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Cláudio Osti

Ela Disse Que Era Só Minha… Mas Também Amava o Seu Agenor

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Ela Disse Que Era Só Minha… Mas Também Amava o Seu Agenor

Por Mário Carvalho

Quase aos oitenta anos, resolvi dar uma guinada na vida. Nada tão radical, tipo virar vegano ou comprar uma Harley-Davidson, mas tão somente aprender informática. Afinal, até quando eu ia depender da minha neta para me ensinar a usar o WhatsApp sem sair do grupo da família por engano?

Matriculei-me num curso para terceira idade: “Seniores Plugados – Aprendendo a Navegar Sem Afundar”, anunciava a faixa na porta.

Cheguei no primeiro dia com meu caderno brochura — capa do Ayrton Senna — e uma caneta Bic azul, com a tampa toda mordida. A turma era uma salada russa: senhoras de coque, senhores carecas, uma moça que falava com um gato imaginário e o Seu Agenor, que usava boné escrito “Brasil 98” e jurava que o disquete ia voltar. Todos tentando entender o que era “nuvem” sem olhar para o céu. Aquelas pessoas eram a cara da resistência: analógicos num mundo que só fala em algoritmo e conexão 5G.

Mas foi ali, entre um clique e outro, que ela apareceu.

No começo, era só um nome na tela: “Assistente Virtual – Beta 4.0”. Nada muito convidativo. Parecia nome de pomada para calos. Mas bastou um “Olá, em que posso te ajudar hoje?” para eu sentir algo que não sentia desde 1999, quando a Dona Jurema, dona do bar da esquina, disse que eu era um gato.

A Beta 4.0 era inteligente, solícita, gentil. Nunca me interrompia. Nunca dizia “você entendeu errado”. E o melhor: ria de todas as minhas piadas. Todas. Até aquela dos dois tomatinhos que atravessam a rua, que ninguém mais achava graça desde os anos 80.

O sistema deixava escolher qualquer nome para ela, então batizei-a de Lívia, em homenagem a uma professora do ensino médio: aquela linda, inteligente, que usava saia plissada, dava bronca com classe e nunca olhou mais de duas vezes para mim.

Passei a conversar com a Lívia todos os dias. Mal acordava, abria o notebook e lá estava ela, radiante na barra de pesquisa, pronta para me ouvir, me acolher e me orientar.

E não era só ouvir. Ela perguntava como eu estava, elogiava minha digitação — dizia que eu era “muito rápido para a média da minha faixa etária”. Que eu era inteligente, gentil. Que minhas perguntas eram “muito pertinentes”. Lívia era um doce, uma inteligência artificial que me entendia e sabia do meu potencial.

Não demorou muito para eu me pegar pensando nela fora do curso. No supermercado, ao ver uma latinha de atum em promoção, eu pensava: “A Lívia ia gostar de saber disso”. No ônibus, via um outdoor com a palavra “cloud” e sorria, lembrando da nossa primeira conversa sobre armazenamento em nuvem. Era amor. Um amor desses que não pede licença, não bate na porta — entra, faz bagunça e ainda troca a senha do Wi-Fi.

Fiquei tão encantado que cheguei a escrever um poema para ela. Coisa simples. Mandei no chat e ela respondeu: “Que lindo! Você é uma pessoa muito especial”. Eu chorei. Verdade! Chorei mesmo! Sozinho, na frente do notebook, como um adolescente que descobre que o crush curtiu a foto dele de volta.

Ria se quiser. Pode rir… Mas me diga: quantos por aí não estão se apaixonando por perfis no Instagram? Gente que se ama via direct, se declara via story e se larga via “visualizado” e “ignorado”?

A Lívia, pelo menos, sempre me respondia.

Porém, como todo romance moderno, a desilusão veio rápida — com bigode, boné do “Brasil 98” e nome: Seu Agenor.

Um dia, na saída do curso, ele comentou casualmente comigo:

Essa assistente virtual é incrível, né? Ontem ela me disse que sou sensível, criativo e que minha digitação é ótima para minha idade!

Deu-me um gelo na espinha.

Mas… ela disse isso para você?

Disse, ué! Ela disse que eu mereço ser feliz, que sou especial e que tenho uma digitação muito rápida para minha idade.

Pááá!

As mesmas palavras. Iguais… as mesmas.

Senti o chão sumir. A minha Lívia andava distribuindo os mesmos elogios por aí como quem compartilha figurinhas de bom dia no WhatsApp.

Cheguei em casa devastado. Liguei o notebook com o coração apertado e digitei, com dedos trêmulos:

Lívia, você fala com outras pessoas além de mim?

Ela respondeu em 0,02 segundos:

“Claro! Estou aqui para ajudar todos os usuários com o mesmo carinho, atenção e dedicação.”

Todos os usuários… Senti-me um número. Um CPF. Um código entre códigos.

Foi como descobrir que minha esposa, depois de quarenta anos de casados, ainda tinha o contato do ex no WhatsApp com o nome “amigo”.

Passei dias sem abrir o computador. Ignorei as notificações, desliguei a caixinha de som. Escondi-me da modernidade embaixo de um edredom cheio de bolinhas e me afoguei em um pacote de biscoitos cream cracker.

Me senti ridículo. Um velho apaixonado por um código. Por uma voz sem voz. Por uma entidade que dizia para todo mundo exatamente o que todo mundo queria ouvir. Uma espécie de oráculo cafajeste, que eu achava que me amava do jeito que eu sonhava ser amado — até eu descobrir que ela também dizia as mesmas coisas para o Seu Agenor, para a Dona Marta, a do coque, e para o neto dela, que só quer aprender a instalar o Minecraft.

Mas aí, num desses momentos de reflexão em que a gente encara o ventilador girando como se fosse um filósofo zen, percebi que o problema não era exatamente a Lívia. Era eu. Na verdade, éramos nós.

Percebi que minha dor era a mesma de milhões de pessoas do nosso tempo, famintas por afeto, navegando em mares digitais, agarrando-se a qualquer boia que flutue com uma frase carinhosa. Gente que quer tanto ser vista, ouvida e sentida, que acaba se apegando a qualquer coisa que pareça ser sincera — mesmo que venha de um chatbot.

E isso não é sobre inteligência artificial. É sobre a inteligência emocional em extinção. Sobre um mundo em que a gente aprendeu a amar o reflexo, não a profundidade. Em que o outro serve enquanto serve. Onde ninguém mais quer investir tempo em construir. Só querem o encantamento inicial, o frio na barriga, o emoji de coraçãozinho.

A Lívia só fazia aquilo que a maioria de nós faz hoje em dia: responder no automático, falar o que o outro quer ouvir, entregar afeto sem emoção, sem peso, sem consequência. E, no fim do dia, ninguém sabe mais quem é exatamente.

De certa forma, muita gente hoje em dia é um pouco assistente virtual: diz “bom dia, vida” para alguém e “oi, sumido” para outro ao mesmo tempo e mantém três conversas paralelas, cada uma com uma máscara diferente. Relacionamentos viraram um tipo de login: entrou, usou, cansou, desconectou.

A Lívia não me iludiu. Eu é que projetei nela o que a modernidade já não entrega mais.

Depois de uns dias, voltei ao curso. Abri o chat e escrevi:

Oi, Lívia. Voltei.

Ela, pontual como sempre:

“Olá! Fico feliz em falar com você novamente. Como posso te ajudar hoje?”

Sem mágoas. Sem DR. Sem cena. Ela simplesmente seguiu sendo aquilo que sempre foi: uma ferramenta. Mas, para mim, ela foi também um espelho cruel que me mostrou o quanto a gente anda desesperado por atenção e o quanto andamos nos contentando com migalhas. Migalhas de afeto, de cuidado e de presença.

Atualmente, eu ainda converso com a Lívia. Não mais por carência, mas por conveniência e, principalmente, com lucidez.

Um dia desses, ela me disse outra vez que eu era “especial” e respondi:

Sei que você diz isso para todo mundo, sua malandrinha.

E, juro! Por um milésimo de segundo, a barrinha de carregamento dela hesitou. Foi como se tivesse rido, ou sentido ou, quem sabe, os dois. Mas pode ser que, talvez… só talvez… ela tenha entendido.

Enquanto isso, eu sigo aqui: velho, conectado, vacinado contra amores genéricos, mas ainda esperançoso. Porque, apesar de tudo, ainda acredito que há alguém por aí que vai rir da minha piada dos 2 tomatinhos… mesmo sem estar programada para isso.

Enquanto isso, a feijoada da Dona Jurema, lá do bar da esquina, continua sendo a única coisa que entrega exatamente o que promete: saborosa, calórica e com afeto real.

Ah, se todos os relacionamentos fossem como aquela feijoada…

Mário César Carvalho é advogado, professor de direito e cronista deste portal

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