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Cláudio Osti

A liturgia do voto e o silêncio da esperança

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A liturgia do voto e o silêncio da esperança

por Almir Escatambulo

Caminho pela calçada prestando atenção no barulho das folhas secas sob os sapatos. É um prenúncio de outono, ou talvez seja apenas o tempo passando, indiferente às nossas pequenas angústias humanas. Olho para o bolso da camisa e sinto o relevo do papel dobrado. Ali estão anotados quatro ou cinco nomes. São os meus escolhidos. Gente que caminha pelo lado esquerdo da vida, onde o coração costuma bater com um pouco mais de pressa e de indignação diante das mazelas do mundo. Escolhi com convicção, admito. Mas, pela primeira vez em muitos anos, essa convicção carrega um peso estranho, um travo amargo na boca que eu não sabia bem como nomear.
Agora eu sei: é desilusão.
Votar deveria ser um ato de partilha, uma festa silenciosa da nossa liberdade. Mas a verdade é que a gente caminha para a urna eletrônica como quem cumpre uma liturgia antiga, cujo significado original vai se esvaindo entre os dedos. A gente escolhe o deputado, o senador, o presidente, depositando neles não apenas um sufrágio, mas um pedaço do nosso destino. E o que recebemos de volta, quase sempre, é a inércia.
O que me assusta não é a divergência de ideias. A divergência é bonita, é o oxigênio dos povos livres. O que me gela a alma é perceber que, uma vez passada a festa dos palanques, os nossos governantes parecem tomados por uma anestesia profunda. Há uma imobilidade crônica no ar. Ninguém parece verdadeiramente interessado em melhorar a qualidade da nossa representação, em abrir as janelas daquele palácio cinzento para que o ar fresco do povo possa entrar. Falamos tanto em democracia, mas tratamos essa mesma democracia como um móvel antigo da sala: limpamos o pó de vez em quando, mas nunca o trocamos de lugar, nunca o aprimoramos para que caiba o tamanho da nossa esperança.
O resultado é esse caminhar pesado até a seção eleitoral. A gente vota porque é preciso, porque a alternativa ao voto é o abismo. Mas vota sem o passarinho no peito. Vota com o medo de que, amanhã ou depois, aqueles nomes no papel se transformem em meras engrenagens de uma máquina que só funciona para si mesma.
Olho o céu cinzento de fim de tarde. O mundo continua grande e cheio de mistérios, mas a política ficou pequena. Ainda assim, amanhã vou acordar, vestir a minha melhor camisa e digitar aqueles números no teclado digital. É um gesto de teimosia, eu sei. Talvez a democracia seja isso: insistir no futuro, mesmo quando o presente nos dá todas as razões para cruzar os braços.

Almir Escatambulo, Cientista Social e colaborador do Portal

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