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Cláudio Osti

A Ditadura dos Olhos Vazios

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Por Almir Escatambulo

Olho para o Brasil de hoje e vejo uma imensa cegueira moral disfarçada de bom mocismo. Ontem foi o Zezinho, fisioterapeuta, meu amigo, sujeito de luta, candidato a deputado federal. Estava lá, fincando suas bandeiras no asfalto de Londrina, exercendo o direito sagrado de existir publicamente, quando surge a alma caridosa da vez. Um fiscal da vida alheia, um desses heróis da hipocrisia, que arranca as bandeiras do canteiro e decreta: “Aqui é perigoso para um deficiente visual”.

Vejam a sofisticação da maldade! Não é uma agressão física explícita, é pior: é a violência da “proteção”. É o sujeito que enfia o preconceito numa embalagem de falso cuidado para desinfetar a rua da presença de quem ele julga que não deveria estar ali. É o apartheid afetivo da nossa classe média.

Isso me lembra a minha campanha, em 2020. Fazia minha campanha para vereador na Vila Nova, meu território, minha história. De repente, um assessor de outro candidato — sempre um lacaio do poder — me aborda com a condescendência nojenta de quem fala com um bebê: “Você não devia estar aqui, já é tarde, vá para casa dormir”. É a infantilização como arma de exclusão. O cidadão vira uma criança de cinco anos aos olhos do imbecil funcional que acha que o mundo pertence apenas aos corpos perfeitamente produtivos e padronizados pela engrenagem capitalista.

E a engrenagem é velha, meus amigos. Em 2004, eu fui ajudar o João Durval, também meu grande amigo, advogado, cego, candidato a vereador. Entrei numa loja na Rua Sergipe. O comerciante, com o pragmatismo frio de quem só enxerga o cifrão, perguntou se ele era da colônia. Ao ouvir que não, que era um advogado lutando por direitos, veio a pérola definitiva, o resumo da ópera bufa nacional: “Se ele não enxerga, vai fazer o que lá? Dar trabalho e despesa?”.

Pronto. Ali a máscara caiu. Para essa gente, a dignidade humana se mede pela planilha de custos. O deficiente visual na política não é um cidadão com propostas; é “despesa”. É o utilitarismo mais rasteiro e cruel que dita as regras de uma sociedade que se diz cristã e civilizada, mas que no fundo tem a alma de um contador de senzala.

Chamam isso de capacitismo. Um nome técnico, moderno, quase limpo. Mas vamos dar o nome real: é covardia. É o pavor que a normalidade neurótica tem de enfrentar a diferença. O cego incomoda não porque não vê, mas porque obriga o resto do mundo a enxergar a própria mediocridade. Eles acham que estão protegendo o Zezinho ou a mim do perigo das ruas, mas na verdade estão tentando proteger a si mesmos do perigo de ter que evoluir.

O Brasil é esse país paradoxal, onde os que têm olhos preferem a escuridão do preconceito, enquanto os que não enxergam as luzes da cidade iluminam o caminho da verdadeira democracia no asfalto.

Almir Escatambulo e cientista social e colaborador do Portal

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