Por Almir Scatambulo
A Copa do Mundo acabou, meu caro amigo, e a vida, essa criatura teimosa, já começa a recolher os confetes. Daqui da minha janela, enquanto o crepúsculo engole os telhados e o café esfria na xícara, fico a pensar na monumental bobagem e na infinita beleza que é o futebol.
Armaram uma lona gigante na América do Norte. Disseram que quarenta e oito seleções eram necessárias para abrigar a alma humana em formato de bola. Bobagem. O futebol não precisa de multidões no palco; ele precisa de drama. E drama, você sabe, é coisa que se resolve entre dois ou três, nunca entre cinquenta.
Nosso Brasil, coitado, passou por lá como quem visita um parente distante e enfadonho. Empatou aqui, ganhou acolá de vizinhos sem expressão, mas quando cruzou com a Noruega — terra de homens frios e bacalhau —, empacou nas oitavas. Ficamos em um melancólico décimo primeiro lugar. O torcedor brasileiro, que antes via em cada perna um Romario ou Ronaldo salvadores da pátria, hoje assiste ao jogo com uma paciência de funcionário público esperando a sexta-feira. Fomos embora sem choro nem vela, apenas com a constatação de que o futebol brasileiro anda precisando de menos tática e mais mistério.
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E então, no domingo, o mundo parou para ver a velha e conhecida tragédia humana se repetir em Nova Jersey. De um lado, a Argentina de Lionel Messi, em sua última valsa sob as luzes da ribalta. Do outro, a Espanha, com aquela sua pressa elegante de quem troca passes como quem dita versos.
Foi um jogo feio de doer as vistas no tempo normal. A Argentina passou noventa minutos sem dar um mísero chute ao gol, como um velho poeta que perdeu a inspiração na mesa do bar. Mas o destino, que gosta de uma prorrogação, guardou o sofrimento para o final. Foi quando Nico Williams mandou de cabeça e Torres acertou um balaço, estufando a rede e o peito de toda a Península Ibérica. Um a zero. Fim de jogo, fim de festa, fim de linha para Messi. A Espanha, que já tinha a Europa aos seus pés, agora unificou os reinos e levou o mundo.
No pódio, debaixo de uma chuva de papel picado e ao lado de políticos de dentes brancos, a Espanha sorria o seu bicampeonato. O circo foi embora, os estádios monumentais vão voltar a receber shows de música pop e o homem comum volta a se preocupar com o preço do feijão. A Copa de 2026 foi gigante no tamanho e singela no desfecho: provou, mais uma vez, que o futebol só serve para nos lembrar como é bom sofrer por aquilo que não tem a menor importância.














