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Cláudio Osti

A Estética do Voto e o Vazio das Urnas

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Por Almir Escatambulo

Olho para o painel das apurações e não vejo apenas números; vejo o espelho retrovisor de uma Londrina que insiste em se redefinir pelo avesso. Elegemos Jessicão, Deivid Wisley, Felipe Machado e consagramos a era Marcelo Belinati. Um quarteto dissonante, uma ópera bufa paranaense que sintetiza perfeitamente o espírito do nosso tempo: o triunfo da personalidade sobre a liturgia do cargo.

Comecemos pelo maestro dessa sinfonia de asfalto e propaganda: Marcelo Belinati. O homem que transformou a prefeitura em uma extensão do seu próprio carisma familiar. Sua grande virtude foi devolver à cidade uma autoestima de canteiro de obras; limpa, iluminada, com o viaduto funcionando e a máquina pública azeitada. Há nele uma inteligência política rara, quase cinematográfica, de saber falar com o homem comum sem perder o verniz do poder. Mas o defeito caminha lado a lado com a glória. O belinatismo padece de uma centralização asfixiante, de um personalismo que por vezes flerta com o marketing vazio e que anestesia o debate de profundidade, trocando a discussão de longo prazo pela entrega imediata da próxima rotatória.

Na outra ponta do espectro da sobrevivência política, temos os novos donos da voz legislativa. Jessicão é o vulcão da direita ruidosa. Sua virtude é a autenticidade cortante, a coragem de verbalizar o que o conservadorismo de bastidor apenas sussurra. Ela não tem medo do ridículo e, por isso mesmo, conecta-se com as massas órfãs de representatividade. O defeito? A política reduzida ao meme, a transformação do plenário em um tribunal ideológico de internet, onde o espetáculo da indignação frequentemente engole a profundidade técnica que os projetos de lei exigem.

Já Deivid Wisley e Felipe Machado personificam o pragmatismo da presença. Wisley tem o mérito incontestável de entender o pulso dos bairros, o assistencialismo que a burocracia estatal esquece, a política do corpo a corpo e da causa animal que toca o eleitor no cotidiano. Machado traz o verniz da juventude conectada, a articulação que transita bem entre as redes e os gabinetes. Mas ambos sofrem da mesma miopia que assombra a nova geração: a dependência absoluta da imagem e o risco de se tornarem reféns de nichos específicos, confundindo a gestão de demandas pontuais com a macrovisão que uma cidade de meio milhão de habitantes necessita.

E é aqui que reside o grande mistério que a esquerda e a direita derrotadas em Londrina precisam decifrar. O que faltou para a multidão de candidatos que naufragou nas urnas? Por que eles pareciam fantasmas burocráticos diante desse quarteto?

Faltou pele. Faltou sangue. Faltou a compreensão trágica e fascinante de que a política moderna não se faz mais com teses acadêmicas de esquerda ou com cartilhas tecnocráticas de direita. Boa parte dos concorrentes parecia recitar discursos psicografados por marqueteiros de fita cassete. Falavam de um orçamento abstrato para um eleitor que está preocupado com o buraco na sua rua ou com a validação de suas crenças mais íntimas no WhatsApp.

Belinati, Jessicão, Wisley e Machado — cada um à sua maneira caótica e imperfeita — entenderam que o voto é um ato de conexão estética e emocional. Eles possuem o que os outros, engomados em suas certezas ideológicas, perderam pelo caminho: a capacidade de serem vistos como seres humanos reais, com virtudes reluzentes e defeitos escancarados. Enquanto a oposição paulificava discursos moralistas ou sociológicos, eles operavam na frequência do rádio de pilha e da tela do celular. Para chegar ao patamar deles, os derrotados precisavam, antes de tudo, ter descido do pedestal da própria empáfia e aprendido a sangrar em público. Londrina escolheu o teatro da vida real, com todo o seu barulho e sua furiosa imperfeição.

Almir Escatambulo e cientista social e colaborador do Portal

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