Por Mário César Carvalho*
Outro dia eu estava parado num semáforo aqui em Londrina e comecei a prestar atenção naquele pequeno espetáculo urbano que acontece todos os dias e que, se alguém filmasse, renderia fácil um documentário de humor involuntário. Ou um tratado de antropologia. Provavelmente os dois.
O trânsito da cidade não é exatamente um sistema de circulação de veículos. É mais uma espécie de teatro improvisado, onde alguns motoristas acreditam piamente que são os personagens principais e que os demais estão ali como figurantes, apenas para compor o cenário e observar em silêncio.
Londrina não é São Paulo numa sexta-feira chuvosa às seis da tarde. É uma cidade com avenidas relativamente largas, urbanismo sofrivelmente aceitável e uma quantidade impressionante de rotatórias. Nesse cenário, em tese, tudo deveria funcionar com a precisão de um relógio suíço, quando não, de um chinês de segunda linha. Mas nem sempre.
Comecemos por um item simples: o pisca-seta. Aquela varetinha discreta que, em todos os carros, fica do lado esquerdo do volante, bem ao alcance da mão, inventada com o único propósito de, quando acionada, avisar os outros motoristas qual é a direção que se pretende ir. Em muitas cidades brasileiras ele é levado a sério, mas na pequena Londres, ter que acioná-lo parece provocar uma reação alérgica no motorista, daquelas que causam vermelhidão, coceira e constrangimento público.
Não se trata de não usar por esquecimento, porque esquecimento acontece só de vez em quando. O que ocorre aqui é irritantemente constante e reincidente. Não usar o pisca-seta em Londrina parece um posicionamento filosófico. Um ato de resistência civil. Uma declaração silenciosa de que a direção a ser tomada é uma decisão exclusivamente de foro intimo de quem a tomou e de mais ninguém. Especialmente dos motoristas que estão atrás ou ao lado.
O motorista londrinense entra na rotatória tão perdido como quem entra no meio de uma conversa sem saber o assunto: não olha quem vem, não sinaliza para onde vai e, talvez, até sem saber muito bem o porquê que ele está ali naquele lugar. E do mesmo jeito que entra, de repente sai. Sem aviso. Sem sinal. Como alguém que entra num elevador lotado, aperta todos os andares e sai no primeiro, sem olhar para trás. Do lado, alguém buzina. Atrás, um outro freia. E o motorista individualista segue com aquele ar blasê de quem acha tudo o fluxo do tráfico se movimento de acordo com ele.
Curiosamente, o mesmo tipo de motorista que ignora o pisca-seta com convicção quase monástica adora, com entusiasmo quase religioso, o pisca-alerta.
O pisca-alerta foi criado para sinalizar emergências quando o veículo está parado. Mas em Londrina ele foi promovido a algo muito mais abrangente que parece que dá ao motorista que o aciona, uma espécie de autorização divina para fazer o que quiser. Quer parar em fila dupla? Pisca-alerta. Quer comprar pão rapidinho? Pisca-alerta. Quer estacionar no meio da rua para pegar uma encomenda ou conversar com alguém? Pisca-alerta também.
Muitos motoristas londrinenses acreditam que quando acionam o pisca-alerta, automaticamente se forma ao redor do carro um campo de força jurídico-moral que suspende temporariamente o Código de Trânsito, a física newtoniana, a civilidade e o bom senso. Quando aquelas quatro luzinhas começam a piscar simultaneamente, o veículo deles adquire a dignidade imóvel de um sofá-cama abandonado no meio da sala. E atrás começa a se formar uma fila que cresce lentamente, como aquelas cobrinhas de festa junina que a gente acendia quando era criança. Com a diferença de que a cobrinha tinha um fim previsível.
E pode buzinar, piscar os faróis ou gesticular, que a pessoa ao volante fica lá: tranquila, serena, completamente alheia às vidas de outros cidadãos que insistem em dividir com eles o mesmo espaço publico, ainda que obrigados.
Vez ou outra aparece um motorista mais impaciente, mais atrasado, ou simplesmente mais ingênuo, que resolve reclamar sobre o pequeno detalhe do cidadão ter parado onde bem quis, mesmo que ali seja um local sinalizadamente proibido. É nesse momento que ocorre outro fenômeno psicologicamente fascinante: a indignação invertida.
O confrontador emparelha o seu carro com que está parado irregularmente e pergunta para o motorista, com toda melhor diplomacia disponível: — “Amigo, parar aí complica a vida de todo mundo, não acha?”
E recebe de volta aquele olhar furiosamente ofendido, juntamente com a resposta questionadoramente clássica:– “Qual é o seu problema? Você é guarda de trânsito?”
Não deixa de ser uma boa resposta, ainda que genuinamente difícil de ser analisada sem parecer agressivamente mal educado.
Agora, se o pisca-alerta é o grande protagonista das paradas ilegais, existe um outro comportamento do motorista londrinense que eu considero ainda mais poético: aquele no qual ele para bem antes da esquina quando o semáforo fecha. O sinal está vermelho e o espaço está livre à frente. Então a lógica urbana indica que os veículos devem parar o mais próximo do cruzamento, antes do semáforo.
Mas o motorista londrinense não. Ah, ele não. Ele para uns dez metros antes, com a tranquilidade de quem está na varanda da sua própria casa. Na frente dele, o espaço vazio se estende largo o suficiente para estacionar um food truck com mesas, cardápio do dia e sobremesa. E o mais engraçado é que os outros motoristas que vão chegando param atrás. Parece que aquele trecho de asfalto vazio lá na frente virou área de preservação ambiental.
O motivo? Sombra. Londrina tem sol. E o sol, ao que parece, é um problema mais sério do que prejudicar a mobilidade urbana e causar engarrafamentos. Na verdade eu não tenho como provar isso. Mas também não tenho como refutar.
Talvez origem desse comportamento seja histórica. No passado as ruas de Londrina já foram mais poeira do que asfalto e o trafego urbano consistia basicamente em carroças, cavalos e, ocasionalmente, a jardineira da Viação Garcia levantando nuvens de terra. Naquele tempo sinalizar era desnecessário. A carroça virava quando dava vontade. O cavalo decidia o ritmo. As situações de falta de urbanidade se resolviam na base da conversa e da paciência.
Às vezes suspeito que no recôndito da memória da cidade ainda existam carroceiros invisíveis conduzindo alguns carros. No fundo são bons sujeitos, acostumados ao tempo lento das estradas de barro, mas que nunca se adaptaram ao fato de que agora as carroças aumentaram de tamanho e o cavalo tem motor 1.6, turbo. O cavalo, aliás, era mais previsível. Pelo menos de vez em quando sinalizava com a cabeça indicando a direção que iria seguir.
Porque no fim das contas, a rua é de todo mundo, o que, curiosamente, parece ser exatamente o problema.
Mas mesmo entre a falta de pisca seta e abundância de pisca alerta, seguimos pelas ruas da cidade desviando de filas duplas, tentando adivinhar para onde o carro da frente vai virar e torcendo para que um dias os motoristas da sombra se toquem e entendam que não é permitido parar no meio da quadra. Ao mesmo tempo, celebrando, com sincera alegria, cada vez que encontramos aquele motorista raro e precioso que usa o pisca-seta sem constrangimento.
Quando encontro um desses, confesso: dá vontade de buzinar, como uma forma de aplaudir a boa educação no trânsito e à consciência da vida em comunidade.
*Mário César Carvalho é advogado, professor de direito e cronista deste Portal.















4 comentários
Há Lagoas
Esqueceu de mencionar a “solidariedade” do motorista londrinense…
Estacione em uma avenida movimentada da cidade e tente sair com o pisca-alerta ligado — só para ver se aparece alguma alma caridosa que, por um milagre, resolva reduzir a velocidade e permitir sua entrada na via. Spoiler: não vai acontecer.
Dirigir em Londrina não é rotina, é esporte radical.
Incrédulo
Onde são aplicadas os valores das multas de trânsito?
Miriã Pietraroia
A história é tão boa (e verdadeira) que a gente não sabe se ri ou se chora.
Cadê o MP e TCE
Com certeza não é aplicada no sistema viário.
Vide o pagamento absurdo para o contrato da empresa de Radar que é de Pinhais e chama-se Perkons.
Foi aditivado no meio do anúncio de nova licitação?
Por que parou CMTU?
Por que o Fabrício Bianchi não fez, esse nexialista do SEBRAE?
Dia 15 fará um ano de anúncio e retrocesso da postura:
https://cmtu.londrina.pr.gov.br/index.php/ult-noticias/2163-publicado-edital-para-contratacao-de-nova-empresa-de-radar.html
CEI NELES.
CEI na cmtu zinha