*Por Álvaro Ferreira
São pouco mais de onze da manhã de um dia comum e meu celular já contabiliza duas horas e meia de uso de tela. Nossas vidas estão presas a celulares e outros dispositivos. Neles pagamos contas, fazemos reuniões de trabalho, conversamos com os filhos, consultamos o valor do dólar, gravamos um show in loco (ao invés de curtir o mesmo), fazemos reuniões de negócios, apostamos na loteria, ou jogamos paciência (sim, tem quem ainda o faça).
Mesmo com todas essas funções e o uso das telas quase em tempo total, nada tem consumido mais energia, emoções e minutos preciosos do que as tretas nas redes sociais. Impossível ficar imune a elas. Claro, sabemos que há pessoas com capacidade de fugir dos longos pseudodebates que infestam as redes sociais e os aplicativos mensageiros. Infelizmente, não sou uma dessas virtuosas criaturas.
Até 2018, mais ou menos, eu era bastante ativo nas redes, me posicionando sempre conforme aquilo que acreditava ser o justo e o verdadeiro, seja na política, no futebol ou em qualquer outra discussão. Talvez porque sempre fui um dos otimistas com a chegada da Internet.
Nos anos 90, havia uma discussão sobre a relevância da Internet para a humanidade, e muitos intelectuais contabilizavam como extremamente valiosa a possibilidade de dar voz às pessoas comuns, assim como incrível potencial de aquisição de conhecimento e troca de informações que a rede mundial de computadores estava nos proporcionando.
Bem, hoje sabemos que estávamos olhando somente para a ponta de um iceberg, que escondia milhares de barafundas de pessoas prontas a emitirem opiniões, juízos e expressões retiradas diretamente de seus intestinos, prontas a chutar o pau da barraca e mandar “à ponte que partiu” o primeiro antagonista que aparecesse.
No mesmo estilo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”, não sabemos quem gerou quem: se as tretas nas redes geraram a polarização política ou a polarização que gerou esse turbilhão de bate-bocas. E o agravante é que a situação não tem dado sinais de reversão. A cada dia que passa, parece aumentar o número de pessoas que entram em discussões acirradas. Antes no Orkut, depois no Facebook, hoje no Instagram. Antes no Twitter, hoje no Facebook, e por aí vai. O Twitter virou “X”, e hoje parece mais um ringue digital. Entre por lá sem luvas de boxe e você será nocauteado em menos tempo que Bambam diante de Popó.
Ao contrário do que reza a moda na ciência política e nos debates acadêmicos atuais, influenciada pelo pensador queridinho dos progressistas, Jurgen Habermas, penso que a sociedade democrática não melhora através de consensos. Isso não quer dizer que a busca de consensos não tenha o seu lugar (defendo, por exemplo, que a negociação política ocupa um papel importante no dia a dia da política real).
Tenho discutido bastante com um amigo – o Prof. Dr. Amador Batista – sobre isso. Recentemente, nosso último debate tem versado sobre a relação entre negociações e dissensos na sociedade aberta (aquela que combina democracia com liberalismo). Batista é veemente na defesa do dissenso para a política, ao mesmo tempo em que rechaça as negociações. Devo dizer que ele está correto no que diz respeito ao dissenso. É a divergência de opiniões e o debate que tais divergências geram na busca pela verdade que uma sociedade corrige seus rumos e avança, na busca de um mundo melhor para seus concidadãos. Nem sempre sabemos se estamos indo na direção certa, mas pelo debate podemos depurar nossas ideias e corrigir nossas rotas. A ciência, por exemplo é permeada pelo dissenso. Essa ideia da importância do debate nas sociedades democráticas foi a que me levou a ser otimista no começo da Internet, quando ainda se usava o Orkut e o MSN.
Em 2015, o intelectual italiano Umberto Eco sacudiu o debate sobre a comunicação na era digital, ao dizer que a Internet tinha dado voz a uma legião de imbecis. Segundo Eco, “a Internet promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”. Se no aspecto moral Eco denota uma ponta de arrogância intelectual, do ponto de vista factual ele está – infelizmente – mais do que certo. Indivíduos sem a mínima noção de Ética (em especial a que leva em consideração a figura do outro, e num debate, a ideia de que o outro pode estar correto e você errado) e sem a mínima humildade quanto à precariedade de muitas das ideias discutidas numa rede social, descambam em verborragia e ofensas aos seus interlocutores. Eu mesmo, confesso, já caí na cilada de deixar meus comentários serem postados carregados de fel.
Isso me custou uma amizade de décadas, um quase irmão, e várias mais ou menos relevantes. Muita gente perdeu o convívio de familiares. Pessoas morreram, no período eleitoral, por conta da discussão política. Mundo afora, a polarização e as discussões desmedidas e violentas tomam conta das redes sociais e extrapolam para a vida familiar, encontros de amigos e trabalho.
Se você observar, caminhamos – na pauta das mídias sociais e no broadcasting tradicional – de beligerância em beligerância. Se alguém se dispuser a fazer uma cronologia factual das tretas de redes sociais, vai se deparar com o fato de que as mesmas tomam conta da vida cotidiana, do debate político, dos jornais e telejornais, e das análises filosóficas. Sim, tá tudo dominado.
Tá um saco!
Penso que as tretas são o “zeitgeist” (termo filosófico alemão que significa o espírito e a cultura de uma época) desse primeiro quarto de século. Triste constatação. O que me leva à reflexão sobre o que podemos e o que devemos fazer para minimizar ao máximo as contendas. Para além da questão ética, que precisa ser considerada (precisamos ensinar nossas crianças o comportamento ético, a ideia de que não somos donos do mundo nem de nossas ideias), penso que não devemos abandonar a ideia do debate, como disse antes, fundamental para o desenvolvimento da sociedade aberta.
Porém, precisamos adotar algo que cientistas adotam, intelectuais sérios também e – por incrível que pareça – pessoas muito humildes adotam: debater, mas sempre, impreterivelmente, na forma de diálogo. Pense em dois amigos velhinhos, semianalfabetos, acima dos oitenta anos, discutindo política no banco da praça. Um coloca sua tese, e o outro, ao discordar, não ofende, não desdenha, apenas responde: “ – É compadi, eu penso deferente”.
É dessa sabedoria que carecemos, penso eu. Urgentemente.
Alvaro Ferreira é Jornalista e Publicitário.
Mestre em Ciências da Comunicação pela USP















2 comentários
Antonio
Alvaro Ferreira sendo Alvaro Ferreira. Sempre claro e deixando os outros a pensar.
Indalécio Madruga
Excelente artigo! O autor traduz com clareza a era que estamos vivendo.