
O jornal já chegou amarelo às minhas mãos. Lembro bem. Era início dos anos 1980 quando achei aquele pedaço folhado de história e, sem pensar muito, usei-o como marcador. Guardei-o no meio das páginas de um livro pesado, que acabou virando a sua morada definitiva. Ali, ele descansou por mais de quatro décadas, quietinho, protegido do sol e do tempo, até que resolvi reabrir a obra e me deparei novamente com a manchete garrafal de 22 de novembro de 1964, “Conclusão de médica alemã, os gordos comem até ter fome”.
Confesso que dei uma risada sozinho. A doutora de Düsseldorf, lá nos meados dos anos 60, anunciava a sua grande descoberta com a gravidade de quem revela o segredo do universo. O problema é que as pessoas continuam comendo mesmo depois que a fome passa!
Ora, doutora, com todo o respeito à ciência alemã, mas qualquer um que já esteve diante de uma mesa de domingo, num almoço de família, sabe disso sem precisar de jaleco.
A parte mais fascinante de ler esse recorte hoje, mais de sessenta anos depois de sua publicação original, é ver como a medicina da época tentava decifrar o corpo humano. A médica até acertou em cheio numa coisa. O cérebro prega peças na gente, e o tal mecanismo da saciedade às vezes entra em pane. Mas a solução que o jornal apresentava para o problema era pura literatura de época.
Em 1964, se o seu número na calça aumentava, a culpa era exclusivamente da sua falta de vergonha na cara. O remédio prescrito na matéria? Uma disciplina férrea, dietas milimetricamente calculadas e o fantasma dos manequins magérrimos da alta-costura de Paris pairando sobre a sua cabeça como um tribunal de sentença.
Era o império do sacrifício. Passe fome, reze duas ave-marias e feche a boca.
Avançamos mais de seis décadas, e o contraste é quase cômico. Se, nos anos 60, a promessa de cura era a vontade de ferro e o sofrimento no prato, hoje a ciência trocou o sermão moralista pela biologia molecular.
A tal disciplina espartana virou aplicação semanal de hormônio sintético na ponta de uma agulha fininha. O cérebro, que antes era acusado de fraqueza moral, agora é visto como um emaranhado de receptores e hormônios com nomes difíceis, como leptina e grelina.
No entanto, trocamos o sofrimento antigo pelo uso, muitas vezes descontrolado, dessas novas canetas, impulsionado pelo modismo, ignorando com frequência os riscos de transformar um remédio sério em simples atalho estético.
Desdobrar esse papel velhinho me fez perceber que a nossa relação com o prato mudou da água para o vinho — ou da disciplina de ferro para a caneta emagrecedora.
A médica alemã de 1964 ficaria de queixo caído ao ver que a solução para aquele apetite misterioso não veio do heroísmo da vontade, mas de um laboratório.
Dobrei o jornal com cuidado e o devolvi para o seu casulo entre as páginas do livro. Que continue ali, na sua morada velhinha, lembrando que o tempo passa, as teorias médicas mudam, mas a nossa eterna briga com a mesa continua sendo uma das histórias mais humanas e engraçadas que existem.
Marcos Defreitas é jornalista e cronista convidado deste Portal














