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Cláudio Osti

José Antônio Kast é eleito presidente do Chile, uma guinada à direita

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A vitória de José Antonio Kast nas eleições presidenciais do Chile revela um conjunto de fatores sociais, políticos e econômicos que ajudam a explicar por que uma parcela majoritária do eleitorado optou por uma guinada à direita — a mais acentuada desde o fim da ditadura militar, em 1990.

O principal motor desse movimento foi o medo. Kast construiu sua campanha explorando de forma direta a crescente sensação de insegurança vivida por muitos chilenos. Embora o país ainda figure entre os mais seguros da América Latina, os dados mostram um aumento expressivo da criminalidade violenta nos últimos anos, associado à atuação do crime organizado, ao uso das fronteiras porosas do norte e à exploração de rotas migratórias. Esse contraste entre a memória de um “Chile pacífico” e a percepção atual de perda de controle foi decisivo para mobilizar eleitores, especialmente nas áreas urbanas.

Associada à segurança pública, a questão migratória tornou-se um tema central. O crescimento do número de imigrantes em situação irregular — majoritariamente venezuelanos — passou a ser visto por parte do eleitorado como um fator de pressão sobre serviços públicos, mercado de trabalho e segurança. Kast ofereceu respostas simples e duras: deportações em massa, militarização de áreas críticas e a criação de uma força policial inspirada no ICE dos Estados Unidos. Mesmo consideradas extremas por muitos, essas propostas encontraram ressonância em eleitores cansados do que percebem como incapacidade do Estado em impor ordem.

Outro elemento importante foi o desgaste da esquerda no poder. Após o governo de Gabriel Boric, marcado por dificuldades econômicas, conflitos com o Congresso e frustrações em torno das reformas estruturais prometidas após o estallido social, parte da população passou a associar a esquerda à instabilidade e à falta de resultados concretos. Nesse contexto, Kast conseguiu se apresentar como uma alternativa “de ruptura”, ainda que pela direita, canalizando o voto de protesto e o desejo de mudança.

A eleição chilena também se insere em um movimento regional mais amplo, de fortalecimento de lideranças conservadoras ou de direita dura na América Latina, como Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador e Daniel Noboa no Equador. Em todos esses casos, temas como segurança, ordem, austeridade fiscal e rejeição ao establishment tradicional foram decisivos, indicando uma mudança de humor do eleitorado diante de crises persistentes.

No campo econômico, o discurso de redução do Estado e corte de gastos públicos agradou setores empresariais e investidores, especialmente em um país estratégico na produção de cobre e lítio. A reação positiva do mercado financeiro após a eleição sugere que parte da sociedade vê na agenda liberal de Kast uma promessa de estabilidade e crescimento.

Por fim, a própria trajetória de Kast ajuda a explicar o resultado. Após ser considerado “radical demais” em eleições anteriores, ele encontrou em 2025 um cenário mais propício: um eleitorado mais inseguro, mais polarizado e disposto a aceitar soluções duras em nome da ordem. Ainda assim, seu governo deverá enfrentar limites claros, sobretudo por conta de um Congresso dividido, o que tende a moderar ou travar suas propostas mais extremas.

O Chile não elegeu Kast apenas por adesão ideológica à extrema-direita, mas como resposta a medos concretos, frustrações políticas e sensação de perda de controle. A eleição revela menos uma guinada automática ao conservadorismo e mais um alerta sobre os custos sociais e políticos de crises prolongadas sem respostas eficazes.

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1 comentário

  • Há Lagoas

    Uma excelente notícia, capaz de reacender a esperança! Que 2026 nos conceda a oportunidade de desalojar o atual inquilino do Palácio do Planalto. Enquanto isso, torcemos pelo Chile como sinal de que ainda é possível retomar o crescimento, conter o avanço do Estado e devolver protagonismo à sociedade.

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