
Por Almir Escatambulo
Olho para a garrafa de Brahma aqui na Mercearia Brunieri, na Rua São Salvador, enquanto o sol de fim de tarde desenha sombras compridas no toldo, e me pego pensando na nossa velha mania de mudar tudo para que tudo continue exatamente igual. O calendário na parede insiste que estamos em 2026, os noticiários da manhã, tanto da internet, como da mídia tradicional, desfilam uma nova safra de escândalos políticos e as manchetes cochicham os segredos bancários do momento — agora é a vez do Banco Master ocupar as rodas de conversa e os bastidores do poder nacional.
Mas se a gente fechar os olhos por um segundo e esquecer as siglas partidárias da vez, sente um aroma de coisa antiga. Um perfume de mofo que vem de séculos atrás.
Inscreva-se aqui no nosso canal do youtube
Lembrei-me de Raymundo Faoro e de seu monumental Os Donos do Poder. O velho Faoro, com aquela paciência de quem decifra a alma de um país torto, já tinha desenhado o mapa dessa engrenagem. Ele nos ensinou sobre o estamento burocrático, essa camada que se apossou do Estado brasileiro ainda nas caravelas portuguesas e que nunca mais largou o osso. Não é uma classe social, compreendem? É uma corporação de privilegiados que trata o patrimônio público como se fosse o quintal de sua própria casa — o tal do patrimonialismo.
Inscreva-se aqui e receba as notícias pelo seu whats
E como o mundo gira e cai no mesmo lugar, cá estamos nós. Os escândalos políticos de 2026 e o turbilhão envolvendo o Banco Master nada mais são do que os netos e bisnetos daquela mesma estrutura que Faoro descreveu. Mudam-se os colarinhos, que agora são mais modernos, trocam-se as carruagens por jatinhos e contas digitais, mas o mecanismo permanece intocado. O público e o privado continuam se abraçando no escuro, trocando favores, costurando emendas e salvando finanças amigas com o dinheiro que deveria colorir a vida do homem simples da rua.
A verdade é que os donos do poder não caem do trono; eles apenas mudam de cadeira conforme a música do governo da vez. Nós, os cronistas de boteco e os cidadãos que pagam a conta da cerveja, assistimos à mesma peça de teatro, ano após ano, encenada por novos atores que decoraram perfeitamente o mesmíssimo texto colonial.
Almir Escatambulo e cientista social e colaborador do Portal













