
Por Mário César Carvalho
Outro dia, estava andando por um bairro daqueles tão caros que até o vento parece ter passado por entrevista de crédito, quando me deparei com um totem de vigilância recém-instalado. Brilhava como novo, girando suas câmeras em ritmo de paranoia, piscando luzes azuis e vermelhas e com uma voz robótica que anunciava: “Você está sendo monitorado”. Quase me emocionei. O futuro chegou — e trouxe com ele wi-fi, reconhecimento facial e um leve cheirinho de medo com verniz de segurança.
Claro que o totem não surgiu por acaso. Ele está ali porque o mundo é perigoso — sobretudo para quem tem muito a perder. As calçadas podem ser desniveladas, irregulares e cheias e presentinhos mal cheirosos e grudentos deixados, “sem querer” pelos “pais e mães dos pets”. O trânsito pode ser um caos e as pessoas não precisam dizer bom dia, boa tarde, boa noite ou com licença, mas tem que ter câmeras em 4K. Elas têm que estar lá para proteger as sacadas gourmet.
Na hora, me lembrei de 1984, de George Orwell. Lembra? O Grande Irmão? Aquele da vigilância permanente, do Estado onipresente? Naquele livro, ele imaginou um Estado totalitário espionando tudo e todos e errou por pouco. Isto porque hoje quem nos vigia não é o Estado, mas é a empresa de segurança, o grupo do WhatsApp do condomínio e o síndico digital com acesso ao painel de controle. O outrora poderoso e onipresente Big Brother de Orwell acabou virando prestador de serviço.
E o mais curioso — ou trágico — é que tem quem pague com gosto por isso. Financia sua própria falta de privacidade e ainda se galanteia: “Finalmente, podemos dormir tranquilos”. Tranquilos, mas monitorados. E a cada nova reunião do condomínio nasce mais um totem: em frente à “panetteria orgânica”, na esquina da “escola bilíngue, The Elite Nest”, ao lado da “academia premium, Mirror Worshipers Gym” ou na frente do “pet shop Maison des Animaux”.
Esses novos monumentos de vigilância são uma espécie de totens religiosos da elite urbana erguidos não como um símbolo de fé, mas ao medo. Muros altos, cercas elétricas, portas duplas, carros blindados — tudo parte da liturgia diária da autoproteção. Enquanto isso, o “lado de fora” — também conhecido como “o resto da cidade” — é mantido à distância, devidamente etiquetado como uma ameaça.
No fundo, é tudo uma encenação. A classe média finge que está segura, a classe alta finge que está isolada e o totem, girando sua câmera em silêncio, parece cansado de fingir. Ele tudo vê, mas nada muda. É só mais um figurante na peça do “condomínio utópico”, onde segurança é teatro e medo é política de convivência.
O sociólogo francês Loïc Wacquant já escreveu sobre isso em seus estudos sobre “urbanismo punitivo” — a forma como o medo é usado para justificar o fechamento dos espaços urbanos e o crescimento de enclaves fortificados nas cidades. Ele observa que, cada vez mais, não vivemos juntos, mas ao lado, separados por muros, câmeras e sensores. A cidade, antes espaço de encontro, vira um tabuleiro de zonas proibidas e territórios “vigiados”.
Porque no fim das contas, mais importante do que estar seguro é parecer seguro. Assim como em 1984, o fundamental não é liberdade, mas a sensação de controle e mesmo que tudo esteja desmoronando por dentro, o essencial é que a câmera continue funcionando e a voz metálica dizendo que tudo está sendo monitorado.
Caminhando um pouco mais, na outra esquina passei por outro totem. Ele piscou eu eu sorri e acenei. Como quem diz: “Fica tranquilo, Grande Irmão, sou só visitante, não vou tocar em nada.” Quase mandei um “E aí, tudo beleza?”. Mas acabei deixando para lá — afinal não queria aumentar a fila dos suspeitos.
Mário César Carvalho é advogado, professor de direito articulista do portal














