Por Marcos Defreitas
Londrina ainda cheirava a terra vermelha e café recém-colhido quando, há exatos 74 anos, em 18 de agosto de 1952, um som novo passou a cortar o céu da cidade. Naquele dia a Família Rosseto abria as portas da Cipasa, e junto com ela nascia também aquele apito. Não era sino de igreja, não era buzina de automóvel, não era nada que já se conhecesse por ali. Era um som novo, subindo forte e certeiro acima de qualquer outro ruído urbano, como se quisesse avisar a todos que uma nova era havia começado.
A cidade vivia então o auge do café. As lavouras vermelhas cresciam nos arredores, os armazéns se enchiam de sacas, e Londrina crescia junto com elas, casa após casa, rua após rua, sonho após sonho. Era uma cidade jovem, ainda se inventando, ainda aprendendo a andar. E foi nesse tempo de pressa e de esperança que o apito nasceu, bem ali na Rua Hugo Cabral, 506, a antiga Rua Ceará, quase como um coração que alguém tivesse acabado de acender dentro do peito da cidade.
Às oito da manhã ele rasgava o ar pela primeira vez. Era o grito da vida anunciando que o dia começava, que o trabalho tinha valor, que havia motivo para levantar cedo. Às onze e meia soava de novo, chamando os homens de volta para casa, para o prato quente e o descanso breve do meio dia.
Voltava às treze e trinta, empurrando a cidade de volta ao ritmo, e por fim, às dezoito horas, encerrava o dia com um som quase solene, como quem agradece por mais uma jornada vencida.
Quem cresceu ouvindo aquele apito aprendeu a marcar a vida por ele muito antes de aprender a marcar a vida pelo relógio. As mães sabiam a hora de esquentar o almoço. Os operários sabiam a hora de guardar a ferramenta. Os estudantes do Hugo Simas também se sintonizavam por aquele som, ajustando o passo entre a sala de aula e a rua conforme o apito indicava. As crianças sabiam a hora de correr para casa antes que escurecesse. O apito não avisava apenas o horário. Ele contava, todos os dias, a mesma história de recomeço.
Havia algo de romântico naquele som repetido, algo que resistia ao tempo mesmo sem pedir licença para isso. O apito não era ordem nem obrigação. Era uma trilha sonora tecida sobre o dia a dia da cidade, um jeito de guardar na memória o tempo que se vivia, a segurança gostosa de uma rotina planejada, um laço invisível amarrando cada pessoa a todas as outras naquele mesmo instante.
Havia nele uma poesia mais funda do que muita poesia escrita, algo que lembrava os Três Apitos que Noel Rosa cantou em 1933, lá na sua Vila Isabel carioca, ou o Sinal de Apito que Carlos Drummond de Andrade escreveu ainda jovem em Belo Horizonte, quando compunha os versos de Alguma Poesia. Como naqueles versos, o apito da Cipasa também soava como sinal de vida, como aviso de que o tempo seguia seu curso e que ainda havia gente ali, atenta, à espera do próximo
chamado. Enquanto o café erguia a cidade e a cidade erguia suas primeiras avenidas, o apito seguia ali, fiel, pontual, como se fosse ele o verdadeiro pulso de Londrina. Anos depois, em 1977, aquele mesmo cruzamento ganharia o Calçadão, e a Cipasa passaria a soar bem na sua cabeceira, quase como se o apito tivesse ajudado a abrir caminho para aquele novo coração de pedestres. Não contava datas nem nomes. Contava presença. Contava gente viva, trabalhando, esperando,
sonhando um pouco mais alto a cada manhã.
O tempo passou, os prédios mudaram de forma, as ruas ganharam outro asfalto, e até o silêncio aprendeu novos sons para preencher o centro da cidade. Em 2017 a Cipasa deixou aquele endereço na Hugo Cabral e seguiu para a Rodovia Carlos João Strass, já na saída da cidade, levando consigo o nome, a tradição e os anos de história, mas deixando para trás o som que por tanto tempo marcou aquele cruzamento. Desde então o centro de Londrina segue sem o seu apito, e quem passa hoje por aquela esquina não escuta mais nada às oito, às onze e meia, às treze e trinta ou às dezoito
horas.
O velho prédio já foi demolido, e um novo empreendimento nasce agora naquele mesmo endereço.
Fica a esperança silenciosa de que, entre projetos e plantas, alguém se lembre de devolver à cidade aquele som que um dia marcou o coração da cidade.
Mas para quem viveu aquele tempo, os quatro apitos do dia continuam ecoando em algum lugar da memória, lembrando que houve uma época em que bastava um som simples, honesto e pontual, para lembrar Londrina de que ela estava viva.
Marcos Defreitas é jornalista e colunista convidado deste Portal














