
A Copa do Mundo mal começou e já entregou mais assunto do que muito Mundial inteiro. Foram apenas dez dias e o futebol resolveu jogar no modo sem limites.
Tudo começou na abertura. Shakira cantou, dançou, encantou o estádio e, poucos minutos depois, metade da internet já estava investigando se era mesmo a Shakira ou uma dublê. A humanidade ainda não descobriu a cura para várias doenças, mas consegue criar uma teoria da conspiração em menos de três minutos.
Logo na estreia entre África do Sul e México surgiu outro protagonista inesperado. O árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio resolveu aparecer mais que atacante. Distribuiu cartões vermelhos para todos os lados, virou meme mundial e ainda chamou atenção por outra razão. Após a partida, deu entrevistas em inglês com uma naturalidade que deixou muita gente surpresa. Teve torcedor achando que ele era árbitro da FIFA. Outros ficaram na dúvida se era professor de Cambridge fazendo um bico nas férias.
Do lado argentino, a tranquilidade durou menos que promoção de passagem aérea. Antes mesmo da bola rolar, argentinos e argelinos já estavam trocando empurrões, provocações e encaradas. A rivalidade começou antes do apito inicial.
Quando a bola finalmente rolou, entrou em cena Lionel Messi.
Em determinado momento, o craque argentino deu uma sentada monumental em um jogador da Argélia. As redes sociais enlouqueceram. Teve gente pedindo cartão vermelho, suspensão, expulsão e até investigação internacional.
Mas alguém realmente acreditava que a FIFA expulsaria Messi?
Seria a Disney expulsando o Mickey Mouse.
O camisa 10 respondeu do jeito mais Messi possível. Marcou três gols. Três. Terminou a noite empatado com Klose na liderança da artilharia histórica das Copas do Mundo com 16 gols. Enquanto a internet discutia a sentada, Messi discutia a eternidade.
Mas talvez a maior história da semana tenha vindo de um homem chamado Vozinha.
Aos 40 anos, o goleiro resolveu virar uma muralha diante da Espanha. Defendeu tudo. Chute forte, chute fraco, cabeçada, rebote, desvio e provavelmente até sinal de Wi-Fi. O antigo meme do “essa até minha vozinha pegava” foi aposentado por falta de uso.
Em poucos dias, Vozinha ganhou mais de 14 milhões de seguidores nas redes sociais. O problema é que os detetives da internet perceberam que, logo depois, ele passou a seguir mais de duas mil mulheres no Instagram. O homem fechou o gol, abriu o aplicativo e partiu para um novo campeonato.
Nas arquibancadas, o espetáculo continuou.
A torcida da Noruega protagonizou uma remada viking espetacular. Durante alguns minutos parecia que os antigos navegadores nórdicos tinham desembarcado diretamente no estádio.
Os brasileiros, por sua vez, simplesmente pararam a Times Square. Bandeiras, cantorias, batuques e festa. Quem passou por lá teve dificuldade para descobrir se estava em Nova York ou em alguma avenida brasileira depois de um título.
E então vieram os japoneses.
Após o jogo, enquanto muita gente já procurava o metrô, o restaurante ou o hotel, eles ficaram para trás recolhendo lixo e limpando as arquibancadas. Em uma Copa cheia de craques, eles lembraram que educação também pode arrancar aplausos.
A Alemanha resolveu colaborar com a loucura geral ao aplicar um sonoro 7 a 1 em Curaçao. Pela primeira vez desde 2014, o Brasil pôde olhar para um placar desses e dizer que não estava mais sozinho.
Mas o mais bonito aconteceu depois do apito final.
Jogadores alemães e de Curaçao se reuniram para uma oração coletiva no gramado. Nenhum deles parecia preocupado com o placar naquele momento. Havia apenas gratidão, respeito e fé.
Foi uma das imagens mais bonitas desta primeira semana.
Porque a Copa mostra que existe disputa sem ódio. Existe rivalidade sem inimizade. Existe vontade de vencer sem perder o respeito por quem está do outro lado.
Talvez seja exatamente isso que Jules Rimet imaginou quando criou a Copa do Mundo. Um torneio onde povos diferentes se encontram, competem, celebram e compartilham histórias. Um lugar onde milhões de pessoas podem torcer apaixonadamente por cores diferentes e, ainda assim, lembrar que pertencem ao mesmo planeta.
Dentro de campo, os craques também deram espetáculo.
Messi marcou três vezes. Mbappé deixou dois. Haaland marcou dois. Vinícius Júnior fez o dele. Outros astros começaram a escrever seus capítulos.
Já Cristiano Ronaldo…
Bem, Cristiano Ronaldo participou da Copa.
E talvez essa seja a forma mais elegante que uma crônica esportiva consegue encontrar para resumir sua primeira semana.
Se tudo isso aconteceu em apenas sete dias, talvez seja melhor ninguém fazer planos para as próximas semanas.
A Copa do Mundo está apenas começando.
E já está completamente maluca.
*MARCOS DEFREITAS é jornalista formado na Universidade Estadual de Londrina e cronista convidado do portal














