Desde 2008

Editor:
Cláudio Osti

Reflexão sobre o hino da Campanha da Fraternidade 2026

1 comentário

Por Juarez Arnaldo Fernandes

O hino da Campanha da Fraternidade de 2026 é mais do que uma canção: é um grito que nasce do chão da vida. Ele brota das calçadas, dos barracos, das noites frias em que tantos irmãos e irmãs dormem sem teto e sem paz; o canto do povo
que sofre, mas ainda acredita. O hino nos recorda que “o Verbo se fez moradia”, e isso muda tudo, pois Deus não veio habitar os palácios, mas fez casa no meio da pobreza.
O Evangelho que ecoa no hino é o mesmo que se encarna nas ruas: Deus caminha com quem não tem onde morar. Ele dorme sob a marquise, partilha o pão com o faminto, chora junto ao abandono, e a verdadeira fé não cabe apenas
nos templos, mas se manifesta em cada gesto de acolhida, em cada abraço que devolve dignidade. O mistério da encarnação não é passado: ele continua vivo no meio do povo.
Quando o amor se transforma em abrigo, o Evangelho deixa de ser palavra e vira gesto: “Por um lar de amor e justiça”, diz o refrão. Nesse lar se revela o Reino. Ser Igreja, então, é muito mais que celebrar: é abrir as portas, é fazer da comunidade uma tenda que acolhe, uma casa onde ninguém é estrangeiro.
Mas o hino não é apenas ternura; ele também é uma denúncia que desafia a indiferença e clama contra tudo o que desumaniza, pois enquanto milhares de famílias vivem nas ruas, há prédios vazios guardando o silêncio da injustiça;
enquanto mães esperam remédios e filhos estudam sob goteiras, a corrupção desvia o dinheiro que deveria alimentar e proteger o povo; cada centavo roubado é uma casa que não se constrói, é uma esperança que se apaga. A corrupção é o pecado moderno que fere a fé e crucifica os pobres, roubando o que é de todos e alimentando o egoísmo de poucos.
E o escândalo se torna ainda mais cruel quando o poder público e parte da sociedade tentam esconder a pobreza em vez de enfrentá-la. Há cidades, inclusive em Londrina, que criam projetos de leis proibindo pessoas em situação de rua de dormir nas praças e nos centros, e até impedem que cidadãos de boa vontade ofereçam alimentos e roupas.
Isso vai além da inconstitucionalidade: é uma ferida moral, uma negação da ética e da fé. Quem concorda com leis que expulsam os pobres e punem a solidariedade trai o Evangelho, ignorando sua mensagem de misericórdia e
acolhimento. Naquela época, Jesus, marginalizado e convivendo com os moradores de rua, leprosos, prostitutas, viu os fariseus e o poder políticoreligioso usarem as leis, mas distantes de sua mensagem de amor e justiça.
Hoje, vemos aqui, em nossa própria cidade, sinais desse mesmo farisaísmo e de um poder político-religioso no meio do povo que se dizem paladinos da fé e do Reino, presente inclusive em nossa Câmara Municipal composta em sua
maioria por cristãos, que levantam a Bíblia e proferem slogans de ‘deus, pátria e família’, enquanto negam o verdadeiro Evangelho presente no acolhimento aos excluídos e na defesa da dignidade humana.
O Deus do Evangelho não rima com a ideologia que veste o nome santo para esconder a indiferença, que disfarça a exclusão com moralismo e transforma a fé em bandeira de poder para um deus criado à imagem dos poderosos, e não
do Cristo pobre, crucificado e que fez da família um espaço de amor, partilha, cuidado; jamais de privilégio, intolerância ou dominação. Em idêntico teor e do mesmo modo, há também em outros campos ideológicos aqueles que, mesmo
proclamando defender os pobres e a justiça social, se afastam do Evangelho quando transformam as causas humanas em palco de vaidade, partidarismo e poder.
Neste cenário tão desigual, as vozes dos profetas voltam a ecoar.
Jó reconhece no sofrimento humano o Deus que permanece, mesmo quando tudo se perde; Jeremias chora nas praças e denuncia o coração endurecido que reza, mas não se comove; Isaías sonha com um mundo onde a justiça habita o
deserto e vê esse sonho renascer quando o direito vence a mentira e a solidariedade refaz o que a ganância destruiu; Amós, firme e valente, clama:
“Corra o direito como a água e a justiça como um rio perene! (Am 5, 24)”.
Esses profetas não são apenas lembranças do passado; são vozes que ecoam no presente. Falam dos que vivem esquecidos, dos idosos, das mães que lutam sozinhas, crianças sem esperança, e de um Cristo ainda desabrigado e faminto, enquanto a corrupção e a desigualdade persistem, e ‘cristãos’ permanecem omissos, alimentando a injustiça. Nesse momento, o hino deixa de ser apenas música e torna-se um clamor: a voz do próprio Cristo pedindo: ‘Dai morada ao pequeno e ao fraco, sede os braços que acolhem o bem!’.
A última estrofe é o coração dessa mensagem, não encerrando o hino, mas enviando-o. Quando canta que “nossa fé não se finda no altar”, somos chamados a transformar a Missa em missão, o pão em partilha, a oração em compromisso. E fala também da morada interior de Deus, que deseja habitar no coração de quem serve, acolhe e luta pela justiça, e é ali que a fé ganha corpo, que a doutrina se torna compaixão e que a liturgia se torna vida – a páscoa da fé: sair do templo e caminhar com o povo, levar o Evangelho até onde a dignidade ainda não chegou.
Hoje, ao cantar esse hino, não se canta apenas com a voz, mas canta com a vida.
A Campanha da Fraternidade de 2026 é um chamado à conversão social, um convite para que a fé tenha consequências e o amor ganhe endereço. Ser cristão, neste tempo, é erguer casas onde o sistema constrói muros, é semear justiça onde o poder gera desigualdade, é partilhar pão onde a ganância acumula riqueza.
O hino nos pede uma Igreja de pés descalços e coração aberto, que entra nas vilas, periferias, ocupações e favelas, e não se contenta em rezar, mas caminha junto e ajuda a reconstruir. Se Deus veio morar entre nós, ninguém pode permanecer indiferente ao irmão sem moradia, seja sob a ponte, em um barraco ou numa casa sem dignidade – a exclusão é a mesma, e clama por justiça. O verdadeiro templo do Senhor não está em paredes frias, mas no coração que ama, na casa que acolhe e na sociedade que protege, espalhando misericórdia e equidade.
E quando o canto se cala, permanece o apelo que não se apaga: não haverá morada para Deus enquanto houver irmãos sem casa e sem dignidade; não haverá Reino enquanto a corrupção roubar a morada e o pão dos pobres. Mas onde o amor se faz justiça e o cuidado se torna abrigo, ali Deus habita, e a humanidade recomeça.
Paz e Bem

Por Juarez Arnaldo Fernandes (JF)

Especialista em Cristologia pelo Centro Universitário Claretiano Hino da Campanha da Fraternidade de 2026

1. No caminho da vida sofrida, há irmãos sem abrigo, sem chão.
Na calçada, no bairro, na espera, brota o grito, o clamor do irmão.
Mas o Verbo se fez moradia no presépio da simplicidade:
vem morar com o pobre sofrido, transformando a dor em bondade!
“Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), Deus conosco em cada irmão!
Por um lar de amor e justiça, nosso canto as nações ouvirão.

2. Onde falta direito e cuidado, sobra medo, abandono e dor.
Mas a fé, que se faz compromisso, ergue a voz com firmeza e ardor!
Quando o amor for tijolo e telhado, e a justiça a nossa missão,
cada casa será testemunho do Evangelho de Cristo em ação!

3. Se o profeta levanta sua voz, é o Cristo que clama também:
“Dai morada ao pequeno e ao fraco, sede os braços que acolhem o bem!”.
Nossa fé não se finda no altar: partilhar brota em nós comunhão.
Espalhando as sementes do amor, nossa fé faz de nós mais irmãos!

Compartilhe:

Veja também

1 comentário

  • O Papai Noel que o Tiago Amaral vai colocar no Igapó promete ser mais assustador que o Fred Krueger. Vai ter criança chorando, assustada, achando que é vilão de filme de terror.
    Se a intenção é espalhar espírito natalino, vai acabar espalhando pavor.
    Pode esperar, as críticas vão vir fortes e com toda razão.

Deixe seu comentário