Por Chico Amaro
Foi sexta-feira cedo. Eu estava descarregando o carro na frente de casa quando reparei numa menina pequena caminhando sozinha na calçada oposta. Uma menina que não faz muito que aprendeu a andar. Com menos de dois anos, calculei, mas já ia firme sobre as pernas. Firme, tranquila e decidida. Não sorria nem crispava. Pessoa séria.
Nunca a tinha visto na nossa curta rua de menos de 100 metros. Ela devia ter saído da casa do fim da rua, a casa nova com novos moradores. Resisti à vontade de pegá-la no colo e ir bater palmas lá. E se ela resistisse e chorasse? Eu ia me sentir mal.
Então decidi apenas segui-la. Tinha tempo de sobra. Tentei falar-lhe, não me deu bola. Fiquei dois passos atrás dela e fomos em frente em direção à transversal. Já perto do fim da rua, decidi que era hora de voltar, pensando que ela ia dobrar a esquina e sumiríamos da vista. Os pais, se fossem procurá-la, iam se desesperar.
Me adiantei, pus-me na frente dela e convidei-a a voltar. Nem ligou, procurou desviar-se para continuar. Cerquei de novo. Daí, sem mover um nervo, mantendo o ar pacífico, ela preferiu me atender. Deu meia volta e continuou caminhando normalmente, comigo atrás.
Só então, em frente à última casa da rua, apareceu alguém à procura dela. Pela idade, era a avó. Tão tranquila quanto a menina. Andou até nós com calma, sem demonstrar nem apreensão nem alívio. Mas com um pequeno sorriso no rosto.
“É sua?”, perguntei. “É.” “Eu a vi sozinha e fui atrás.” “Ah, obrigada. Ela morava num condomínio tranquilo e costumava ir para a rua sozinha.” “Aqui pode ser perigoso.” “Sim, vamos tomar cuidado.” “Como ela se chama?” “Cecília.” No colo da avó, a Cecília continuava calada e nem olhava para mim. “Felicidades pra senhora e pra Cecília.” “Obrigada. Deus lhe pague.”
Não é muito comum eu me sentir um anjo da guarda que cumpre o dever. É gostoso.
Chico Amaro é professor aposentado da Universidade Estadual de Londrina, jornalista dos bons e cronista














2 comentários
Apolo Theodoro
Foi um prazer enorme ler o seu relato cuidadoso com a Cecília, nada mais lógico, uma menina ou qualquer um que precisa de amparo é só encontrar o Chico Amaro, abração saudoso amigo.
Marcelo Villas Boas Pajolla
Chico Amaro além de excelente jornalista, um grande professor!!