o gênero nos anos 70, George Romero.

Num mix paradoxal de maravilhas desvendantes com tristezas abissais, por mero acaso lendo as hecatombes nucleares que arrasaram os habitantes das cidadelas de Nagasaki e Hiroshima, foi onde compreendi de onde e de como a tal de estética zumbi sempre repercutiu subliminarmente em todas as sociedades do mundo no Pós Guerra, em especial, na cultura pop norte-americana, os únicos responsáveis pelos lançamentos das bombas de fissão Fat-Man de Plutônio e a Little-Boy de Urânio (apelidos muito fofinhos para horrores indizíveis) sobre populações eminentemente civis e sem avisos prévios para que se acautelassem, por exemplo, numa evacuação massiva pré-detonação.

O flash atômico inicial das poderosas explosões pulverizou à extinção absoluta mais de 220.000 cidadãos japoneses em inconcebíveis nanossegundos para quem se encontrava abaixo do marco zero, com danos brutais em mais de 80.000 sobreviventes, a grande maioria incinerada dos pés a cabeça, cegos, desorientados, mutilados, com uma tempestade do fogo na arquitetura em madeira das duas cidades engolindo à tudo num imenso inferno nuclear de vento solar, onde estes literais mortos-vivos, gemiam desesperados por água, centenas e centenas de corpos empilhados foram encontrados nos dias seguintes nas muitas fontes públicas que abasteciam os cavalos e as jarras e canecas, sem contar os milhares de cadáveres nos rios, pessoas que se atiravam nas poucas águas vaporizadas buscando alivios que nunca lhes vieram.

Não por coincidência, o caminhar penoso e dramático destes desgraçados foi a “inspiração” dos filmes B de terror moderno, pois os sobreviventes das bombas nucleares se arrastavam em suas pernas como se seus corpos pesassem toneladas e o ato de levantarem seus braços na altura de seus ombros, era instintivo pois se os deixassem pra baixo de como todos nós andamos como dois pêndulos nos contrabalançando o passo, os músculos escorreriam dos ossos, tais as precariedades da pele externa, vaporizada, destes infelizes que morreriam todos sem exceção algumas horas depois.

Evidenciados estamos de que, associarmos o futuro que não veio lá em Garanhuns, mais os Morto-Vivos cariocas quais zumbis felizes no banheirão do Museu do Amanhã, mais o bonde terrível que o país embarcou se incendiando, discutindo picuinhas abjetamente ridículas com o Brasil de joelhos, mais os inocentes cidadãos alcançados por uma tragédia que não a deles e injustamente acusados por nadas, me fornece a extrema clareza que ainda teremos muito onde afundarmos.

Cesta básica na estratosfera, Agro incriminado por néscios absolutos, economia dando sinais de alertas lá se vão dois longos anos de erros catastróficos numa administração federal perdulária com 39 ministérios, um STF atolado em vilanias num obscurantismo que a história registrará como partidária, com uma classe urbana que se denomina “cultural”, francamente abjeta defendendo terroristas, com um mentecapto populista no comando da nação que em rede nacional convoca as mídias para exortar sua população pobre -que o elegeu esperançosa e sorridente- num teatrinho pífio e tenebroso propondo alternativas alimentares, com sua claque de sempre batendo palminhas para um verdadeiro criminoso.

A sorte já está lançada, então, enfrentaremos uma tempestade brutal de mais dois anos depois do Carnaval, por e para tanto, reforcem os estais de tuas tendas, preparem-se para uma derrocada episódica, atenção aos que estão ganhando dinheiros colossais nesta crise fabricada com sucatas. afinal, o Brasil progride à noitinha enquanto nossos políticos estão dormindo, todos eles endinheiradíssimos e, muito apropriado registrarmos, quando na Pandemia eles se mantiveram todos muito bem abastecidos com seus Salários, Honorários e Bonificações integrais, enquanto somente a Sociedade Produtiva mergulhava em caos, em cortes, em prejuízos e em encerramentos seriais de muitas atividades, carregando sozinha o fardo nacional do Custo Brasil que os próprios políticos não cuidam, numa nação riquissima que esfola sem piedade 220 milhões de almas sem nada retornar à elas, sem escolas equipadas, sem ruas seguras, sem cidades confortáveis, sem culturas difusas, sem esportes que não o futebol, com um cinema mentiroso e sectário, muito mais um arcaico sistema imperial de castas intocáveis, do que uma moderna república de fato.

Os ventos das mudanças já estão soprando alhures.

Christian Steagall-Condé é arquiteto, artista plástico e comunicador

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