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Cláudio Osti

Falo alto, logo existo

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Falo alto, logo existo

Por Mário César Carvalho

Quero crer que o bom senso não morreu, apenas tirou uma licença não remunerada.

Porque convenhamos: viver em sociedade hoje em dia é aceitar que talvez nunca mais estejamos sozinhos. Mesmo quando estivermos. Basta sairmos de casa para sermos nomeados confidentes, auditores, terapeutas e testemunhas oculares da vida de gente que nunca vimos e que, se existir justiça nesta terra, nunca mais veremos.

Ao que parece os espaços públicos se tornaram grandes salas de espera onde ninguém mais espera nada e todo mundo fala. E fala alto… Sempre alto… Muito alto. E o celular, esse pequeno artefato que cabe no bolso, mas nem sempre no nosso desconfiômetro, deu às pessoas um poder inédito de transformar qualquer lugar de convívio coletivo em escritório, sala de reuniões ou consultório psicológico.

Logo cedo, entro na padaria e dou de cara com um dos personagens desse drama urbano. Uma moça andando de um lado para o outro enquanto a atendente espera (im)pacientemente para saber qual será o pedido dela. Mesmo com o celular em posição horizontal, colado à boca, a voz dela reverbera, fazendo vibrar até o pão doce. Ali na fila, parado, esperando, fico sabendo que o ex dela “não estava pronto para a relação”, “que a terapeuta já tinha avisado sobre isso” e “que ela não vai correr atrás, não”. Vai correr, sim! Talvez não atrás do ex, mas da atenção de alguém com certeza! Mesmo que isso custe o pão francês esfriar e a nossa paciência esquentar.

Olho para o relógio, confiro o horário, calculo o tempo e acabo desistindo do café da manhã. Saio de lá com fome e emocionalmente sugado. No ponto de ônibus, encontro outro tipo: um rapaz que acredita que caminhar em círculos, como caranguejo, melhora a recepção do sinal da operadora. Segurando o telefone colado na orelha, cotovelo aberto, meneando a cabeça ora para cima, ora para baixo, ele fala como quem comanda tropas: “Eu já disse para ele que assim não funciona, entendeu? ASSIM. NÃO. FUNCIONA!!!”

Internamente, me pergunto: mas o que será que não funciona? A empresa? O contrato? A vida? Não importa. Fato é que ali, esperando o ônibus, fico sabendo que “vai ter corte na empresa”, que “o chefe é um inútil funcional” e que “se o salário atrasar de novo, ele vai estourar”. Na verdade, quem vai estourar somos nós, meros mortais que só querem poder esperar o transporte silenciosamente, metidos em nossos próprios pensamentos.

Dentro do buzão, a fauna se diversifica. Ali está outra figura, uma jovenzinha que aboliu a escrita, provavelmente por considerá-la uma forma opressora de comunicação. Ela grava áudios épicos que invariavelmente sempre começam com a mesma introdução: “Então, amiga…”. Daí, entre arrancadas, freadas, manobras bruscas e gente pedindo licença para passar, ela narra a semana inteira. E fico abismado porque, no meio do áudio principal, ela ainda consegue mandar outros áudios secundários: “Peraí, amiga, que o motorista tá freando”, “Ai, tem uma mulher querendo passar”. E junto com o motorista, a minha paciência vai freando também.

Finalmente, consigo um lugar para sentar. Atrás de mim, está um tiozinho que recebe mensagens com o volume do telefone configurado em um nível tal que os bipes se assemelham ao sensor de ré de um caminhão, que parece estar manobrando dentro do ônibus. Cada plin soa insistentemente estridente, ecoando diretamente no centro do meu juízo. E ele lê, ri e comenta em voz alta para si mesmo com frases curtas e enigmáticas como: “Não acredito!!!” … “Ah! Essa é boa!!!”.

Boa para quem, Tio? Para a humanidade? Para o seu grupo dos “Amigos da Sinuca”? Por acaso seria mais uma receita milagrosa de raízes que supostamente cura tudo, menos a necessidade de compartilhar sua vida digital com todo mundo que está perto de você?

Finalmente, chego ao prédio onde trabalho e vejo que o elevador, aquele lugar que era o antigo santuário do silêncio constrangido, foi transformado em uma espécie de podcast involuntário, onde todo mundo que entra ou sai, querendo ou não, acaba sabendo demais.

Outro dia, encontrei lá um sujeito que decidiu fechar grandes negócios entre o térreo e o oitavo andar. Ele não falava, apresentava. Citava números, prazos, margens e concorrência. E tudo em voz alta, para que nenhum detalhe escapasse, não somente do seu interlocutor, mas, também, de todos os demais passageiros. Saí de lá com informações suficientes para abrir uma filial da empresa dele.

E o pior é que parece que ninguém acha isso estranho. Revelar intimidade virou moda que incomoda. Tem gente que no metrô discute dívida, juros, atraso, valor das parcelas. Um dia desses, uma senhora de meia-idade descrevia para sua amiga (e para todo o vagão) um problema médico seu, com uma riqueza de detalhes anatomicamente indiscreta. De vez em quando alguém faz DR em viva-voz, citando sem pudor os problemas mais íntimos do relacionamento. Outros, mencionam nomes, datas e detalhes picantes dos seus casinhos. Tudo despudoradamente compartilhado com estranhos que, como eu, só desejam existir, por cinco minutos, mergulhados nas suas próprias existências.

É claro que a tecnologia não fez isso sozinha. Ela apenas abriu a porteira. Quem saiu correndo e berrando fomos nós. De repente o silêncio virou suspeito e quem não fala, ou fala baixo, começou a parecer estranho. Quem digita é antiquado e o moderno é expor, amplificar, projetar, compartilhar.

No fim do dia, ao voltar para casa, entro no elevador do meu prédio e um milagre acontece: silêncio. Um silêncio tão raro que quase dá vontade de pedir desculpas por ele. As luzes dos números dos andares sobem lentamente e, por incrível que possa parecer, por alguns segundos ninguém fala, ninguém gesticula, ninguém compartilha traumas, boletos ou estratégias de negócios. É como se a civilização sinalizasse que ainda continua viva.

Penso, então, que talvez ainda exista salvação. Que o bom senso esteja apenas em modo de economia de bateria e a noção do ridículo escondida atrás de alguma atualização de software pendente.

Ledo engano meu. Ledo engano. Logo um celular vibra e alguém atende. Em viva-voz, claro! A conversa começa em volume alto, meio íntima demais para caber ali dentro. Andar por andar a porta se abre e cada um que sai leva consigo para dentro da intimidade do seu lar pedaços da vida alheia que recolheu ao longo do dia.

De repente a porta se fecha e estou sozinho.

Fecho os olhos e percebo que é assim que o dia termina: carregando histórias que não pedi, de pessoas que não conheço, sobre assuntos que não me dizem respeito. E que, no fundo, todo esse barulho não é bem novidade. O ser humano sempre teve necessidade de falar, de ser ouvido, de existir aos olhos do outro. O que mudou foi só o volume.

Talvez seja isso. Quem sabe por baixo de todo o ruído o que cada um busca é apenas ser ouvido por alguém. Qualquer alguém. E se esse alguém tiver que ser um estranho, que seja. O mundo sempre foi solitário. O que mudou foi o volume.

Então respiro fundo, solto o ar devagar e sigo em frente. Porque no fim das contas, entre um plin e outro, carregando na cabeça ecos do dia, o drama emocional da moça da padaria, os áudios intermináveis da jovenzinha, a doença da senhora do metrô, as estratégias do executivo do oitavo andar e as frases curtas e enigmáticas do tiozinho, a vida continua. Barulhenta, intrometida e, apesar de tudo, ainda bastante interessante…..por vezes cômica.

*Mário César Carvalho é advogado, professor de direito e cronista deste portal

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