
Por Marcos Defreitas
As páginas da Folha de Londrina desta semana trazem aquele nó na garganta que a gente só sente quando o óbvio nos esbofeteia. São 31 portas abaixadas na tradicional Rua Sergipe. Um silêncio gordo, pesado, de quem foi abandonado à própria sorte. De um lado, o aluguel nas alturas, um peso exagerado que sangra o comerciante, do outro, a concorrência desleal do e-commerce e a falta crônica de estacionamento, que afasta o freguês como se houvesse peste. Para piorar o drama, a via inteira virou um terminal rodoviário a céu aberto, com uma frota de ônibus sufocando o asfalto e a paciência de quem tenta caminhar ali. É preciso coragem, ou loucura, para insistir em abrir as portas.
Mas a rua tem uma teimosia incurável, quase trágica. Lá atrás, nos anos trinta, ali era só poeira, chão batido onde os carrões dos barões do café desfilavam levantando nuvens de terra vermelha que pareciam esculpir a própria riqueza da época. Depois veio o asfalto em 1958, o calçamento em petit pavet da Acil, a reurbanização de 2020 com promessas de modernidade. Entre o art déco e o modernismo, ergueu-se o Edifício Tóquio, testemunha de uma verticalização que prometia o céu. Perto dali, a velha rodoviária de Vilanova Artigas e o Cadeião viram amores nascerem e morrerem, enquanto o comércio engolia multidões.
Nas décadas de quarenta e cinquenta, ali era o altar sagrado da cidade. A Pequena Tóquio pulsava com a graça dos imigrantes japoneses, misturada aos braços fortes de armênios, libaneses, sírios e brasileiros de todas as esquinas. Quem não guarda na carne a lembrança do Bazar Ajimura ou o cheiro daquela pastelaria com vitamina gelada? Era um formigueiro humano, vivo, febril.
Caminhar por ali hoje é esbarrar nos fantasmas da nossa própria glória. A Prefeitura, a Câmara e a Acil assistem a tudo com uma impassibilidade criminosa, enquanto Curitiba ensina, com a restauração de suas fachadas históricas, que o passado pode salvar o presente. O proprietário do imóvel precisa descer do salto e baixar o aluguel, senão o túmulo será o único inquilino restante.
Apesar da ferida aberta, a alma da Sergipe resiste com uma paixão indomável. Entre a nostalgia dolorida e a esperança que teimamos em não matar, a rua espera o dia em que voltará a pulsar em cada metro quadrado da nossa amada Londrina.
Marcos Defreitas é jornalista e cronista convidado neste Portal















1 comentário
Flavio
Quando cheguei em Londrina em 79 e fazia uso da Rodoviária as margens da Sergipe, tinha ali a visão de uma grande cidade um grande comércio…era fantástica esta rua..