Perícia da PF dos crimes de 8 de janeiro esmiúça milhares de dados

Da Agência Brasil

Rostos que passam de frente para as câmeras de monitoramento. Mensagens de áudio, vestígios biológicos, impressões digitais, fotos, pistas deixadas em ônibus ou nos telefones celulares. Desde o dia 8 de janeiro, há quase 8 meses, os peritos criminais da Polícia Federal sabem que os trabalhos de investigação com a coleta de provas não tem data para acabar. “Não há prazo porque os materiais continuam chegando”, disse o diretor do Instituto Nacional de Criminalística (INC), Carlos Eduardo Palhares, em entrevista à Agência Brasil. Todas as pistas e vestígios, de agressores a financiadores dos ataques, são fundamentais para coleta de provas daquela série de crimes que marcou a história do Brasil.

Para se ter uma ideia, nos palácios sedes dos Três Poderes, invadidos e depredados, os sistemas de câmera de monitoramento identificaram mais de dois milhões de rostos nos vídeos. Referem-se às mais de duas mil pessoas investigadas que fizeram os ataques. As identificações encontram cada movimento deles dentro dos prédios.

Brasília (DF) – Trabalhos de perícia realizados pela Polícia Federal sobre os crimes de 8 de janeiro. Foto: André Zímmerer/Polícia Federal
Trabalhos de perícia realizados pela Polícia Federal sobre os crimes de 8 de janeiro – Foto: André Zímmerer/Polícia Federal

“É um trabalho de reconstrução. O trabalho continua, principalmente na busca pelos elementos audiovisuais e no setor da informática. Mas a gente segue à disposição de tudo o que a investigação demandar”, disse o diretor do INC. Ele participou, nesta semana, em Brasília, do InterForensics, o maior evento de ciências forenses da América Latina.

Os trabalhos sobre o 8 de janeiro são considerados muito singulares entre os profissionais de perícia. “É um trabalho de rastreio. São quase duas mil horas de gravação, e envolve muitos peritos porque é uma atividade que não dá pra colocar o computador para fazer”, explica Palhares.

Em outras situações, o computador é fundamental porque foram apreendidos mais de 800 telefones celulares, e com ferramentas, é possível buscar com palavras até os áudios gravados. A automatização também permite, por exemplo, localizar imagens nos aparelhos a partir de procuras de rostos de pessoas.

As análises de celulares de pessoas que foram presas nas 15, até agora, fases da Operação Lesa Pátria, estão entre as tarefas. “A gente está fazendo também a identificação do valor do dano das obras de arte, que a gente chama de obras de patrimônio cultural”, informou. São ações fundamentais para a materialização do dano, acrescenta.

A maior perícia

A investigação é detalhista e cada informação se junta com outra para organizar o quebra-cabeças. Palhares disse que essa foi a operação, em curto período de tempo, com a maior mobilização de setores da perícia. É preciso contatar os autores por imagens, impressões digitais, materiais genéticos. “Buscamos materialidade, autoria e dinâmica dos eventos. Nesse caso, pela proporção que foi o evento, e pela quantidade de envolvidos e também pelo que representava à democracia brasileira, era um caso muito complexo”, avalia o diretor do INC.

Brasília (DF) – Trabalhos de perícia realizados pela Polícia Federal sobre os crimes de 8 de janeiro. Foto: André Zímmerer/Polícia Federal
Trabalhos de perícia realizados pela Polícia Federal sobre os crimes de 8 de janeiro – Foto: André Zímmerer/Polícia Federal

De acordo com Palhares, mesmo com a complexidade, as equipes buscaram ser céleres para atender as necessidades demandadas pela Justiça. “Foi preciso acessar várias áreas da criminalística para trazer as respostas”, disse. Ele recorda que, quando as equipes chegaram aos palácios dos Três Poderes, puderam constatar uma infinidade de vestígios pelo chão que poderiam ajudar na identificação das pessoas.

“No campo da criminalística da PF usamos muito os dados genéticos para identificação das vítimas e dos autores. O perito de local coleta e manda para os laboratórios. Como foi uma mega mobilização, foram peritos de todas as áreas para atuar”, revelou. Foram organizadas inicialmente oito equipes. Em cada uma delas, havia especialistas em genética para que a coleta de material ocorresse da forma correta.

Dinâmica dos eventos

As imagens foram utilizadas para identificação e também para entendimento da dinâmica dos crimes. Os peritos chamam essa fase como “análise de conteúdo”. A documentação do local envolveu atividades detalhistas e exaustivas. “Essa documentação demandou o uso de equipamentos especiais, como drones, câmeras 360 graus, scanner 3D e equipes próprias para fazer esse tipo de trabalho”.

Para realizar o trabalho, segundo Palhares, foi demandado um serviço de perícias em audiovisual e eletrônicos. Cada imagem é considerada um vestígio. A coleta pela equipe é de documentação de local a fim de compreender as cenas de crimes.

Brasília (DF) – Trabalhos de perícia realizados pela Polícia Federal sobre os crimes de 8 de janeiro. Foto: André Zímmerer/Polícia Federal
Trabalhos de perícia realizados pela Polícia Federal sobre os crimes de 8 de janeiro – Foto: André Zímmerer/Polícia Federal

Somente no primeiro dia foram 75 peritos em ação. Depois, pelo menos 80 peritos passaram a fazer coleta de material de referência entre as pessoas que foram presas na penitenciária da Papuda (homens) e da Colmeia (feminino). No total, mais de 100 peritos atuaram e atuam para encontrar as provas.

“Foram apreendidos muitos celulares, e isso demanda muito trabalho da área de informática”, explicou. Outros materiais investigados foram os veículos que transportaram as pessoas que participaram dos atos daquele dia. Foram mais de 100 ônibus periciados.

Nos três primeiros meses, os peritos entregaram os laudos de local de crime, os de genética para identificar autoria e também os resultados dos crimes contra o patrimônio cultural. Mas as demandas foram mudando por causa das imagens que surgiam. “Assim, tem sido possível identificar o que cada pessoa fez dentro dos palácios”, explicou Palhares.

Edição: Fernando Fraga

Compartilhe
Leia Também
Comente

Um comentário

  1. Campos

    Depois de tanto trabalho, o que se espera é que esses criminosos sejam presos e indenizem o Estado brasileiro pelos prejuízos que causaram. Sem anistia para esses neofascistas!

  2. Décio Paulino

    Já estou até vendo comentários de patriotários dizendo que a PF agora persegue “gente do bem” (gente que defende ditadura, torturadores, golpe militar e destrói bens públicos é, sim, do mal) enquanto os bandidos estão livres e soltos. Balela de defensores de criminosos! Um pequeno exemplo de como a PF está trabalhando, sim, contra todos os tipos de crimes. Em nossa região, só neste ano a Polícia Rodoviária Federal já apreendeu mais de 15 toneladas de drogas.

  3. Genildo

    Esperamos que tanta tecnologia e empenho sejam suficientes para resgatar, recuperar as imagens “apagadas”, desaparecidas das 181 câmeras restantes do Ministério da Justiça, comandado pelo Sinistro Flávio Dino. Estranho que imagens de apenas 4 câmeras das 185 tenham sido preservadas.
    Mais estranho ainda foi a justificativa do Sinistro: “Há um contrato sobre as regras de conservação dessas imagens. Havia imagens preservadas, porque estavam em inquéritos. A PF foi lá, no começo de fevereiro, e levaram nas imagens. Todas as imagens que existem foram entregues, disse Dino ao justificar a exclusão e dizer que as imagens são apagadas a cada 30 dias para dar lugar a novas filmagens. Procurado pela imprensa a pasta respondeu ao contato da reportagem dizendo que “as imagens consideradas importantes pelas autoridades competentes para os inquéritos em curso foram preservadas” mas não esclareceu o motivo de não ter preservado o material.
    Ora, se o evento todo gerou inquéritos por qual motivo foram selecionada apenas as imagens de 4 câmeras e não a das todas 185? Ainda assim o “VINGADOR” jura que não há nada demais nas imagens………que foram apagadas.
    Agora vamos falar de coisas mais amenas, sobre cultura, assim sendo não posso deixar de sugerir a leitura de um best-seller: Assassinato de Reputações – um Crime de Estado.Neste livro. Romeu Tuma Junior faz severas menções ao governo Lula e os métodos colocados em prática durante o governo do ex-presidente. O ex-secretário nacional de Justiça usa sua longa experiência em investigações no Brasil e no exterior, quando atuava em cargos importantes pela Polícia Federal , onde colaborou com o pai, Romeu Tuma, respeitado senador e diretor do Dops. O livro se assemelha a um depoimento de Tuma Junior sobre o que viu em atividade e também sobre tudo que ouviu de seu pai, sobre o convívio com o então preso especial do Dops e sindicalista, Lula. No livro Assassinato de Reputações: Um Crime de Estado, Romeu Tuma Junior fala sobre o assassinato do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, investigação essa, que ele participou e agora mostra detalhes do caso. Além disso, Tuma Junior fala sobre as atuações dos órgãos de segurança nacional, Abin e Polícia Federal na última década. Fala inclusive, sobreo polêmico grampo telefônico no STF e o tratamento dado aos desafetos políticos e empresário pelo atual governo. O autor disseca como funcionaram e os reais objetivos de operações midiáticas como Satiagraha, Chacal e Trovão, além de outras investigações polêmicas que ocorreram na ultima década. Por fim, ele fala de forma contundente em seu relato sobre os figurões do seu governo, de ter sido vítima do atual governo ao se recusar a colocar em práticas atitudes nada republicanas desses figurões do governo Lula. Fazendo relatos assombrosos dos poderosos, esmiuçando com detalhes e realismo, além de impressionar com informações vindas diretamente do precioso arquivo de seu pai, mostrando suas habilidades de um arquivista metódico que viveu diversas investigações. Veja em Assassinato de Reputações, o relato de Romeu Tuma Junior sobre como funciona atualmente a engrenagem do poder no Brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Buscar
Anúncios
Paçocast
Anúncios