Por Almir Escatambulo
Nos últimos tempos tenho notado algo legal, às vezes incômodo, porém, muito bacana: o cidadão de Londrina é um forte. Eles me abordam nos semáforos da cidade e me oferecem ajuda para atravessar. Às vezes reluto, dependendo do cruzamento, mas aceito o braço estendido de bom grado. Afinal, tenho a maturidade de entender que o nosso trânsito é uma selva hostil, onde as leis viárias parecem meras sugestões poéticas e o pedestre é um alvo móvel.
Enquanto sou rebocado pelo asfalto quente graças à boa vontade de um desconhecido, me vem à mente a luta de uma vida inteira. Penso em como seria revolucionário se Londrina tivesse um planejamento urbano acessível, desenhado para pessoas com deficiência, idosos e grávidas. Mas a utopia dura pouco. Logo lembro que, para a nossa Câmara de Vereadores, o direito de ir e vir com dignidade é rotulado como “mimimi”. Para o Poder Executivo, calçada transitável deve ser artigo de luxo. A lógica dos nossos governantes é genial: para que gastar orçamento com urbanismo se a população pode resolver a mobilidade urbana na base do voluntariado?
O mais tragicômico é que o crime de negligência é cometido à luz do dia e contra a lei federal. A Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) e o Decreto nº 5.296/2004 exigem vias públicas acessíveis e seguras como obrigação do Estado, e não como favor. Mas, nas rodinhas políticas locais, planejar uma cidade para todos é tratado como “frescura” ou “pataquada que só existe no Brasil”. Enquanto os excelentíssimos parlamentares seguem encastelados em gabinetes confortáveis desfrutando de suas emendas, eu sigo sobrevivendo aos cruzamentos de Londrina, rezando para não virar estatística nas mãos de um motorista imprudente e esperando que um milagre divino ilumine a cabeça de algum prefeito ou vereador.
A conclusão disso tudo é de uma obviedade gritante: se a prefeitura e a câmara trabalhassem metade do que o londrinense trabalha para salvar a pele do próximo no trânsito, a acessibilidade funcionaria perfeitamente. Mas, como no Brasil a política prefere o palanque ao planejamento, a gestão pública municipal atingiu o ápice da eficiência: conseguiu privatizar as calçadas e terceirizar a aplicação das leis federais para o braço do primeiro passante caridoso que aparecer antes do sinal abrir.
Almir Escatambulo, cientista social e colaborador do Portal














