
Por Marcos Defreitas
A luz que entrava pelas janelas do Hotel Canal, em Bagdá, trazia o calor sufocante de agosto e o peso de uma promessa interrompida. Era o dia 19 daquele mês, em 2003. O homem que despachava na mesa principal do terceiro andar carregava nos olhos a herança de duas realidades brasileiras, o sangue forte e desbravador dos avós, agricultores do interior agrícola da Bahia, e a erudição refinada de sua mãe, a professora Gilda, com quem aprendeu o valor das letras no Rio de Janeiro, sua cidade natal, e a máxima de nunca deixar tarefas ou missões inacabadas. Essa lição, compartilhada pelo exemplo de seu pai Arnaldo, que também foi diplomata cassado pelo regime militar, definiu sua vida e carreira, marcadas pelo compromisso absoluto até o fim, sem jamais esquecer as origens na cidade onde também viveu como um eterno fã do pôr do sol do Arpoador. Ele partiu naquele dia deixando sua companheira e última esposa, Carolina Larriera, dois filhos, Laurent e Adrien, e uma trajetória interrompida aos 55 anos de idade.
Sérgio Vieira de Mello não era apenas mais um diplomata na engrenagem das Nações Unidas. Ele era o brasileiro que alcançou o maior escalão da história da organização. Mais do que isso, era o nome sussurrado nos corredores de Nova Iorque como o virtual e inevitável próximo Secretário-Geral da ONU. Uma cadeira máxima que parecia desenhada para a sua estatura moral e capacidade de diálogo. Essa trajetória inspiradora foi retratada no tocante filme norte-americano Sérgio (2020), produzido pela Netflix e estrelado por Wagner Moura e Ana de Armas, uma obra que vale a pena assistir para compreender a dimensão de seu sacrifício.
Essa trajetória de liderança global começou a ser lapidada longe dos salões oficiais. Passou pelos bancos do Liceu Franco-Brasileiro no RJ e ganhou corpo na Suíça e na prestigiosa Universidade de Sorbonne, em Paris, onde concluiu com brilhantismo dois doutorados. Foi na efervescência de Maio de 1968, sob a influência intelectual de seu mestre, o filósofo Vladimir Jankélévitch, que o jovem estudante de Filosofia compreendeu o preço do idealismo. Nas barricadas do Quartier Latin, defendendo causas humanas e a escrita inflamada de panfletos, Sérgio sentiu o impacto físico da intolerância. Uma cassetetada violenta da polícia de choque francesa rasgou-lhe o supercílio. A cicatriz que trouxe no rosto pelo resto da vida tornou-se o marco divisor. Ali, o ativista de rua deu lugar ao diplomata pragmático. Sérgio percebeu que as verdadeiras revoluções humanitárias não se faziam quebrando vidraças, mas construindo pontes.
Essa transição o transformou no “solucionador de problemas” preferido de Kofi Annan. Onde o mundo sangrava, Sérgio desembarcava. Com um charme natural, fluência perfeita em cinco idiomas e uma rara habilidade de transitar entre as exigências de superpotências como os Estados Unidos e as dores de povos esquecidos. Ele coordenou a pacificação no Camboja, organizou o Kosovo e tornou-se herói nacional ao liderar a transição para a independência do Timor-Leste, além de deixar sua marca histórica na resposta a crises humanitárias em Bangladesh, no Sudão e em Chipre. Ele operava no terreno, com o pé na lama e os olhos no horizonte da justiça social.
A missão no Iraque, aceita a contragosto, era vista pela comunidade internacional como o teste definitivo, o último degrau que pavimentaria sua consagração para o comando global da ONU em 2006. O destino, contudo, explodiu em forma de um caminhão-bomba.
Sérgio morreu como viveu, cercado pelos escombros do mundo que tentava consertar, conversando com os resgatistas, mantendo a calma sob o concreto que lhe esmagava o corpo. A Al-Qaeda o escolheu como alvo justamente pelo sucesso de suas missões humanitárias.
Em memória ao seu sacrifício e à data de sua morte, a ONU tornou o dia 19 de agosto como o Dia Mundial Humanitário. Diante dessa lembrança, reforça-se a importância de lembrarmos daqueles que foram, mas deixaram legados que não podem ser esquecidos. Esse homem de campo e de sentimentos nobres foi lembrado pelo presidente Bush, com quem esteve várias vezes, como um profissional que dedicou sua vida nobre a servir a humanidade no próprio campo de atuação. O Brasil chora o filho da professora e do diplomata, o jovem das barricadas de Paris, o homem que quase governou o mundo, mas que preferiu salvá-lo, vida por vida, até o seu último suspiro.
*Marcos Defreitas é jornalista e cronista convidado do portal














1 comentário
Mister Londrino
No cenário de avassaladora mediocridade que predomina nas redes sociais, ambiente fecundo de proliferação de personagens que variam do grotesco ao alucinado, constituindo espécime fruto da decadência cognitiva da Humanidade, designado “influencer”, a digna figura do compatriota Sérgio Vieira de Mello brilha, constitui eloquente exemplo de que o Brasil deve abraçar a sua vocação de difundir valores e princípios humanitários, pacifistas e espirituais, como contraponto à crescente cultura bélica, xenófoba, materialista e discriminatória que viceja no concerto das nações.