Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

A estupidez, segundo Bonhoeffer

2 comentários

A estupidez, segundo Bonhoeffer

 

Por Marcos Cesar Gouvea

Em uma das suas famosas Cartas da Prisão,  Dietrich Bonhoeffer alerta para o perigo da estupidez nas relações políticas e sociológicas entre os grupos morais. Ele era prisioneiro da Gestapo desde abrill de 1943, acusado de conspiração e traição a Hitler. Segundo Bonhoeffer, diferentemente do mal e da malícia com seus derivativos inveja, cobiça e ciúme, a estupidez é refratária a argumentos, pode se tornar perigosa e até mesmo violenta. Suas reflexões são hoje assustadoramente atuais.
No texto “Estupidez”, escrito na prisão em 1944, Bonhoeffer diz que “a pessoa estúpida,  ao contrário da maliciosa,  está plenamente satisfeita consigo mesma  e,  sendo facilmente irritável, torna-se perigosa ao passar ao ataque.  Por essa razão, exige-se maior cautela ao lidar com o estúpido do que com o malicioso”(1).
O teólogo escreveu suas reflexões em 1944, preso em Tegel, tentando entender como a Alemanha sucumbiu ao regime de Adolf Hitler. (2)  De acordo com o pastor, a libertação da estupidez só pode ocorrer por uma conversão interior do indivíduo para uma vida responsável diante de Deus, ilustrada pela Bíblia no Salmo 111:10: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; bom entendimento têm todos os que cumprem os seus mandamentos; o seu louvor permanece para sempre “.
Pastor luterano, Bonhoeffer percebeu logo o perigo que representava a ascensão do nazifascismo na Alemanha na década de 1930, por meio do voto, num país política e economicamente devastado pelos encargos impostos pelo Tratado de Versalhes, pela falência da República de Weimar,  a hiperinflação e o Crash da Bolsa norte-americana em 1929. Um terreno fértil para a demagogia do infâme cabo austríaco.
Rapidamente a democracia foi minada por Hitler e asseclas, que prometiam “tornar a Alemanha grande novamente”. A ditadura foi instaurada em 1933 com o fechamento do Executivo e Legislativo, abrindo caminho para a destruição da Europa e a morte de 50 milhões de pessoas.

Inscreva-se aqui no nosso canal do youtube

Bonhoeffer liderou a oposição às leis discriminatórias contra judeus – o Holocausto judeu matou 6 milhões – e outras minorias. Quando a maioria dos cristãos alemães passou a apoiar o hitlerismo, Bonhoeffer foi empurrado para a clandestinidade como um dos líderes da recém criada Igreja Confessante, que divergia das maiorias luterana e católica, apoiadores do novo regime ditatorial. Ele não se limitou a falar contra a ditadura, mas cumpriu papel ativo no movimento que tentou  derrubar e eventualmente assassinar o ditador.
À medida que o regime se tornava mais sanguinário e a oposição era exterminada, Bonhoeffer atuava para manter seminários clandestinos, era um dos líderes da Igreja Confessante e trabalhava para retirar os perseguidos no país. Contrariando a insistência de amigos no Exterior,  Bonhoeffer insistiu em voltar ao seu país de uma viagem em 1939 aos Estados Unidos. Ele tinha plena consciência dos riscos, mas voltou ao serviço.
Com a Segunda Guerra em curso e o aumento das atrocidades nazistas, na Alemanha e nos países invadidos, outros importantes teólogos como Karl Barth,  Martin Niemoller e Paul Tillich,  juntaram-se a Bonhoeffer na condenação à insanidade nazista.

Inscreva-se aqui e receba as notícias pelo seu whats

Barth voltou ao seu país, a Suíça,  e Niemoller, que a princípio simpatizava com o nacionalismo, tornou-se opositor e acabou preso em 1938 e só foi libertado no fim da guerra.  Paul Tillich foi para o exílio nos EUA.
Na vertigem da guerra e com a maré da virando contra as forças do Eixo, Hitler, paranóico e enlouquecido, deu ordens pessoalmente para a execução de Bonhoeffer semanas antes do seu próprio suicídio. O pastor foi enforcado na prisão militar de Tegel em 9 de abril de 1945, uma semana antes do fim da Segunda Guerra na Europa.(3)
Na manhã de sua execução Bonhoeffer estava sereno, segundo testemunho de outro prisioneiro. Chegou a pregar um sermão final entre os presos. Fez uma oração no cadafalso e suas últimas palavras segundo um piloto da RAF foi: “Este é para mim o fim, o começo da vida”.
A fragmentada produção teológica de Dietrich Bonhoeffer foi coletada e sistematizada no pós-Guerra, especialmente pelo seu amigo Eberhard Bethge.Ele se tornou um dos principais teólogos cristãos do século passado. Suas reflexões sociológicas e políticas são hoje assustadoramente atuais num mundo marcado pela ascensão de partidos políticos autoritários de extrema-direita,  inclusive na própria Alemanha.

Referências;

Estupidez

https://www.crossway.org/articles/this-day-in-history-the-execution-of-dietrich-bonhoeffer/

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/592293-da-estupidez-dietrich-bonhoeffer-1943

Tópicos:
Compartilhe:

Veja também

2 comentários

  • Um risco ao citar Bonhoeffer!

    Citar Bonhoeffer é forte justamente porque nos obriga a olhar para um problema maior do que a simples falta de inteligência, a incapacidade de questionar as próprias certezas.
    Mas existe uma ironia importante nisso, chamar o outro de “estúpido” pode ser exatamente a armadilha que ele nos alerta a evitar.
    Pensar criticamente exige reconhecer que ninguém está imune à cegueira coletiva, nem quem acredita estar enxergando melhor que os demais.

  • Funcionário da Sanepar

    Em 4 de outubro de 2026, o Brasil será chamado a fazer uma escolha por si mesmo.
    Há momentos em que uma eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos e se transforma em uma reflexão sobre os caminhos de uma nação inteira.
    O Brasil chegará a esse momento em 4 de outubro de 2026.
    Naquele domingo, não será apenas um governo que estará em julgamento.
    Será também a capacidade do próprio povo brasileiro de escolher, democraticamente, o país que deseja construir.
    Depois de décadas marcadas por crises políticas, denúncias de corrupção, problemas institucionais, crescimento do crime organizado, desafios na educação, elevada carga tributária e perda de confiança nas instituições, ninguém mais pode alegar ignorância.
    O brasileiro conhece o país em que vive.
    Conhece os hospitais que precisam de melhorias, os desafios das escolas, as estradas que necessitam de investimentos, a violência cotidiana, o custo para trabalhar, empreender e produzir.
    Conhece também os inúmeros escândalos públicos que se sucedem e as diferentes interpretações sobre suas causas e consequências.
    Será uma pergunta fundamental:
    Que país o Brasil deseja construir a partir de agora?
    Cada lado da disputa apresentará suas propostas, suas críticas e suas interpretações sobre o momento que o país atravessa.
    Caberá ao eleitor avaliar as informações, conhecer as propostas, analisar os resultados e decidir livremente.
    Sustentar a própria família, trabalhar, empreender e produzir continua sendo um desafio para milhões de brasileiros, diante de impostos, burocracia e insegurança.
    O brasileiro foi muitas vezes levado a aceitar dificuldades como inevitáveis.
    Aprendeu a sobreviver em vez de exigir melhorias.
    É isso que pode fazer da eleição de 2026 um momento importante para a democracia brasileira.
    Se, conhecendo tudo o que viu, tudo o que viveu e tudo o que lhe foi apresentado, a maioria optar pela continuidade ou pela mudança, essa será uma escolha legítima feita pelas urnas.
    Nenhuma nação se constrói apenas por causa de seus governantes.
    Nações se fortalecem quando seus cidadãos participam, acompanham as instituições, cobram resultados e respeitam a democracia.
    Mas existe sempre um caminho a seguir.
    Seja qual for o resultado, o Brasil precisará continuar buscando responsabilidade fiscal, liberdade econômica, segurança pública, valorização do mérito, eficiência do Estado, respeito às liberdades individuais e, acima de tudo, instituições democráticas fortes.
    Talvez ainda seja possível recuperar algo que o país vem buscando há muito tempo:
    dignidade nacional.
    Que o eleitor escolha livremente, que as instituições sejam respeitadas e que a democracia prevaleça.

Deixe seu comentário