Por Mário César Carvalho
Era 31 de dezembro, dez e quarenta e cinco da noite e eu percebi que me encontrava oficialmente no limbo do calendário. Isso porque o ano velho não estava velho o suficiente para já ter ido embora e o ano novo ainda não causava muita empolgação. Era aquele horário ingrato no qual ainda não há fogos, existe um silêncio estratégico na vizinhança e a gente começa a negociar com o próprio cansaço. Eu vestia uma bermuda que há muito havia desistido de parecer nova, uma camiseta qualquer e carregava comigo uma dignidade meio amassada.
Meu apartamento estava quieto. Um tipo de silêncio que não conforta, só observa. Na cozinha a geladeira fazia um barulho estranho, como se reclamasse da vida. Sobre a pia uma montanha de panelas sujas denunciava mais uma tentativa fracassada de um solteiro que passou a tarde toda tentando fazer sozinho sua própria ceia, sem sucesso. Abri uma cerveja meio gelada — porque tudo que podia ser simbólico naquela noite seria — e me joguei no sofá, que rangeu como se compartilhasse todas as minhas dores lombares e existenciais.
E foi ali, naquele cenário pouco inspirador, que eu decidi fazer algo absolutamente inusitado: mentalmente chamei os Anos Passados e o Ano Novo para uma conversa. Não foi um convite formal. Foi mais um “apareçam aí”, desses que a gente fala quando já cansou de fingir que está tudo sob controle.
Imagino aqui que você aí não vai acreditar, mas, por incrível que possa parecer, alguns deles aceitaram. Os Anos Passados vieram primeiro. Sempre vêm. Chegaram todos juntos, entraram sem bater e cheios de intimidade. Sentaram como se a minha casa fosse deles, espalharam lembranças pelo tapete da sala e começaram a falar, cada um mais convencido que o outro, de que tinha sido o “grande ano” na minha história.
1998 foi logo puxando assunto com um ar confiante de quem acha que tudo era melhor “naquele seu tempo”. Falou que a vida era mais simples, que não existia essa frescura de rede social e que as pessoas conversavam se olhando nos olhos. Balancei a cabeça, somente para aparentar concordância, pois me veio à memória que naquele ano eu ganhava pouco, reclamava o tempo todo e, para piorar, que tive meu coração partido após levar um fora da Zenaide, por fax. Sim, fax. Foi um grande amor que terminou em papel térmico que com o tempo apagou a escrita.
2005 pigarreou e iniciou uma conversa do tipo motivacional, muito embora naquela época dele esse tipo de discurso ainda não fosse modinha. Disse que foi um ano de muito aprendizado para mim, que todo meu sofrimento tinha um propósito e que cada boleto atrasado me fortaleceu como ser humano. Falou em resiliência com orgulho, como se tivesse me dado um troféu invisível. Suspirei e revirei os olhos, mas deixei falar. De vez em quando eu deixo.
2010, mais exibicionista, balançou um smartphone antigo e disse que havia trazido o mundo para a palma da minha mão. Que antes dele eu me perdia nas ruas sem GPS e que depois, continuei a me perder dentro de mim mesmo. Todos riram. Eu ri também, meio constrangido, porque lembrei de quantas e tantas vezes ao longo da vida eu estive exatamente onde queria estar e ainda assim me senti deslocado.
2016 se mostrou mais mal-humorado, reclamando de tudo. Da política, do clima, das pessoas, da internet, da família. Fez uma defesa de si mesmo dizendo que, apesar de ter dividido amizades, estragado festas de Natal e causado guerras em grupos de WhatsApp, ainda assim merecia respeito. “Eu fui intenso”, finalizou ele. E eu respondi mentalmente: Pois é, intensidade demais costuma deixar cicatrizes……… e nem todas as cicatrizes viram saudades.
De repente todos começaram a falar ao mesmo tempo, tentando fazer valer seus argumentos, igual aqueles tios meio bêbados em ceia de Natal. Um dizia que foi o melhor ano da minha vida, outro que foi o mais difícil e outro o mais verdadeiro. Todos tinham aquela certeza irritante de que no tempo próprio de cada um deles, tudo era melhor: a música, o pão francês, os sonhos. Eu só observava e bebia minha cerveja — agora já morna — pensando em como nenhum deles, enquanto aconteciam, teve a decência de me avisar que aquele era “o bom tempo”. Porque no tempo de cada um deles a vida para mim foi só dias corridos, contas vencendo, sonhos não realizados e expectativas empurradas para depois.
Quando o clima começou a esquentar, o Ano Novo chegou.
Entrou sorridente, confiante e perfumado demais, com promessas penduradas até nos bolsos. Apertou firmemente a minha mão como vendedor de carros em começo de mês.
— Prazer — disse. — Sou aquele que vai mudar tudo.
Os Anos Passados bufaram e um deles, não sei qual, sorriu ironicamente. Confesso que senti um friozinho na barriga — era aquela esperança desconfiada que aparece todo fim de ano, mesmo depois de tantas decepções. É quase humilhante admitir, mas eu queria muito acreditar.
E ele começou a desfilar promessas de saúde, projetos, coragem, superações e recomeços. Garantiu que seria o melhor ano de todos, o mais leve, o mais justo. Falava como quem vende um futuro só de felicidades em suaves parcelas mensais.
Os Anos Passados chamaram-no de arrogante. “Espera acontecer”, “Depois a gente conversa”, provocaram.
A discussão recomeçou. De um lado, memórias e cicatrizes. Do outro, possibilidades ainda intactas. E no meio disso tudo eu tentando falar. Levantei a mão. Nada. Pedi a palavra. Nada.
Então fiz o que homem de meia-idade aprende a fazer para ser ouvido: desliguei o barulho do mundo.
— Chega! — disse eu, quase gritando.
— Silêncio! — em tom mais ameno.
Respirei fundo. Olhei para cada um deles e percebi algo óbvio demais para ser confortável: que todos falavam como se eu fosse figurante da minha própria vida.
— Sabe de uma coisa — comecei — enquanto estavam acontecendo, nenhum de vocês me parecia tão especial assim.
Os Anos Passados se entreolharam.
Continuei:
— Em 98 eu reclamava do trabalho. Em 2005 eu estava exausto. Em 2010 eu dizia que tudo estava rápido demais. Em 2016 eu só queria que acabasse logo.
Olhei para o Ano Novo e disse:
— E você, que ainda nem começou, já está cheio de expectativas e promessas que talvez não consiga cumprir.
O entusiasmo e a confiança dele diminuíram um pouco. Não sumiram — apenas amadureceram.
— Acho que o problema não são vocês e – como diz meu grande amigo Ricardo – “a grande verdade” é que a gente passa a vida inteira comparando tudo e todos. Dizendo que o antes era melhor ou que o depois com certeza será. E enquanto isso, a vida acontece aqui, nesse intervalo curto entre uma lembrança e uma promessa.
Eu e meus convidados não percebemos, mas o relógio tinha atravessado a fronteira invisível da meia-noite. Os fogos começaram a rasgar o céu como se tentassem escrever algo importante em um idioma que ninguém sabe traduzir direito. Os Anos Passados começaram a esmaecer lentamente, como que finalmente aceitando seus lugares de memórias. Foram embora sem ressentimentos. Estavam em paz e leves, cada um com a certeza de que haviam cumprido suas funções.
O Ano Novo ficou mais um pouco. Não disse nada. Apenas ficou me olhando com curiosidade calma, como quem finalmente havia entendido que não precisava provar nada naquele momento.
E foi ali, em pé no meio da sala, segurando uma lata de cerveja quase vazia, que eu compreendi algo simples e imenso.
Que a vida não mora no calendário. Não se esconde nos anos que se gabam do que foram, nem nos que se anunciam cheios do que pretendem ser. A vida acontece no agora imperfeito. No corpo que cansa, mas que no dia seguinte levanta para seguir adiante. No coração que já foi machucado, mas que insiste em continuar acreditando. Acontece enquanto o tempo passa sem pedir licença e a gente segue, mesmo sem saber exatamente para onde.
Sorri internamente. Um sorriso simples, desses que não precisa de plateia.
Finalmente eu havia entendido, sem estardalhaço, que o melhor ano das nossas vidas não é o que a gente idealiza ter sido o melhor depois que já passou, nem aquele que promete demais antes de acontecer. Não é o que reluz na nostalgia nem o que brilha nas expectativas. O melhor ano é este. O que está acontecendo agora. O ano em que estamos vivos — e isso já é muito.
Que o melhor tempo é aquele no qual ainda respiramos, mesmo nos sentindo meio mortos. Em que erramos, tropeçamos e às vezes caímos, mas que nos levantamos e tentamos de novo, de novo…….e de novo. Em que dá para mudarmos de ideia, aprendermos devagar, refazermos caminhos. É o ano em que o frio da noite esfria a pele por fora, mas que alguma coisa quente permanece na parte de dentro. Onde há uma esperança discreta e teimosa, que não faz barulho e que não vai embora.
Porque esperança não é euforia nem promessa vazia, mas coragem silenciosa de continuar sem garantia nenhuma.
O Ano Novo saiu rapidamente e eu levantei um brinde — não ao passado e nem ao futuro — mas ao agora. A esse instante imperfeito e vivo. Esse milagre modesto que insiste em existir.
E enquanto os fogos morriam no céu e o mundo recomeçava seus planos grandiosos, comecei meu novo ano com uma certeza tranquila de que a vida, por si só, sustenta a esperança. E enquanto houver esperança, o novo ano sempre poderá ser o melhor de todos.
No apartamento do prédio da frente, os vizinhos cantavam: “Adeus ano velho, feliz ano novo…”
Da minha sacada olhei para eles e, mesmo sozinho, sorri alegremente grato porque eu ainda estava ali para poder ouvi-los, ainda que bêbados e desafinados.
*Mário César Carvalho é advogado, professor de direito e cronista deste portal















4 comentários
Ex petista
Lula caminha para disputar sua sétima eleição presidencial, enquanto as únicas outras duas foram vencidas por Dilma Rousseff/Hadaad, seus sucessores diretos.
Na prática, o Brasil passou mais de duas décadas sem vivenciar uma eleição presidencial sem a presença direta de Lula ou de seu grupo político. Isso diz muito sobre o nível de concentração de poder e a falta de renovação real no campo da esquerda brasileira.
É preocupante para a democracia quando um único nome ou partido se torna hegemônico a ponto de monopolizar a representação de um espectro político inteiro.
O pluralismo perde espaço, o debate empobrece e o país segue refém das mesmas figuras, dos mesmos discursos e dos mesmos vícios de poder.
Welington Marcos
Realmente sabermos que estamos vivo é o melhor ano novo que Deus nos deu, ou seja vivamos intensamente o dia de hoje pois o amanhã pertence a Deus,Viva a vida
Brasa, Mora!
O ex-prefeito Antonio Belinati, aos 82 anos, foi visto em Santos neste mês, possivelmente curtindo um dos shows do eterno Rei Roberto Carlos, de 84.
Dois ícones da velha guarda, firmes.
O tempo passa, mas algumas lendas seguem de pé.
Tarcizo Ribeiro
O texto narra uma reflexão íntima na noite de 31 de dezembro, quando o narrador, sozinho em seu apartamento, se encontra no “limbo” entre o ano que termina e o que ainda não começou. Em um exercício simbólico e bem-humorado, ele imagina uma conversa entre os Anos Passados e o Ano Novo, cada um tentando provar sua importância por meio de lembranças, dores, aprendizados e promessas.
Ao ouvir todos, o narrador percebe que passou a vida comparando passado e futuro, sem reconhecer que a vida acontece no agora — no intervalo entre a memória e a expectativa. Com a virada do ano, ele compreende que nenhum ano é especial por si só: é a presença, a resistência e a esperança silenciosa de continuar vivendo que dão sentido ao tempo.
A conclusão é simples e profunda: o melhor ano não é o que passou nem o que promete ser perfeito, mas aquele em que estamos vivos. A vida não mora no calendário, ela acontece no agora imperfeito — e isso, por si só, já é motivo de gratidão e esperança.
Parabéns !!