
Por Marcos Defreitas
A terra vermelha de Londrina tem uma força antiga, um pulsar que teima em brotar na memória, mesmo quando coberta por espessas camadas de asfalto.
Na década de 1930, quando a Companhia de Terras Norte do Paraná desenhou o futuro no meio do Norte do Paraná, o engenheiro Alexandre Rasgulaeff traçou as linhas do que hoje chamamos de Vila Brasil, um sussurro de pioneirismo onde as casas de madeira e pau a pique, emolduradas por delicadas cercas de balaustrada, disputavam espaço com a imensidão verde do café.
Quem viveu os anos 1940 e 1950 conheceu um bairro de chácaras silenciosas, onde praticamente todas as casas eram de peroba. Hoje, as últimas casas de madeira resistem bravamente no local como testemunhas silenciosas de um tempo de puro encanto. Aquela rotina rural logo deu lugar a uma vida comunitária, lembrada no tempero e na alma, como na Casa Cultural da Vila, ali na Rua Uruguai.
Esse desenho de mundo começou generoso, cortado a régua pelo plano da Gleba Patrimônio Londrina, com lotes de quase 600 metros quadrados, feitos para abrigar gerações sob a sombra dos pomares.
Foi nesse chão acolhedor que a boemia e a convivência ganharam forma. Ali fincaram raízes o histórico Mercado Lince, o famoso Bar do Goiano e o lendário Bar Zebrão. Foi ali também que nasceu o primeiro Gelobel da família Zanoni, além do icônico Bar do Tomio, pontos de encontro de gerações que cruzaram sorrisos no Palácio do Futsal e nas danças do clube da terceira idade, na Rua Mar del Plata, palco do baile dos idosos mais famoso e afetuoso da cidade.
O tom lírico do bairro deve muito a figuras como o “Don Pablo” de Londrina, o poeta popular José Cândido de Oliveira, o querido Zé Poeta, morador do bairro e parente dos Zanoni. Já na década de 1990, a família batizou a segunda unidade do seu famoso bar como Gelobel Don Pablo, em sua homenagem. Entre a tradição das perobas e a ousadia do progresso, o bairro também abraçou o estilo arquitetônico com a chegada do modernismo na Super Quadra Tupã, harmonizando o ontem e o amanhã.
O aeroporto sempre esteve ali perto, lembrete perpétuo de que Londrina nasceu vocacionada para alçar voos altos. Projetada originalmente para ser uma cidade de apenas 20 mil habitantes no seu auge, a metrópole desconheceu os próprios limites e, em uma única e vertiginosa década, saltou para quase 80 mil almas. O céu da Vila Brasil é diariamente rasgado pelo rugido poético dos aviões que cruzam as nuvens bem acima dos telhados e ditam o ritmo desse corredor pulsante, tendo a Rua Bolívia como palco principal de sua metamorfose.
A Vila Brasil é vizinha da Via Expressa, obra que simboliza a ousadia de José Richa e Wilson Moreira ao rasgar a cidade para diminuir o tempo do trajeto. No mesmo ritmo de evolução, a Av. Bandeirantes se alargará conforme o projeto do IPPUL, emendando-se com a Rua Bolívia na Avenida Duque de Caxias para conectar diretamente o fluxo até o Aeroporto em imponentes 30 metros de largura.
É nesse encontro entre a nostalgia da terra roxa e a audácia do amanhã que o bairro vive sua maior revolução. Tenho ouvido falar muito da Vila Brasil ultimamente e, como bem observa o ex-Secretário de Cultura Bernardo Pellegrini, a região está se reinventando e se desenha agora como uma efervescente vila gastronômica. As antigas varandas e os quintais de outrora abrem alas para novos sabores. Quem olhar atento percebe a grande oportunidade do momento, pois a Vila Brasil hoje, com terrenos ainda muito baratos, tem tudo para se tornar um dos metros quadrados mais valorizados da cidade.
O bairro não perdeu sua essência. Ele se renovou com poesia, transformando cada pedaço desse chão histórico em um dos endereços mais desejados de Londrina.
Marcos Defreitas é jornalista e cronista convidado deste portal.














