Por Almir Escatambulo
Se o Barão de Montesquieu ressuscitasse e cometesse o erro estratégico de desembarcar em Brasília neste outubro de 2026, ele não escreveria O Espírito das Leis. Escreveria um atestado de óbito. O homem que gastou tinta neurônios para nos convencer de que a civilização depende do equilíbrio milimétrico entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário olharia para o Brasil do segundo turno e pediria um conhaque duplo. Dos fortes.
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O que temos nas urnas neste dia 25 de outubro é o triunfo absoluto da nossa incapacidade criativa. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, o eterno sobrevivente, tentando esticar o prazo de validade de um modelo que ruge no Nordeste mas sussurra no resto do país. Do outro, Flávio Bolsonaro, a fênix dinástica do PL, operando com a precisão cirúrgica de quem herdou o espólio do ressentimento nacional e agora lidera a largada das pesquisas. Uma escolha que prova que o brasileiro não quer um governo; quer um exorcista para o demônio do vizinho.
Montesquieu, coitado, defendia que a virtude é o motor da República. Se visse o balcão de negócios em que se transformou a nossa esplanada dos ministérios, mudaria o conceito para “orçamento secreto”. No Brasil de 2026, os Três Poderes não se limitam mutuamente; eles se devoram mutuamente em um ménage à trois institucional.
O Legislativo virou uma corporação de chantagistas profissionais que sequestrou os cofres públicos. O Executivo é um refém perpétuo que passa o dia assinando cheques para não sofrer impeachment. E o Judiciário? Ah, o Supremo Tribunal Federal. Os herdeiros de Montesquieu na praça dos Três Poderes decidiram que a melhor forma de proteger a democracia é editá-la diariamente, acumulando mais poder do que o próprio Rei Sol sonhou em Versalhes. Quando o juiz vira o legislador e o executor, o Barão perde a linha e o país perde o rumo.
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Lula e Flávio disputam uma cadeira presidencial que, pelas regras da nossa anarquia prática, manda cada vez menos no orçamento e cada vez mais no espetáculo das redes sociais. A extrema-direita flerta com o algoritmo; a esquerda se apega ao passado. Enquanto isso, governadores eleitos correm para garantir seus feudos, o Centrão calcula o preço do apoio do dia seguinte, e o eleitor, no meio do tiroteio, vota com o estômago flertando com a gastrite.
Dizia Montesquieu que “toda nação tem o governo que merece”. Errou. O Brasil tem o governo que inventa para punir a si mesmo. Não há moderação possível quando a engrenagem estatal foi desenhada para moer o cidadão e alimentar a burocracia. O segundo turno de 2026 não é uma eleição; é um reality show de sobrevivência institucional onde o prêmio final é governar as ruínas de um sistema que já faliu. O último que sair, por favor, apague a luz do Planalto. Se o STF não tiver confiscado a lâmpada antes.
Almir Escatambulo é cientista social e colaborador do Portal
*Os artigos não refletem necessariamente a opinião do Portal














