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Cláudio Osti

Os bancões sabiam e participaram do esquema

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Os bancões sabiam e participaram do esquema

Por Israel Marazaki

Quando um escândalo financeiro vem à tona, o roteiro costuma ser previsível: monta-se um palco, escolhe-se um vilão conveniente e distribuem-se falas morais para a plateia. Enquanto isso, a engrenagem — aquela que realmente importa — segue girando intacta.
O caso do Banco Master segue exatamente esse script, com um agravante: desta vez, o silêncio é mais revelador do que as manchetes.
O que está em curso não é apenas uma tentativa de responsabilizar um banco específico. É um esforço coordenado para deslocar o foco, evitando discutir o ponto central: os grandes bancos sabiam, participaram e lucraram com o esquema.

O FGC atacado por quem deveria protegê-lo
Pouco se explica — talvez de propósito — que o Fundo Garantidor de Créditos não é estatal. Ele pertence aos próprios bancos. Trata-se de um arranjo privado, criado para garantir estabilidade sistêmica em situações excepcionais.
O problema começa quando o FGC deixa de ser um mecanismo de proteção e passa a ser instrumento funcional de captação e venda. No caso do Master, a garantia foi utilizada como argumento implícito de mercado, anestesiando a percepção de risco do investidor final.
Isso não é falha do fundo. É uso oportunista da estrutura.
Quando bancos atacam a credibilidade do FGC para se defender publicamente, não fazem um gesto retórico: realizam um movimento prático de sabotagem do próprio sistema que dizem proteger.

O mercado sabia — e distribuiu mesmo assim
Não há ingenuidade possível aqui.
O mercado financeiro sabia que o Banco Master:
pagava rentabilidades acima da média;
apresentava sinais claros de estresse;
operava fora do padrão conservador esperado.
Ainda assim, seus produtos foram ativamente distribuídos por grandes instituições aos seus clientes. Não por desconhecimento, mas por cálculo. Sabia-se do risco — e decidiu-se empurrá-lo adiante.

A comissão escancara o incentivo perverso
Este é o dado que quase ninguém quer discutir:
comissão média de mercado para distribuição de fundos: 0,5%;
comissão paga pelo Banco Master: 4,0%.
Oito vezes mais.
Comissões dessa magnitude não existem sem justificativa estrutural. Não se trata de agressividade comercial, mas de sinal claro de distorção de incentivos. Quem distribuía ganhava muito. Quem assumia o risco não era o distribuidor, mas o investidor final — amparado psicologicamente pelo FGC.
Não foi erro. Foi uma escolha racional de curto prazo.
O novo bode expiatório, as fintechs
Como se não bastasse, tenta-se agora espalhar um pânico seletivo contra fintechs e bancos digitais — um espantalho narrativo conveniente — como se o caso Master fosse consequência natural da “modernidade financeira”.
Isso é falso.
O Banco Master:
não era fintech;
não era banco digital;
não era pequeno.
Tratava-se de um banco de investimento, de médio porte, plenamente inserido no circuito tradicional do mercado financeiro, com relações estreitas com grandes distribuidores.
Misturar o caso com fintechs não é erro conceitual: é desinformação deliberada. E a pergunta que não quer calar é: a quem serve essa exata desinformação? Quem ganha com uma corrida de saques a essas instituições?
Não é possível afirmar.
Mas é inevitável pensar neles: os Bancões.
Eles ganharam muito dinheiro distribuindo o que agora chamam de títulos podres e nesta nova fase, herdariam os clientes que migraram, outrora, aos bancos digitais na busca por taxas menores.

Fundos, ocultação patrimonial e o silêncio conveniente
Há ainda um ponto estrutural que o debate público trata como tabu — talvez porque mexa com práticas antigas demais para serem chamadas de exceção.
No Brasil, não é incomum o uso de instituições financeiras de “classe alta” para ocultação patrimonial. Lembrai-vos do Banco Rural, um exemplo bem conhecido, de um modelo, que atravessa décadas: bancos e estruturas financeiras sofisticadas sendo utilizados como instrumentos de blindagem de patrimônio de origem duvidosa.
Quem precisa ocultar patrimônio, em regra, não o construiu de forma lícita ou plenamente defensável à luz pública. E, nesse contexto, fundos de investimento são ferramentas quase perfeitas.
Fundos:
diluem a titularidade direta dos recursos;
fragmentam a rastreabilidade;
criam camadas técnicas que afastam o olhar do leigo — e, muitas vezes, do fiscal.
Além disso, há um aspecto raramente mencionado: a lavagem de dinheiro costuma gerar prejuízo contábil aparente. O custo de “limpar” recursos ilegais não é neutro. Fundos permitem absorver essas distorções sob a aparência de má performance, volatilidade ou estratégia malsucedida, sem levantar alarmes imediatos.
Quando um banco estrutura fundos agressivos, fora da curva, pagando rentabilidades incompatíveis com o risco declarado, é legítimo perguntar: quem precisava exatamente dessa engenharia financeira criativa?
O verdadeiro escândalo?
Não. O sistema.
O escândalo é um sistema no qual:
grandes bancos identificam o risco;
distribuem o produto mesmo assim;
recebem comissões extraordinárias;
e, quando tudo vem à tona, fingem surpresa e apontam o dedo para o elo mais fraco da corrente.
O Banco Master não operou sozinho. Operou com plateia, com canal de distribuição e com incentivos claros.
Enquanto o debate público insistir em procurar culpados isolados seguirá cego pela cortina de fumaça e o modelo seguirá intacto. No Brasil, escândalos financeiros raramente morrem — apenas mudam de nome, de sigla e de silêncio.

*Israel Marazaki é empresário

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