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Cláudio Osti

O Coletivo Marianas foi à FLIMO! Festival literário é mercado, não passeio

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*Por Edra Moraes Publicado originalmente no portal O Londrinense

Circulação, comercialização e o que a FLIMO revelou sobre a cadeia literária brasileira

O Coletivo Marianas foi à FLIMO! Festival literário é mercado, não passeioPassei os últimos quatro dias em Morretes participando da FLIMO – Festa Literária de Morretes. Volto convencida de que festivais literários são hoje uma das mais eficazes, e ainda subestimadas ferramentas de circulação da produção literária brasileira contemporânea. E que essa circulação não é detalhe: é a diferença entre uma literatura que existe e uma literatura que sobrevive.

Mas este texto não é apenas um relato de experiência. É um argumento. Porque o que vi, em Morretes, confirma algo que os dados sobre a economia criativa brasileira já dizem há anos e que nós, trabalhadores da cultura, precisamos aprender a usar com mais precisão política. Em 2026, será tudo sobre política.

O que um festival literário realmente move

Quando se fala em festival de literatura, o imaginário coletivo ainda evoca algo elitista, acadêmico ou meramente turístico. Essa imagem está errada e o Brasil já tem dados para provar isso.

O setor criativo nacional emprega mais de 900 mil trabalhadores formais diretamente ligados à cadeia cultural. A literatura, como parte desse ecossistema, ainda carece de instrumentos específicos de mensuração, mas sua cadeia produtiva — autores, editoras, livreiros, produtores, distribuidores — é robusta, descentralizada e profundamente dependente de espaços de encontro físico para se dinamizar.

Observatório Brasileiro da Economia Criativa, relançado em 2026 com dados mais sistemáticos, aponta para uma realidade que quem trabalha no setor já conhece na prática: o maior gargalo da produção cultural brasileira não é a falta de talento, nem mesmo a falta de recursos. É a falta de circulação, e consequentemente, comercialização.

Festivais literários atacam exatamente esse gargalo. Eles criam condições para que o livro saia do ateliê do autor e chegue às mãos do leitor, com uma camada de experiência que nenhuma plataforma digital ainda conseguiu replicar.

FLIMO: o que aconteceu além da programação

A programação da FLIMO foi, por si só, motivo de presença. As oficinas conduzidas por escritoras renomadas, como Verônica Stigger e Alice Ruiz reuniram participantes de trajetórias diversas. O Coletivo Marianas esteve presente, e todas as integrantes retornaram com a mesma percepção: “quando o conhecimento circula entre pares, a escrita amadurece de forma que nenhum processo solitário consegue produzir”.

Mas o que mais me chamou a atenção aconteceu fora dos auditórios.

FLIMO provou que festivais literários são importantes para a circulação de livros. E circulação é a diferença entre literatura que existe e a que sobrevive
Feira de Livros – Coletivo Marianas e editora Donizela/ fotos: acervo pessoal

Aconteceu nos corredores, nos cafés, nos espaços de convivência e, principalmente, junto aos expositores. Conversando com escritores, editoras independentes e livreiros, ouvi repetidamente a mesma avaliação: o público compareceu, os livros circularam e as vendas superaram as expectativas.

Pode parecer detalhe. Não é. Em um país em que 44,6% dos trabalhadores culturais atuam na informalidade e 43% são autônomos — conforme dados do IBGE cruzados com o Observatório da Fundação Itaú , um festival que consegue transformar encontro em venda realiza algo que vai muito além do simbólico.

O combo que funciona: cidade turística + evento cultural

Morretes não é uma capital. Não tem grande infraestrutura de equipamentos culturais. Mas tem algo que muitas capitais perderam: identidade territorial forte e um visitante disposto a se surpreender.

Esse visitante chega para o turismo gastronômico, para o trem, para o visual das serras. E encontra a literatura, debates, música, contação de história e, claro, uma feira de livros. E leva a experiência para casa de uma forma que nenhum algoritmo de recomendação consegue reproduzir, porque o livro foi assinado pelo autor que ele acabou de ouvir falar, seja no palco ou na mesa do coletivo conversando com autoras.

Esse é o fenômeno que a teoria da economia da experiência — Pine e Gilmore— descreve como “o valor que está fora da expectativa do consumidor”. Alguns turistas de Morretes não foram exclusivamente pelo festival literário. Mas quando se depararam com um, compraram. Participaram.

Festivais literários como infraestrutura de mercado

O campo acadêmico já discute há pelo menos uma década o papel dos festivais literários como infraestrutura de mercado. A pesquisadora Millicent Weber, em seu estudo Literary Festivals and Contemporary Book Culture (2018), demonstra que festivais funcionam como espaços de legitimação cultural, onde autores ganham visibilidade, editoras testam recepção e leitores constroem identidade literária. No Brasil, esse papel é ainda mais crítico, dado o tamanho do país e a concentração histórica da cadeia editorial no eixo Rio-São Paulo.

Para novos autores – especialmente os que escapam dos grandes circuitos comerciais- , um festival bem-organizado pode representar a diferença entre ter um livro publicado e ter um livro lido. São espaços onde a editora independente do Paraná encontra o leitor do interior de Minas. Onde a autora estreante é colocada na mesma mesa de debate que a escritora consagrada. Onde a circulação se democratiza e não por decreto, mas por design de evento.

O Coletivo Marianas e a presença como política

Nossa participação na FLIMO não foi apenas institucional. Foi uma presença de escuta, observação, aprendizagem e articulação e é importante nomear isso com precisão, porque a presença de mulheres em espaços de circulação cultural ainda não é trivial. É uma escolha que carrega consequências. Quando mulheres ocupam espaços de circulação, elas não ampliam apenas suas trajetórias individuais. Elas constroem caminhos para as que vêm depois.

Circulação é resistência e precisa de política pública

Volto de Morretes com uma certeza simples: a literatura precisa de livros, mas precisa igualmente de espaços onde esses livros possam circular. E circulação, hoje, é uma das formas mais concretas de resistência cultural.

Mas resistência cultural não se sustenta por voluntarismo. Ela precisa de política pública contínua, financiamento estruturado e métricas que vão além do turismo. Precisamos saber quantos novos autores foram descobertos em festivais. Quantos títulos independentes foram vendidos. Quantas editoras pequenas faturaram o suficiente para publicar o próximo livro. Quantas mulheres e autores negros estiveram nas mesas de honra e não apenas nas margens da programação.

Em ano de eleição — como tenho insistido nesta coluna —, essas perguntas não são culturais. São perguntas que definem nossas carreiras.

O que Morretes ensina

Em quatro dias, a FLIMO reuniu leitores e autores, moveu a economia local, formou escritoras, fortaleceu editoras independentes e colocou Morretes no mapa da cultura literária brasileira.

Isso não é pouco. Isso é exatamente o que a economia criativa bem compreendida pode fazer: gerar valor simbólico, econômico e social. Nas próximas eleições, cobrem dos candidatos seus projetos para a cultura.

Referências citadas: FIRJAN – Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil | IBGE – Pesquisa Anual de Serviços | Observatório da Fundação Itaú – Decomposição do PIB Criativo | Weber, M. (2018). Literary Festivals and Contemporary Book Culture. Palgrave Macmillan. | Pine, B.J. & Gilmore, J.H. (1999). The Experience Economy. Harvard Business School Press. | UK Creative Industries – DCMS Investment Report 2025 | Canadian Media Fund – Annual Report 2024.

*Edra Moraes –Profissional de marketing, produtora cultural e escritora. Agitadora cultural e idealizadora do Movimento Londrina Criativa.

Prêmios:  Obras Literárias Digitais 2020“Antologia Poética | Seleção da AutoraMemorial Vivência, Literatura, Livro e Leitura UnesparCultura nas Redes 2020 e FCC Digital 2020. Me siga nas redes sociais: Facebook, Instagram @edra_moraes e

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