Por Mário César Carvalho
A história começa com Dorian Gray iniciando sua vida social como quem já nasce em vantagem. Jovem, bonito, desses que parecem estar sempre bem iluminados, mesmo sem sol. A pele intacta, o futuro aberto, os elogios vindo fáceis. Um rapaz que a vida tratava com carinho. Até que aparece Lord Henry — não exatamente um mau elemento, mas aquele amigo espirituoso, bom de conversa e cheio de ideias instigantes. Em poucas conversas com Henry, Dorian aprende a olhar o passar do tempo com certo receio e a colocar o prazer pessoal num pedestal confortável, bem no centro da própria existência.
Mas enquanto Dorian circulava pelos salões de festas da vida, com a elegância de quem parecia não envelhecer nunca, um retrato dele, pendurado em algum lugar longe de olhos curiosos, começava a contar outra história. Lentamente a pintura se transformava, acumulando poeira, marcas, sombras e silêncios. Foi ali que o tempo tinha resolvido se manifestar. Era como se o que não cabia na aparência externa de Dorian, tivesse encontrado naquela pintura um lugar para existir. Por fora, tudo seguia impecável. Por dentro, algo ia ficando pesado — ainda indefinido, mas presente.
Acontece que sustentar aquela harmonia cobrava energia. Manter a imagem perfeita exigia atenção constante, quase um ritual diário. E aos poucos, Dorian percebe que a perfeição e a juventude eterna não eram só presentes — eram também compromissos difíceis de honrar. Não demorou muito e logo ele percebeu que aquilo que parecia liberdade passou a ter gosto de limite. Um conforto elegante, mas apertado, onde o espelho devolvia um rosto intacto enquanto o coração aprendia a se esconder.
Na sua obra, O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde não escreveu sobre um vilão nem sobre um herói. Escreveu sobre alguém profundamente humano. Alguém que acreditou ser possível separar aparência e essência sem consequências. Mas, como se sabe, a vida real não funciona assim, porque mais cedo ou mais tarde, a distância entre o que se mostra e o que se é se impõe — de forma insistentemente impossível de ignorar.
Agora, corta o quadro.
Pega o celular. Desbloqueia. Rola o feed… rola mais um pouco. Bem-vindo à versão 2026 de Dorian Gray, iluminada por LED, alimentada por wi-fi capenga e ansiedade de alta velocidade. Aqui, a luta diária é contra o ângulo ruim, a olheira rebelde e a realidade que insiste em não colaborar com o algoritmo da vida.
Hoje, parece que a grande missão não é viver. É parecer que se vive. A gente acorda já atuando. Mal escovou os dentes e já está performando felicidade para uma plateia invisível. É como ensaiar uma peça que nunca estreia, usando figurino emprestado e cenário alugado por stories.
Não! A internet não é a vilã! Ela é só um espelho. O problema é que aprendemos a mentir para o espelho e ficamos contrariados quando ele nos mostra uma imagem que não gostamos. A moça posta o café da manhã zen: pão integral, abacate, chia, segurando uma caneca com café fumegante, com a inscrição ‘gratidão’. Fora do enquadramento, a pia cheia de louças sujas, no aparador boletos vencidos e por dentro a ansiedade roendo. O rapaz manda um textão sobre foco e disciplina às seis da manhã, mas só levantou cedo porque o chefe mandou áudio. No feed, todo mundo é leão. Na vida real, gatinhos assustados.
Encenações como essas são uma espécie de fuga elegante. Antigamente, fugir era pegar estrada, sumir no mundo, dar no pé. Hoje, é ficar online, ocupado demais fabricando uma vida paralela para não ter que encarar a original — cheia de rachaduras, dúvidas e dias sem filtro. Na verdade a realidade é cruel: não pode ser editada, não aceita legenda motivacional, não melhora com hashtag.
E tudo começa de forma inocente: um filtro aqui, outro ali e de repente a gente já não se reconhece mais sem maquiagem digital. Trocamos o suor pelo brilho, o tropeço pela pose firme e a dúvida por frases motivacionais prontas. E pior, compramos nossa própria propaganda, acreditando nela como quem acredita em horóscopo quando convém.
Sonhar não é o problema — sonhar é humano. O problema é trocar o sonho pela vitrine. Confundir desejo com fachada. Acreditar que, se parecer o suficiente, um dia talvez consiga ser. Mas a realidade não tem atalhos e tudo o que a gente tenta pular é cobrado depois — e quase nunca sai barato.
Conversas profundas viram comentários apressados. O silêncio, que podia ser descanso, vira ameaça. Ficar offline parece suspeito. Se ninguém viu, não aconteceu. Se ninguém curtiu, não valeu.
Aí chega o tempo — esse senhor inconveniente — e faz o que sempre faz. Passa. Derruba plataformas, muda algoritmos, leva likes embora. E quando o barulho some, sobra o quê? Sobramos nós. Sem plateia, sem ring light. Só nós e aquilo que construímos quando ninguém estava olhando.
Talvez o antídoto seja simples, quase ingênuo: viver antes de mostrar. Sentir antes de postar. Errar sem pedir desculpa pública. Ser meio sem graça, meio perdido, bem humano. Entender que vida boa não é a que engaja, mas a que permite deitar a cabeça no travesseiro sem precisar ensaiar sorriso.
Não é sobre abandonar a internet. É sobre não morar nela. Compartilhar sem se substituir.
No fim das contas, a maior coragem talvez seja essa: ser quem de fato se é, mesmo sem curtidas. Descer do palco, tirar a fantasia, respirar fundo e aceitar a imperfeição como parte do pacote — não como defeito.
E há esperança nisso. Porque quando se para de parecer e se começa a ser, mesmo que ninguém aplauda, algo se ajeita por dentro. E como Dorian diante do retrato que guardava seus segredos mais íntimos, talvez descubramos o essencial: que a verdade sobre nós mesmos não destrói. Ela assusta, dói um pouco, mas liberta. E isso, convenhamos, já é uma bela vitória.
Porque ser quem se é não faz barulho, mas cria raiz. Silencia o esforço inútil de parecer e ensina o corpo a repousar na própria verdade. Não há espetáculo nisso, apenas um tipo raro de inteireza. E talvez a beleza esteja exatamente aí: existir sem artifício, permanecendo em nós mesmos, apesar do mundo.
Mário César Carvalho é advogado, professor de direito e cronista deste portal















1 comentário
Welington Marcos
Gostei do artigo